Sábado, 12 de Janeiro de 2008

Felicidade

FELICIDADE

 

 

A felicidade é o que todos desejam... É o que poucos têm... É o que ninguém tem sempre... E é o que todos pensam que só os outros é que têm.

A felicidade é mais um desejo que uma realidade. O homem é infeliz por natureza. É infeliz porque é insaciável.

A felicidade é a satisfação de um desejo. Sempre que alcançamos algo que desejávamos ficamos felizes. Mas após essa satisfação logo nasce novo desejo e acaba a felicidade. A “quantidade” de felicidade apenas depende da dificuldade ou vontade da satisfação do desejo. E a “duração” da felicidade depende da vontade de partir para novo projecto – crescer — ou do contentamento de ficar.

A natureza programou o ser humano para um crescimento constante, embora gradual — em escada — cada pequeno desejo alcançado ou projecto concluído é um degrau que se sobe. Ao seguirmos esta regra natural, sem acidentes naturais (porque os outros acidentes resultam da nossa teimosia em querer subir mais de um degrau de cada vez), atingimos o nível mais perfeito de felicidade — pouca felicidade de cada vez, mas muitos momentos de felicidade, e principalmente felicidade sempre crescente.

Mas o mundo económico-social e cultural em que vivemos alterou todas estas regras naturais. Por um lado fomentou a concorrência ao considerar que quem sobe mais e mais rapidamente é mais feliz, quer suba degrau a degrau ou os ultrapasse. Por outro lado fomentou a ignorância, ao considerar feliz quem vive sem desejos, sem projectos e logo, sem preocupações.

Estas duas formas de classificar a felicidade são antinaturais e são falsas. São anti-naturais porque tudo na natureza — em termos humanos — visa o crescimento e o aperfeiçoamento moderado, sem grandes aceleramentos nem grandes estagnações. E são falsas porque atingir o fim sem passar pelo meio é não gozar a felicidade do meio, e pode-se acabar por cair ou desejar descer. Da mesma forma que ficar feliz com pouco é correr o risco de um dia descobrir que há mais e que se perdeu, ou que os outros estão muito além e não mais os podemos alcançar. Esta regra aplica-se a tudo na vida. Quer em termos económicos, quer em termos sociais, quer em termos religiosos, quer em termos culturais, quer em termos profissionais — em tudo.

A vida normal em felicidade é de crescimento constante. Quem se recusar a crescer achando-se feliz com o que tem, faz, sabe e é, um dia acaba por descobrir que ficou para trás, e fica infeliz. Quem crescer demasiado rápido — muitas vezes pouco eticamente — e mostrar mais do que tem, faz, sabe e é, mais cedo ou mais tarde acaba por ser descoberto, e vai ficar infeliz por ser rejeitado ou ter que regredir. Na felicidade como em tudo na vida a regra é: tudo no lugar no seu tempo.

Quando uma pessoa é feliz com pouco (pobre, mas feliz!), ou feliz em demasia (o poder é felicidade!) durante toda a vida, é porque o tempo que viveu foi insuficiente para descobrir a verdadeira felicidade.

Na verdade, muitas pessoas são felizes durante toda a vida com felicidades falsas. A natureza é a mãe de tudo, dá tudo a todos, mas também tira tudo a todos, e o ser humano tem na sua natureza aspectos antinaturais. Toda a riqueza que existe é naturalmente de todos, se estivesse harmoniosamente distribuída todos seríamos felizes. Mas a cultura/sociedade alterou essa distribuição, e os poderosos consideram-se felizes no contínuo aumento do poder. Essa felicidade é falsa na medida em que possuem o que é dos outros e um dia acabam por se tornarem infelizes, ou por sentirem remorsos, ou por se tornarem odiados, ou por simplesmente verem que têm tudo e ao nada mais poderem desejar, descobrem que o poder não é felicidade. No entanto, antes de descobrirem que o poder não é felicidade, vivem como se fosse, mas fomentando que não é, para que os outros não o desejem. A célebre frase bíblica “felizes são os pobres...” é disso o melhor exemplo. E os pobres ao receberem esta informação falsa e devido à sua incapacidade de a testarem, acabam por se mentalizarem que é verdade. E são felizes também falsamente com mitos, com crenças, e com sonhos e desejos que nunca realizarão. E estas felicidades podem durar toda a vida de quem as vive.

Os poderosos são felizes ao aumentarem o poder, em oposição aos pobres que são felizes ao manterem a sua pobreza, e paradoxalmente, os poderosos tornam-se infelizes ao descobrirem que o poder não é felicidade, em oposição aos pobres que se tornam infelizes ao descobrirem que o poder é felicidade.

Tanto a felicidade dos poderosos como a felicidade dos pobres — materialmente e/ou de espírito — são felicidades falsas. No entanto, o seu efeito para quem as sente é real — é tão feliz o que tem o que deseja como o que não deseja o que não tem.

Assim, pode-se viver feliz durante toda a vida com felicidade falsa, mas corre-se o risco de um dia se descobrir que tudo é mentira, e essa descoberta é arrasadora. Pelo contrário, a verdadeira e natural felicidade não permite esta insegurança. A verdadeira felicidade está no respeito das regras impostas pela natureza, que tudo faz evoluir em equilíbrio recíproco.

O respeito pelas regras da natureza, em geral, engloba o respeito pelas regras da natureza humana. O ser humano descende da natureza não só no aspecto físico e biológico, mas também no aspecto psicológico e intelectual. Respeitar a natureza é respeitar os outros em consciência, dignidade, igualdade e justiça. A felicidade depende também desse respeito mútuo de uns pelos outros. Do respeito pela diferença e do respeito pela deficiência, física, mental e cultural. Cada ser humano tem determinadas características físicas e intelectuais, uns com mais capacidades numas áreas e outros noutras. A felicidade está nesse respeito da diferença. Todos temos altos e baixos, relativos ou absolutos, periódicos ou permanentes. Cada um deve saber quais as suas capacidades e limitações e criar objectivos conforme essas capacidades e limitações. É tão infeliz o que deseja o impossível como o que possui o indesejável. Ser feliz é saber crescer.

 

 

 

 


publicado por sl às 00:02
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