Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Homem

HOMEM

 

 

O     Homem e o princípio e o fim de tudo. Tudo o que existe, existe de e para o Homem. O Homem é a essência, a referência e o modelo ao qual tudo se compara, do qual tudo parte, e para o qual tudo converge. É a causa e o efeito de tudo.

O     Homem existe num espaço e num tempo determinado, mas sem saber exactamente qual. Todo o conhecimento que o Homem adquiriu partiu de si próprio para o exterior. As faculdades naturais que o Homem possui permitem-lhe estar no nível mais elevado de inteligência compreensiva, sobre tudo o que já atingiu. Recuando e avançando no tempo e no espaço até aos limites atingidos, o Homem nunca encontrou outro ser de inteligência igual ou superior. Também nunca recebeu provas concretas de que foi encontrado por outro ser de inteligência igual ou superior. Assim, o Homem sabe que existe muito mais tempo e muito mais espaço para além do que ele conhece, mas porque ele o descobriu, com estudos, com técnicas e com imaginação. Tudo partiu dele próprio, numa evolução de milhares de anos para atingir o nível actual de conhecimentos. A tendência evolucionista aponta para cada vez mais descobertas e mais conhecimento, sendo, no entanto, cada nova descoberta é um salto no desconhecido, e o desconhecido tanto pode ser a sua glória como a sua infâmia.

O     homem é um ser natural. Existe na natureza como todos os outros seres. A natureza é composta por átomos de diversos elementos. A aglomeração de átomos de cada elemento e a composição conjunta dos átomos de diversos elementos criaram uma unidade composta por duas forças — a matéria e a energia. Tudo na natureza e matéria ou energia. A reunião da matéria e da energia em determinadas proporções complexas e desconhecidas originou a vida. A vida é matéria orgânica. Matéria que se alimenta ou serve de alimento, e que nasce, cresce, reproduz-se e morre. Esta matéria tem como base outra matéria em estado mais bruto — a meteria inorgânica, nomeadamente os minerais. A matéria orgânica divide-se em vegetal e animal. O reino animal, por si, também se divide em classes, desde a mais simples à organicamente mais complexa. Toda esta transformação parte da matéria inorgânica bruta, aumentando de complexidade em cada grau até atingir o grau mais elevado. À estruturação dos átomos é a causa desta evolução, desde a matéria inorgânica mineral, passando pele matéria orgânica vegetal e animas até ao homem. O homem apenas é a organização de matéria orgânica conhecida mais complexa. Com órgãos mais difíceis de concretizar, nomeadamente o seu cérebro. Todo este processo de complexização e evolução natural demorou milhões de anos e só foi possível devido à estabilidade relativa do planeta Terra.

Mas para o homem, quando terminou esta evolução natural orgânica, iniciou-se uma outra evolução, a evolução do seu cérebro, que não deixa de ser a continuação da evolução anterior, mas entrando-se agora numa nova etapa. O cérebro começou-se a desenvolver superiormente em relação aos outros animais quando o homem iniciou a linguagem devido à particularidade natural de produzir e memorizar os mais diversos sons. Com o início da fala e da linguagem o homem entrou num novo mundo. O mundo da simbologia, que foi fortemente impulsionado pela invenção da escrita.

Pela linguagem o homem atribuiu nome a si próprio e a tudo a que o rodeava, e principalmente conseguiu criar ideias  e fórmulas verbais de comunicação. Nasceu a arte, nasceu a cultura, nasceu a religião, nasceu a sociedade humana e tudo o que nos distingue dos outros animais. A criação de ideias e fórmulas, pela linguística, retórica e matemática, ao dar ao homem a capacidade e necessidade de raciocinar, obrigou também a que o próprio cérebro se desenvolvesse, como que num ciclo vicioso, uma vez que é o órgão das funções racionais.

A racionalidade que nos distanciou dos outros animais deve-se à capacidade de memorização de ideias  e subjectivas e não apenas de instintos. Esta memorização enorme é também a responsável pela nossa consciencialização. O homem é o único animal que sabe que existe. É o único que atribui um nome a si próprio, aos outros e a tudo.

A evolução racional humana – que começou com a linguagem, passando pela matemática, a lógica, a química, a física, a geometria, a astronomia, a medicina, e mais recentemente a electrónica e a informática, sempre a par de uma evolução mais lúdica no campo das artes e da cultura, com a religião, a filosofia, a música, o desporto, a literatura, o teatro, e mais recentemente a comunicação social, o cinema e a realidade virtual – foi a causadora de toda a provação, explicação e teorização de tudo o que existe.

Tudo existe a partir do homem porque foi o homem que descobriu tudo, que deu o nome a tudo, que teorizou tudo. Não existe nada que não tenha sido o homem a dar o nome, a explicar e a inventar.

E tudo existe para o homem porque é o único ser com capacidade intelectual, que a natureza dotou de faculdades superiores de inteligência, consciencialização, raciocínio e comunicação, fazendo dele um ser dominante de todos os outros seres vivos e de parte da própria natureza.

O crescimento racional só foi possível devido à longa continuidade de vida humana. Um homem só – indivíduo – apenas é um ser vivo com características e necessidades básicas e de sobrevivência, iguais a todos os outros seres vivos. É gerado naturalmente pelos progenitores e protegidos por eles nos primeiros anos de vida, tem necessidades fisiológicas, de segurança e bem-estar iguais a todos os outros animais, e morre como os outros animais.

Mas recebe uma herança dupla. Recebe uma herança genética ou biológica como os outros seres vivos, que lhe dá uma fisionomia própria, e recebe uma herança cultural de base linguística que lhe atribui faculdades psicológicas. Esta herança dupla é aperfeiçoada devido à estabilidade natural — cósmica ou atómica — e é depois transmitida aos descendentes de uma forma ainda mais aperfeiçoada. Se uma pessoa viver preocupada com problemas não consegue produzir uma obra tão perfeita como outra que tem tempo para pensar no que faz. Da mesma forma, se o planeta Terra for constantemente bombardeado por meteoritos, ou houverem mudanças bruscas de temperatura, terramotos ou vulcões, deixa de haver estabilidade, e ao não haver estabilidade não há continuidade, e logo, não há evolução.

A evolução depende da continuidade e da estabilidade na ordem natural das espécies, mas muito mais na racionalidade, porque a racionalidade surge no auge da evolução das espécies — no cérebro humano — e evolui muito mais rapidamente. Se um homem nasce numa sociedade primitiva transmite aos descendentes o pouco — tudo — que sabe, mas se nasce numa sociedade evoluída tem uma herança cultural recheada de conhecimentos, e transmite aos descendentes ainda mais conhecimentos, porque foi mais um a pensar.

Se a continuidade for cortada por qualquer razão — catástrofe natural — como aconteceu aos dinossauros e a Pompeia; guerras de aniquilação total de sociedades — como aconteceu com os índios americanos; suicídio colectivo — como aconteceu com os Maias; ou falta de descendência — como aconteceu na ilha de Páscoa — perde-se também a evolução, nomeadamente cultural. Por outro lado, tal como na teoria da evolução natural das espécies, também na evolução cultural, a civilização mais forte acaba por subverter ou subjugar todas as outras civilizações.

O      homem actual vive numa era civilizacional dominante caracterizada pela tecnologia, electrónica e informação. Esta civilização — dita ocidental — é o produto da longa continuidade e domínio sobre outras civilizações, umas extintas, outras actuais. O percurso a seguir é impossível de determinar. A evolução continuará se se mantiver a estabilidade relativa actual, mas nada garante que esta se mantenha. Subitamente pode acontecer uma enorme catástrofe natural, ou pode o homem a provocar — consciente ou inconscientemente — pois possui tecnologia (armas) para isso. Teorias sobre a “atlântida” apontam para hipóteses análogas. A civilização ocidental é dominante de todas as outras civilizações existentes actualmente devido ao seu poder superior, que lhe é dado principalmente pelas armas e domínio da natureza. A tecnologia actual permite ao homem dominar parte da própria natureza, e tenderá a dominar sempre cada vez mais. Mas nunca saberá se há limites e quais serão, logo, não irá parar até ser a própria natureza a revoltar-se. Pois a natureza é feita com uma determinada composição (atómica), não toda conhecida, e o homem ao mexer nessa composição pode provocar reacções imprevisíveis que o poderão atingir fatalmente. Porque na tecnologia ninguém está a comandar porque ninguém tem capacidade para comandar.

O      homem civilizado, moderno e inteligente não existe. O que existe é um conjunto de homens, cada um com o seu cérebro real que recebeu uma herança cultural e científica superior à maioria, e que pode aperfeiçoar e usar primeiro para interesses pessoais e depois para interesses comuns, mas que se não transmitir essa herança e aperfeiçoamento aos outros, nomeadamente descendentes ou discípulos, através de qualquer linguagem — falada, escrita, informatizada, etc.. — quando esse homem e esse cérebro morrer, toda essa herança desaparecerá.

O      Homem é o conjunto de todos os homens — e naturalmente mulheres e crianças. É o conjunto de todos os cérebros humanos vivos, juntamente com toda a informação acumulada durante a evolução civilizacional, e registada em suportes físicos mortos — em livros e documentos em arquivos e bibliotecas, em museus e monumentos, e em registos magnéticos e outros nas mais diversas instituições. Mas toda esta informação “morta” de nada serve se não houverem cérebros vivos que a possam entender e usar, como os cérebros vivos sem esta informação não poderiam produzir aperfeiçoamento nem evolução devido à sua limitada capacidade.

De facto, cada ser humano vive realmente muito pouco tempo de vida, e a possibilidade que tem de contribuir para a evolução é insignificante, apenas acontecendo casual e esporadicamente.

Porque a primeira terça parte da vida é ocupada a aprender as coisas essenciais à vida em sociedade, e não há capacidade de entender assuntos complexos, até porque o cérebro e todo o corpo estão ainda em desenvolvimento, pois nascem do nada. No último terço de vida, o corpo e o cérebro entram em decadência, começando a perder faculdades, para voltar ao nada. Assim, além da vida humana ser temporalmente insignificante em relação a uma evolução civilizacional, ainda se reduz para apenas um terço dessa vida, a posse das principais faculdades activas, nomeadamente intelectuais.

Considera-se ser humano, actualmente, todo o ser bípede, erecto, mamífero, com poucos pelos, com linguagem articulada e capacidade de raciocínio, independentemente da idade, sexo, raça, ou deficiência. Mas épocas e civilizações houveram em que as crianças, os negros, os deficientes, os idosos, e as mulheres, não eram considerados seres humanos.

Cada ser humano vive em média setenta anos: comparados com os milhares das civilizações e os milhões da vida, são uma insignificância. Cada ser humano é apenas um: comparado com os outros seis milhões de seres humanos actualmente vivos é outra insignificância, para não compararmos com os que já viveram no passado.

Estas comparações reduzem-nos a “nada”. E este “nada” que nós somos é que serve para traduzir a nossa incompreensão perante muitos factos da vida. É que serve para explicar a nossa evolução aleatória, a nossa estupefacção perante a novidade, o nosso medo perante o desconhecido, a nossa contemplação perante o belo, o nosso prazer perante o agradável, a nossa angústia perante a incerteza, a nossa alegria perante a vitória, o nosso desejo perante a descoberta, o nosso orgulho perante o sucesso, e o nosso sofrimento perante a dor.

Mas cada ser humano é também uno e único, com uma vida, uma história, uma ascendência e uma descendência, com sonhos, desejos e projectos, com um passado em recordação e um futuro em esperança. E como só se vive uma vez, essa e a única que conta para cada um.

E se nós somos pequenos porque não sabemos de onde vimos, para onde vamos, porque estamos aqui, porque somos assim, se estamos sós, e se algum dia vamos saber responder a estas e outras interrogações, ou se as devemos colocar ou não!... Também somos muito grandes porque sabemos quem somos, sabemos o que somos, sabemos como somos, sabemos onde estamos, sabemos como estamos, e principalmente, sabemos o que queremos, porque, o que nós quisermos, se a natureza permitir, é para lá que caminharemos.

 

 

 

 

 

 

tags:

publicado por sl às 00:49
link do post | comentar | favorito
|

temas recentes

Novo Blog

Linguagem

Liberdade

Lei

Justiça

Inteligência

Instinto

Informação

Inconsciente

Imaginação

Ilusão

Igreja

Identidade

Ideia

Homem

História

Glória

Futuro

Filosofia

Felicidade

Fantasia

Família

Fama

Existência

Evolução

Eternidade

Espírito

Esperança

Espaço

Escrita

Equilíbrio

Energia

Emoções

Educação

Economia

Dor

Dinheiro

Deus

Destino

Desporto

Desejo

Cultura

Consciência

Conhecimento

Comunidade

Comunicação

Civilização

Ciência

Cérebro

arquivos

Setembro 2010

Março 2010

Novembro 2009

Junho 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Maio 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

mais sobre mim


ver perfil

seguir perfil

. 3 seguidores

tags

todas as tags

pesquisar

 
Se gostava de obter todos os textos de A a Z, envie o seu pedido para viaverita@sapo.pt!
SAPO Blogs

subscrever feeds