Sábado, 20 de Março de 2010

Linguagem

LINGUAGEM

 

 

 

Há muitos milhares de anos, o homem primitivo, que vivia selvaticamente embrenhado na natureza como todos os outros animais, lutando pela sobrevivência da sua espécie, no seu habitat natural, descobriu que com a sua boca, em diferentes posições, com a ajuda da língua, dos dentes e dos lábios, e ainda com o nariz, conseguia, ao expelir o ar dos pulmões na expiração, produzir uma enorme quantidade de sons diferentes.

Esta capacidade natural, única no ser humano, despertou-lhe a curiosidade fazendo com que ela se desenvolvesse ao ser usada como sinal de identificação da espécie, e como fonte de prazer pelo canto. Os primeiros sons vocais eram aleatórios, instintivos e sem significado, mas com o decorrer do tempo, o homem primitivo começou a tomar consciência desses sons, começou-os a memorizar, e começou a emitir os sons que desejava. Como nenhum ser vivo é biologicamente único e exclusivo, mas pertence a uma espécie com a qual vive em sincronia, o homem primitivo, dentro da sua espécie, sempre que produzia um som, esse som era ouvido pelos seus semelhantes. E quando todos memorizaram e consciencializaram os sons que produziam de forma a dar-lhes um significado igual para todos, para que quando fosse produzido por um fosse compreendido pelos outros, aí, nasceu a linguagem.

Nasceu a linguagem humana. A linguagem humana diferencia-se das outras linguagens pré-humanas e animais porque enquanto que estas são puramente instintivas, visando assegurar a adaptação, sobrevivência e descendência da espécie, a linguagem humana é uma linguagem de acepção.

A linguagem humana não é natural — o que é natural é a capacidade do homem a ter. É uma linguagem que se ensina e se aprende em sociedade. Para existir tem que ser considerado um significado a qualquer elemento da mesma. Mas foi a linguagem o passo mais importante e mais decisivo para a evolução humana. Porque a linguagem permite a abstracção. Antes de ser criada a linguagem humana, os seres humanos, primitivos, apenas eram animais que comunicavam instintivamente como todos os actuais animais — instintivamente sentem o perigo e defendem-se, e instintivamente desejam o acasalamento e acasalam. Têm funcionamento orgânico e sentem. Mas não pensam.

O pensamento é a primeira etapa alcançada pela linguagem. Só com linguagem — humana — se consegue pensar. A linguagem humana é uma linguagem de significados, em que “isto” significa “aquilo” — por exemplo: “ilha” significa “espaço de terra cercado de água por todos os lados”, a realidade é o “espaço de terra cercado de água por todos os lados” mas a palavra “ilha” é o que significa essa realidade. Toda a linguagem funciona neste tipo de registo, no sentido de transformar a realidade concreta em significados formais.

A primeira linguagem humana foi a linguagem falada, após a memorização consciente dos sons produzidos pelo aparelho vocal humano, e a atribuição, memorizada conscientemente também, de significados aos sons. Cada som ou conjunto de sons significava uma coisa. No princípio apenas existia a relação “um som — uma coisa” ou “um conjunto de sons — uma coisa”. Mas com o desenvolvimento da linguagem, sempre em conexão com o desenvolvimento da memória, ambos relacionados com o desenvolvimento orgânico do aparelho fonético, e principalmente com o desenvolvimento do cérebro, foi possível cada vez mais se criarem novos sons ou conjuntos de sons, e serem-lhes atribuídos novos significados, sempre memorizados       conscientemente. É impossível existir linguagem falada se não se conhecerem conscientemente os sons, os significados e a correcta relação entre ambos.

Assim, com o desenvolvimento, além de se teorizarem coisas concretas, passaram-se também a teorizar coisas . Começaram-se a atribuir a determinados sons, significados de coisas que não existiam concretamente. Esta evolução da linguagem foi lenta progressiva, e em parte desconhecida por ter acontecido há milhares de anos e durante milhares de anos, o que não permitia que fosse acompanhada consciente e racionalmente. Ainda actualmente a linguagem está em permanente evolução lenta, não havendo um conhecimento consciente dessa evolução.

O seguinte exemplo teórico demonstra por palavras actuais como seria a evolução da linguagem primitiva. Primeiro só existia a natureza. Depois o animal-homem começou a produzir vários sons. Depois memorizou esses sons. Depois atribuiu um significado a esses sons. Os primeiros significados foram atribuídos a coisas concretas (flor, estátua). Depois foram atribuídos significados a coisas abstractas simples (flor aqui, estátua além). Depois a coisas abstractas mais complexas (flor aqui perfumada, estátua além quebrada). Depois ainda mais complexas (a flor aqui perfumada e a estátua além quebrada). E ainda mais complexas (a flor que se encontra aqui é bela e perfumada enquanto que a estátua que se encontra além é velha e está quebrada).

A linguística não define a ordem exacta do aparecimento dos elementos gramaticais. Certamente os nomes, os pronomes e os substantivos foram dos primeiros a ser criados, passando-se depois para os adjectivos e advérbios até aos complementos e aos verbos. A linguagem moderna compreende milhares de palavras, não tendo a maior parte delas uma conotação objectiva a qualquer realidade concreta.

Só após a criação de todos os elementos gramaticais necessários à criação de frases, nomeadamente os verbos, se iniciou a linguagem humana verdadeira. A primeira linguagem humana foi a linguagem oral — a linguagem falada, produzida pele aparelho fonador. O aparelho fonador humano possibilita a emissão de a1gumas dezenas de fonemas diferentes. Cada civilização adaptou um conjunto desses sons, organizou-os e desenvolveu-os de forma a criar uma linguagem própria. Cada linguagem criada é baseada em influências do passado e nas criações e necessidades próprias durante uma estabilidade civilizacional. A sua evolução acontecerá permanentemente enquanto existir essa civilização. Se a civilização se extinguir, dispersar ou tomar qualquer outro rumo, a linguagem seguira conjuntamente.

A linguagem foi o motor de arranque para a evolução humana e é a principal base impulsionadora de progresso e crescimento. A evolução linguística possibilitou a teorização de tudo. A linguagem originou a expansão da memória, que originou a consciência, que originou o pensamento, que originou a teorização, que originou a inteligência, que originou a sabedoria... Sem linguagem nada disto era possível. Sem linguagem o homem não era racional, sendo apenas um animal como os outros. A racionalidade e a capacidade de concretizar coisas abstractas, de construir ideias, de analisar e compreender, de transformar a natureza, de progredir e de se conhecer, só é possível devido à existência da linguagem.

Tudo o que o homem é, é-o devido à linguagem. Só pela linguagem pode haver comunicação. Só pela linguagem se podem exteriorizar pensamentos e sentimentos. Só pela linguagem se pode viver em sociedade civilizada. Só pela linguagem se pode evoluir. E só pela linguagem se pode conceber a existência.

Existem vários tipos de linguagem. A linguagem oral é a principal, é a mais antiga, é a mais usada actualmente, e é a que deu origem a todas as outras. É a principal porque é a mais real e mais viva. É pela linguagem oral que nós comunicamos uns com os outros em tempo real e na presença uns dos outros. É a linguagem da união humana em todos os aspectos. No entanto, a evolução tecnológica transformou já esta linguagem tornando-a distante pelos telefones, diferida pelos gravadores, e difundida pela radiodifusão. Mas se por um lado é a mais viva, por outro lado é a mais efémera. Tudo o que se diz, uma vez dito, já é passado. Por essa razão se valorizou mais a linguagem escrita em relação à linguagem oral, apesar de depender desta. A linguagem escrita tem mais alcance no espaço e no tempo porque é uma linguagem gravada, que fica, apesar de morta. Claro que a relação entre a linguagem oral e escrita é cada vez mais encadeada, pois actualmente tanto se pode comunicar em tempo real por escrito, como manter infinitamente registos de linguagem oral.

Todas as linguagens são aprendidas. Por isso, todas as linguagens funcionam com um código e regras criadas, propositadamente ou casualmente. O código principal das linguagens humanas é o alfabeto e as principais regras são as regras gramaticais. Actualmente existem milhares de linguagens verbais em todo o mundo e cada uma tem as suas regras e os seus códigos. Existem ainda as linguagens restritas e especiais, de carácter técnico, científico, militar e etc; servindo cada uma delas para a comunicação em grupos especializados.

A linguagem evolui a par da evolução humana. Palavras que se perdem e palavras que se criam ou transformam são uma característica permanente de qualquer linguagem. Mas a evolução humana é uma realidade e é-o principalmente devido à linguagem. Quanto mais complexa for a linguagem, mais o homem é obrigado a pensar e mais evolui.

A civilização ocidental é composta por linguagens cujas origens remontam à civilização fenícia que há cerca de quatro mil anos inventou um dos primeiros alfabetos. A invenção do alfabeto foi determinante para a evolução da linguagem porque ao tornar elementar a divisão das palavras — em que cada fonema solto é representado por uma letra — possibilitou a multiplicação da representação dessas letras de forma a possibilitar a criação de muitas mais palavras. Naturalmente que este foi um processo demorado, mas que permitiu com o uso das vogais e das consoantes planeadamente reunidas, a criação de uma quantidade interminável de palavras, e acrescentando os devidos sinais de pontuação, uma quantidade interminável de expressões e de ideias, Esta evolução só foi possível devido à invenção da linguagem escrita, pois nunca seria possível registar na memória humana um tão elevado número de palavras e de significados. A invenção da linguagem escrita foi também decisiva para a compreensão da linguagem verbal.

A possibilidade de criar palavras é infinita pelo alfabeto, mas ainda é aumentada pela capacidade de criação de palavras nascidas de iniciais, siglas e composições, fazendo uma palavra simples significar uma ideia complexa. E por esse caminho segue a linguagem a par da tecnologia e da ciência deixando para trás outras palavras de valor inquestionável no passado.

Mas o homem continua a ser natural. A linguagem permitiu a compreensão de quase tudo — e certamente permitirá de tudo se a sua evolução não for quebrada — mas também afastou o homem das suas reais raízes, tornando-o completamente artificial. Porque a linguagem não é natural. É uma criação humana. Ninguém nasce a saber falar, e ninguém aprende a falar, sem ser por um processo de aprendizagem, naturalmente vindo dos mais velhos. O facto de determinadas pessoas não conseguirem pronunciar correctamente palavras de outras línguas, deve-se apenas ao desenvolvimento que cada língua gera, diferenciando-se das outras. É um problema sociológico e não biológico.

Naturalmente nós continuamos a ser como os primitivos, mas a linguagem possibilitou-nos o nascimento num mundo mais adaptado artificialmente às nossas necessidades, desejos e aspirações. A linguagem transformou o mundo dando-lhe um novo sabor através da cultura, da criação artística, do entretenimento e da erudição. É a causa original de tudo o que compreende o homem, excepto da sua natural animalidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


publicado por sl às 02:01
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4 comentários:
De David Costha a 15 de Agosto de 2011 às 04:37
M-u-i-t-o b-o-m k-a-k-a-k-a-k-a


De Paulo S. S. Machado a 23 de Novembro de 2012 às 10:13
"LINGUAGEM"
Excelente reportagem!!
Mas quem assina???


De Gildo Antonio a 26 de Agosto de 2013 às 08:10
Porque a linguagem naõ é natural se falamos deste os 4 anos.


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