Sábado, 29 de Dezembro de 2007

 

 

Ter fé é acreditar numa coisa sem necessidade de ter provas.

E acreditar numa coisa é considerar que ela existe e viver de acordo com essa existência.

Tudo o que existe influencia os nossos comportamentos e atitudes, e tudo o que não existe, mas que nós consideramos que existe provoca em nós os mesmos efeitos como se existisse. Porque tudo o que nos causa impacto físico gera reacções físicas, como tudo o que nos causa impacto psicológico gera reacções psicológicas. A fé é uma criação psicológica. Não existe fé material.

Um objecto material é observado por todos da mesma forma, cor, luz, textura, dimensão, e etc; e, ainda que a sua definição seja variada, facilmente se chega a consenso. Mas uma coisa que é fruto do espírito humano — porque só o ser humano cria existências psicológicas — não é observável por não ser traduzida pela matéria.

A fé é psicológica. Os animais não têm fé porque não têm consciência. A fé não se pode entender pela matéria. Apenas se traduz por ideias ou por obras. As ideias são a maior abstracção e as obras podem surgir pelas mais diversas razões. Não se prova a fé.

Aquilo em que se acredita quando se tem fé, apesar de existir para quem acredita, pode não existir realmente, porque a fé não nasce da razão, mas dos sentimentos. A fé nasceu antes da razão porque a religião nasceu antes da ciência, mas sempre existiram em oposição, porque a fé não permite a existência de dúvidas, e a ciência duvida de tudo. Então, conforme a ciência foi evoluindo e provando o que é verdade ou não, a fé aceitou as provas coincidentes e rejeitou as discordantes.

Com a evolução humana, a fé vai-se adaptando às novas realidades. E há-de existir sempre porque, por um lado nós nunca seremos todos inteligentes ou nunca conheceremos tudo o que nos rodeia — e a própria fé barra essa possibilidade — e por outro lado, como todos nascemos crianças, somos por natureza obrigados a acreditar no que nos ensinam, porque só mais tarde adquirimos capacidade de percepção racional, para além da memorização que fica do passado.

A fé é uma aliada da ignorância e da desejabilidade. Quanto mais desejamos uma coisa mais temos fé que ela se torne realidade. Mas ao tomarmos conhecimento que essa coisa não se tornará realidade, a nossa fé perde-se. A fé nos deuses existe devido à nossa ignorância perante a vida, e ao desejo que temos de que tais sejam uma realidade. E essa fé é tão forte que os torna uma realidade para quem a tem.

Como a fé é de origem sentimental, e tudo o que é de origem sentimental não se explica pela razão, de nada serve explicar a fé para quem a tem, porque, quem a tem, ainda que as evidências a neguem claramente, não se deixa influenciar por elas. E se por ventura, alguém que afirmava ter fé, deixasse de a ter após estas breves palavras, não teria fé certamente.

 

 

 


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Sábado, 22 de Dezembro de 2007

Fantasia

FANTASIA

 

 

Fantasia é a representação agradável da realidade e da imaginação.

Existe a realidade que é tudo o que existe. Existe a imaginação que é tudo o que imaginamos, mas que não existe. Existe a ilusão que é tudo o que não existe, mas que parece que existe. E existe a fantasia que é tudo o que existe representado.

E como é representado por nós humanos, é normalmente agradável. Agradável não só no sentido do belo, mas também no sentido do curioso. É tanto fantasia a beleza no “Nascimento de Vénus” de Botticelli, como a curiosidade na “Tentação de Santo Antão” de M. Bosch, ou “O Triunfo da Morte” de Bruegel. A fantasia é agradável porque permite o esquecimento do sofrimento natural da vida, ao sermos transportados para um mundo irreal, em que existe o entretenimento ou o aperfeiçoamento espiritual.

É fantasia tudo o que o homem cria para seu bel-prazer — toda a criação artística. A arte é algo representado que nasceu no espírito criador do artista, elevando-o na forma de se expressar aos outros e ao mundo, e é também algo que os outros sentirão como uma chamada ao seu próprio espírito, na contemplação da obra criada. A fantasia é toda a representação artística da realidade ou da imaginação. A transposição de uma paisagem para a tela é uma fantasia proveniente da realidade. Uma pintura abstracionista é usa fantasia proveniente da imaginação. Uma pintura surrealista é uma fantasia mesclada de realidade e imaginação.

A fantasia confunde-se muitas vezes com e realidade, nomeadamente através da literatura, onde existem muitas obras antigas cujas referências se perderam, desvalorizaram ou transformaram, mas sendo o seu conteúdo de tal forma influente que muitos se orientam por essas fantasias do passado para criarem autênticas realidades no presente. Por outro lado, toda a fantasia está envolta num clima misterioso e místico. Muitas vezes não se sabe como determinada obra nasceu, nem mesmo o seu criador, e esse mistério atrai também, pois coloca a arte algures entre o mundo material e o mundo espiritual, fazendo a ponte de ligação.

Apesar da fantasia ser algo que não existe realmente — o que existe é a sua representação — a influência que ela tem nas pessoas é muito significativa, pois proporciona a criado de novas realidades. O cinema e os filmes, os livros e as letras, o teatro e os actores, são tudo realidades — coisas que existem como suportes da fantasia — mas as histórias e os enredos que se representam nessas formas de expressão não existem realmente — são a pura fantasia — no entanto, as ideias e as mensagens que se passam através dessas representações são reais, e podem criar efeitos reais, tanto em quem as recebe, como em quem as emite devido ao retorno, como em todas as formas de emissão e recepção de mensagens.

A grande diferença é que a fantasia, devido à sua subtileza, permite um alargamento no campo da liberdade de criação e de expressão, que não seria possível nem permitido na sociedade humana, limitada e preconceituosa.

A fantasia tem também um papel determinante no desenvolvimento infantil. As crianças não são capazes de perceber a realidade, pois esta é demasiado complexa — até para os adultos — sendo a fantasia uma espécie de suavizador que permite que pelo menos parte da realidade seja compreendida.

Quase todas as histórias, contos e lendas infantis são mentira, mas as crianças percepcionam-nas como realidade. Para elas, todas essas histórias são verdade. E são verdade por dois motivos: por um lado são facilmente compreensíveis — são histórias simples que não exigem esforço mental porque não exigem recurso à realidade concreta; por outro lado têm sempre um fundo de verdade — transmitem um conjunto de informações que apelam à realidade — um tempo; um espaço; pessoas; animais — e por isso são facilmente aceitáveis por elas.

Mas o papel principal da fantasia nas crianças é que transmite sempre uma mensagem, uma lógica, que apesar de inserida num contexto irreal será determinante para a compreensão posterior da realidade.

O problema surge quando a criança já não é criança e continua a não distinguir a fantasia da realidade: vive no sonho, vive feliz — mas se acordar!...

 

 

 

 

 


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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Família

FAMÍLIA

 

 

A família é um conjunto de pessoas que partilham em comum alguns aspectos de intimidade. Tem como objectivo principal a organização entre adultos de forma a permitir a sobrevivência dos recém-nascidos. É uma organização natural que assegura a continuidade da espécie humana.

Mas a família é entendida das mais diversas formas.

Atribui-se a origem da família às reuniões antigas dos escravos ou criados em volta do seu chefe, dai nascer o chefe de família, e também à necessidade de organizar grupos para cultivar a terra quando os alimentos naturais escasseavam. Mas não serão estes os verdadeiros sentidos da família actual.

A família natural, análoga em todas as espécies animais, começa quando todos os seres jovens, no despertar da sua sexualidade, começam a sentir atracção pelo sexo oposto, com vista ao acasalamento. Qualquer casal, após a fase preliminar necessária para garantir correspondência quanto à disposição do corpo, pela excitação, acaba por copular. A cópula visa a concepção. Durante o período de gestação, a fêmea torna-se frágil até algum tempo após o nascimento do descendente. O macho, por sua vez, devido à afectividade que ganhou, causada pelo prazer sexual, protege-a, primeiro a ela, e depois também o recém-nascido. A desunião só acontece quando o novo ser sobrevive pelos próprios meios.

É assim com todos os animais, e com os humanos também. Mas os humanos, como são inteligentes, adaptaram a natureza às suas ideias artificiais. E da mesma forma que se alimentam não quando têm fome, mas nas horas marcadas para refeições, também não constituem família para garantir descendência mas para os mais variados fins.

A união natural — inevitável — apenas serve de base a todos os enquadramentos que estruturam a sociedade humana. A família é o primeiro e o último grau da sociedade humana, porque, por um lado, toda a sociedade tem uma componente familiar na sua estruturação, e por outro lado, todos os indivíduos pertencem a alguma família.

Assim, a família humana é importante não só para gerar descendentes, mas também para garantir segurança e entreajuda mútua, porque ao ser uma união de pessoas, faz mais força e gera mais poder. Serve também para proteger os mais desprotegidos, nomeadamente doentes e idosos, para além das crianças. Serve de base fundamental na transmissão de valores ideológicos, éticos e religiosos, pela educação. É também a base da organização social. Parte da família ou é a ela direccionada toda a sistematização política e económica, nomeadamente a concepção de direitos, liberdades e garantias. As regras da moral e ética, tradições e bons costumes, assim como as regras económicas, das heranças, impostos, consumo e propriedade de bens, estão também inter-relacionadas com a família.

Todos estes critérios levam à definição do que é uma família, onde começa e onde acaba, mas são de origem humana — artificial. A história descreve-nos muitas definições distintas da família: o chefe de família já foi a mulher; os idosos já foram abandonados para morrer; os filhos deficientes já foram assassinados; a poligamia e a poliandria já existiram; o casamento incestuoso e homossexual já existiu; o adultério masculino já foi aclamado; o casamento civil já foi proibido; o concubinato já foi admitido; etc; etc.

Todas estas variantes nas relações familiares e ainda muitas mais, já existiram e foram legais. A família apenas é o que a sociedade quiser que ela seja, apesar dessa decisão ser parcialmente inconsciente.

Apesar da família ser a grande fomentadora dos principais laços humanos, também é, por vezes, grande motivo de conflitos. O acto fundamental da construção familiar é o casamento. Qualquer pessoa ao casar passa a considerar o cônjuge, a pessoa mais importante da sua vida, sobrevalorizando-o em relação aos pais, não obstante, estes terem-na gerado e criado, e o cônjuge por vezes ser quase um desconhecido. E é desse desconhecido que vão ser gerados novos filhos e nascer nova família.

A família nasce no amor. E do amor nascem os filhos. Quando os filhos crescem, a chama do amor apaga-se. Talvez esta realidade seja a causa da elevada percentagem de infidelidade e divórcios, ainda que muitos casamentos sejam eternos e muitas famílias permaneçam unidas por outros motivos.

E o amor paternal, só os verdadeiros pais o sentem, e só eles o consideram demasiado aprazível e demasiado sublime para ser descritível.

 

 

 

 

 


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Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Fama

FAMA

 

 

A fama é o conhecimento que os outros têm de nós.

Todos vivemos em sociedade e vivemos numa sociedade consciente porque somos civilizados e sabemos que existimos entre outros. Todos temos relacionamentos sócio-culturais com outros, na família, na escola, no trabalho, na igreja, no desporto, na rua, nos transportes, nas festas e em todos os lugares públicos que todos podem frequentar ou em todos os lugares particulares frequentados por alguns.

Temos ainda relacionamentos sociais sem contactos físicos quando dos nossos espaços reservados comunicamos com os outros pelos meios que a tecnologia nos permite — carta, telefone, fax e e-mail. Conhecem-se melhor duas pessoas que comunicam frequentemente por escrito ou telefone entre dois continentes e que nunca se encontraram, do que duas pessoas que se cruzam diariamente na mesma rua, mas que nunca se falaram.

Mas a fama vai mais além porque não exige que o conhecimento seja recíproco. Para uma pessoa ser famosa basta que os outros tenham conhecimento dela independentemente dela ter ou não conhecimento deles. Aliás, quanto maior for a fama menor será a reciprocidade, porque, quantas mais pessoas conhecerem uma, menor será a probabilidade desta conhecer as primeiras.

A fama pode ser boa ou má. É boa quando o motivo que tornou a pessoa famosa é socialmente útil, culturalmente enriquecedora e moralmente aceite, e é má quando acontece o oposto.

Pode também ser voluntária ou involuntária. É voluntária quando é a própria pessoa que conscientemente deseja ser conhecida e age no sentido de se dar a conhecer. E é involuntária quando a autoria de algo invulgar, ou acontecimento particular, desencadeia uma acção de divulgação que ninguém consegue controlar.

A fama, como tudo na vida, tem vantagens e desvantagens. O reconhecimento público de alguém é motivo de orgulho, honra e glória e até auto-realização e poder, se esse alguém goza de boa fama. Mas poderá ser o oposto se goza de má fama. No entanto, na fama, estão sempre em jogo os critérios dos valores das pessoas famosas contra os das pessoas que lhes atribuíram a fama. A fama pode ter uma evolução progressiva, brusca ou até póstuma, mas sempre que acontece com pessoas vivas, limita-lhes a liberdade individual por se tornarem figuras públicas. Uma pessoa famosa pode por um lado fazer mais o que quer porque tem poder, mas por outro não pode fazer tanto o que quer porque está permanentemente a ser observada. A fama projecta-nos na sociedade, mas limita-nos a liberdade.

Os meios de comunicação social, cada vez mais influentes, são os principais geradores de fama, por transformarem públicos os aspectos particulares das pessoas.

Como o excesso de fama seria a falta de individualidade, e o excesso de individualidade seria a falta de contactos sociais, e como todos necessitamos simultaneamente de individualidade e de sociabilidade, cada um terá que encontrar a dose certa de cada parte para ter a fama que deseja, não esquecendo que a vida não é só o que nós queremos, mas também o que os outros querem, e o que a natureza permite.

 

 

 

 


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Sábado, 1 de Dezembro de 2007

Existência

EXISTÊNCIA

 

 

Para existir é necessário ser ou estar.

Para a sua melhor compreensão, a existência pode-se dividir em duas partes distintas — o homem e a natureza — que são totalmente diferentes, mas que uma sem a outra não permitiam a existência da própria existência.

A natureza, seguindo leis próprias não totalmente conhecidas, originou tudo o que existe. Tudo o que existe tem origem na natureza. Assim, o cosmos, as estrelas, os cometas, os planetas, os oceanos, as montanhas, os desertos, as plantas, os animais, e etc; tudo nasceu da natureza, e são ela própria. Mas tudo existe sem saber que existe!

E foi então que no topo da existência, a natureza fez também nascer o homem. Nasceu o homem, não como animal mamífero, erecto, com cabeça, tronco e membros, mas como ser pensante, inteligente, e que raciocina devido às faculdades naturais de falar, recordar e imaginar.

E foi o homem que no topo da existência, tomou consciência de que existia ele e tudo o que o rodeava. E foi essa consciencialização que tornou tudo existente apesar de já tudo existir.

Assim, para uma coisa existir, é necessário que essa coisa exista e que o homem saiba que ela existe. Uma árvore já era árvore antes do homem a conhecer, mas foi este que lhe atribuiu o nome e descreveu as características. Quase tudo existe anteriormente ao homem, mas só este tem consciência dessa existência. E com a sua consciência, além de tudo teorizar, ou transformar em palavras tudo o que existe, de forma a provar essa existência, o homem criou ainda novas formas de existência: a existência espiritual ou extramaterial.

Tudo o que existe sob a forma espiritual, psicológica, mística ou ideológica, nasceu da mente humana, e tem o cérebro como base. Desta forma, tudo o que não é material é dele dependente. Toda a existência é originada na natureza material. O espírito humano só existe porque existe o cérebro, como a energia só existe porque existe a matéria.

Mas o conhecimento da existência de tudo só é possível com a existência da própria     consciência.     Sem            consciência — característica exclusivamente humana — não seria possível admitir a existência.

Pode-se então concluir que existem três formas de existência: existe a realidade natural, que é a verdade originada na própria natureza, independentemente do conhecimento humano dela ou não; existe a racionalização, que é a verdade natural de que o homem tem consciência, e que com a sua inteligência catalogou; e existe a criação humana, que é a verdade que o homem considera existir, independentemente da existência de provas. Resumindo, existe o que existe, existe o que o homem sabe que existe, e existe o que o homem pensa que existe.

Toda a existência nasce na natureza, mas só é concretizada após o reconhecimento humano. O homem é um tradutor da realidade natural, mas como não a conhece totalmente, traduz a parte desconhecida da forma como a imagina. E o conhecimento da realidade natural só existe através do homem. Por isso, tudo o que o homem diz é verdade, porque ninguém o pode desmentir. Será ele próprio a ter que mudar de ideias, crescendo, porque, pior que mudar de ideias é não as ter.

A existência é só uma e só existe sendo afirmada. Mas são muitas as formas de a afirmar.

 

 

 


publicado por sl às 02:31
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