Domingo, 8 de Novembro de 2009

Liberdade

LIBERDADE

 

 

 

Espaço dentro do qual nos movimentamos regulados por opções pessoais, voluntárias e conscientes.

A liberdade é uma produção da consciência humana — um animal pode estar livre ou em cativeiro mas não sabe disso, e pode expressar sinais que nós consideramos de satisfação ou de depressão, mas apenas são reacções naturais dele. É produção da consciência porque só conscientemente sabemos se somos livres ou não e até onde. Os escravos do passado nunca tiveram consciência se algum dia poderiam ser homens livres.

A liberdade é como um balão imaginário, no centro do qual nos encontramos a flutuar. Entre nós e as paredes do balão existe um espaço que é o nosso espaço de liberdade. Podemos partir do centro em todas os sentidos e direcções. Mas esse balão é de uma forma completamente irregular, porque é constituída pelos os limites da nossa liberdade. Cada pessoa teria assim um balão com uma forma diferente, porque a totalidade dos limites, quer físicos, quer psicológicos, é diferente para cada um, apesar de existirem limites que são iguais para todos.

A liberdade de cada um é o espaço entre si e os seus limites, e existem muitos tipos de limites. Existem limites perfeitamente definidos (por exemplo, velocidades máximas de circulação automóvel). Existem limites permanentemente indefinidos (por exemplo, quantidade de horas de sol nos primeiros dias de praia). Existem limites em constante crescimento (idade individual), decrescimento (distância entre o atleta e a sua meta) e mutação (estado do tempo). Existem limites com bruscos aumentos e reduções (saldos bancários). Existem limites que surgem e desaparecem (doenças e incapacidades temporárias) e limites permanentes (calendário). Existem limites desconhecidos (universo). Existem limites moldáveis (comportamento). E existem limites infinitos (divisão de uma unidade por três), como existe uma infinidade de limites...

Todos estes limites formam as paredes do nosso balão, que podemos observar nos diversos planos — planos fixos, planos que se aproximam e se afastam de nós, planos vibratórios, planos que nos atraem ou que nos repelem, planos que facilmente ultrapassamos, planos impossíveis de quebrar, planos inatingíveis, planos imperceptíveis e planos infinitos. Todos são o nosso limite em relação a qualquer coisa. A nossa liberdade existe entre nós e eles. Do lado de fora do balão encontram-se os outros e a natureza.

As barreiras que a natureza nos impõe colidem com as nossas capacidades naturais. Neste aspecto somos todos aproximadamente iguais, ainda que muito diferentes. Mas as barreiras que os outros nos impõem são as que colidem com a nossa vontade, e é nestas que reside o grande paradoxo da liberdade.

Porque a nossa liberdade começa onde acaba a liberdade dos outros e vice-versa. Assim, a nossa vontade – interior — tem que ser suficientemente forte para dominar os outros — no exterior — para que seja maior o nosso espaço de liberdade. Mas, por outro lado, essa vontade é originada pelo que recebemos dos outros, que são como nós, simplesmente, nós somos “um” e os outros são “todos”. Desta forma, se todos permitirem a liberdade a cada um, existe liberdade — ainda que condicionada — para todos, mas se todos quiserem mais liberdade que os outros, e como a maior liberdade de uns é a menor liberdade de outros, então os que obterão mais liberdade serão os que tiverem mais força para reduzirem a liberdade dos outros.

A liberdade é um espaço imaginário de todos. Mas só a alcança quem a consegue conquistar com inteligência. As pessoas que conquistam liberdade com a aniquilação dos ideais dos outros têm uma liberdade falsa, pois precisam de manter os outros afastados forçosamente, e a qualquer momento a força inverte-se a acaba a liberdade. A verdadeira liberdade existe com respeito mútuo, em democracia — a vontade de todos ou da maior parte — com inteligência e com sabedoria.

A liberdade é de certa forma uma utopia. Por um lado, todos ou a maior parte não são inteligentes nem sábios, e o respeito que uns deviam ter pelos outros para que fosse o mesmo que os outros tivessem pelos primeiros, é dúbio. A maioria escolhe o que pensa ser correcto, mas que raramente é. Por outro lado, devido à natural ambição, evolução e crescimento humano, tecnológico e populacional, cada vez mais, o espaço que é de todos é menos de cada um, porque é limitado.

A liberdade é um produto recente da história humana. No passado uns eram totalmente livres, reis e senhores enquanto que outros não tinham liberdade, sendo escravos e servos. Actualmente ninguém é totalmente livre e ninguém é totalmente escravo, mas todos somos livres e escravos em parte. A outrora muita liberdade de alguns transformou-se na actual alguma liberdade para todos.

Mas nem todos sabem ser homens livres. Porque a liberdade quando verdadeira exige mais que a servidão. O homem livre tem que saber que é livre e que os outros também são; tem que respeitar; tem que escolher; tem que pensar e tem que tomar decisões correctas, enquanto que o homem que não é livre tem quem faça isso por ele — e isto é mais cómodo.

O homem que tem liberdade, mas não sabe ser livre, sente-se perdido. A liberdade gera a perdição quando não existe sabedoria. O homem que é livre para escolher um de dois caminhos, mas não sabe qual escolher sente-se perdido. E pode ter que escolher um entre muitos caminhos.

Os limites da nossa liberdade são também as nossas referências. É pelos vários planos do balão que sabemos de onde e até onde podemos ir dentro do nosso espaço de liberdade. A liberdade é a nossa maior conquista, mas o seu excesso é a nossa perdição. Dentro de uma cela não podemos passar para além das grades, mas isolados num deserto infinito não tomaremos qualquer rumo.

A liberdade ideal consiste no equilíbrio entre a prisão e a perdição — nem demasiado presos nem demasiado perdidos. Os nossos limites e as nossas referências são os outros. A liberdade é um produto da sociedade civilizada e racional. Sem civismo não há liberdade.

Existem vários tipos de liberdade, cada um com diferentes limites. Existe a liberdade natural (o que a natureza permite que façamos) e a liberdade social nos seus diversos aspectos (civil, penal, militar, política, religiosa, profissional, comercial, familiar, desportiva, afectiva...) estando reunidas em cada indivíduo e formando uma espécie de liberdade individual, que é o estatuto que cada um alcança perante os outros e que lhe permite determinadas atitudes e comportamentos. Devemos saber o espaço que temos em cada uma, isto é, até onde devemos e podemos ir, em cada situação concreta, sem que isso interfira na liberdade dos outros desrespeitando-os,

O espaço cedido pela natureza, apesar de nem sempre ser definido é inviolável, pois o próprio corpo reage impedindo-nos de ultrapassarmos os limites. Mas o espaço cedido pela civilização só conscientemente é compreensível. As leis, códigos ou regras que nos são impostos pelos outros, de acordo ou não com a nossa opinião, podem ou não, ser violáveis. Sendo violáveis devemos saber até que ponto nos convém violar essas leis — esses limites de liberdade — porque qualquer violação, qualquer passagem para além da nossa liberdade em termos individuais ou colectivos, pode trazer consequências negativas graves. Temos que ter consciência se compensa pisar o risco — se é preferível viajar em excesso de velocidade ou chegar atrasado. Se o limite é imposto pela sociedade de forma regrada, podemos até saber o que nos poderá acontecer. Mas se o limite não é regrado, ou é individual, e o ultrapassamos entrando no espaço de liberdade do outro, esse outro pode ter reacções inesperadas, violentas e perigosas.

A liberdade tem que existir de parte a parte, e começa com o conhecimento dos deveres e dos direitos, passando obviamente pelo respeito mútuo. Perante o desconhecimento apenas podemos agir correndo riscos, ou com respeito e cautela, mas podemos assim não usufruir de todos os direitos e liberdade que temos.

A declaração dos direitos humanos foi um grande passo para a garantia da liberdade individual. Apesar de muitas vezes violada — porque o mundo actual é diversificado evolutivamente — a consagração dos direitos fundamentais de pensamento, consciência, opinião e expressão, garantiu a homem, a liberdade naquilo em que o espaço é infinito.

A liberdade de pensamento é infinita e ilimitada. Os limites do pensamento e da imaginação nunca colidirão com os limites de outrem. É como se existisse no nosso balão que limita a liberdade, um buraco ou um túnel, em que nós por muito que andássemos nele, nunca atingiríamos o fim e nunca nos cruzaríamos com ninguém. É a nossa maior liberdade. Dela nunca devemos abdicar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


publicado por sl às 19:45
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