Sábado, 19 de Maio de 2007

Cepticismo

CEPTICISMO

 

 

Existem duas formas de uma pessoa considerar que uma coisa é verdade ou é mentira: ou a analisa para confirmar a sua veracidade ou não veracidade, ou simplesmente a aceita ou nega sem qualquer análise prévia.

Tudo na vida pode ser verdade e pode ser mentira. É verdade quando alguém afirma convictamente que é verdade e é mentira quando alguém afirma convictamente que é mentira. A diferença existe entre o que é realmente verdade ou mentira, e o que é verdade ou mentira por convicção. A realidade é tudo o que existe independentemente do nosso conhecimento ou consentimento. A convicção é tudo o que nós consideramos que existe sem necessidade de provas.

Se todos nós fossemos inteligentes de forma a conhecermos tudo de todo o mundo que nos rodeia, e só considerássemos verdade ou mentira, tudo e qualquer coisa, após experiência comprovada ou inequívoca, o mundo seria totalmente diferente. Seria um mundo exclusivamente racional e científico. Um mundo extraordinariamente humano.

Mas esse mundo não passa de uma utopia, e por várias razoes. Ainda existem muitas coisas que não são conhecidas ou que não se explicam cientificamente, pois nem os maiores cientistas conseguem explicar ou desvendar, por não serem avaliáveis por falta de conhecimentos ou de consenso, negando-as simplesmente. E também porque não só os cientistas são donos da verdade. Nem os cientistas nem a ciência actual.

Por outro lado, todos nós antes de sermos racionais e inteligentes, somos irracionais e estúpidos — primeiro temos medo do escuro e só depois é que entendemos que não passa de falta de luz. A racionalidade e a inteligência são fruto da aprendizagem.

E por fim, a civilização actual, como todas as civilizações, está alicerçada em valores de grande rigidez, e que apesar de não serem racionais, são racionalizados, ou seja, consideramos que não devia ser assim, mas já que é, tentamos compreender, aceitar, fomentar, e até viver esses valores, porque muitos são agradáveis, como a paixão que é irracional, mas é a mais cantada.

Existe mais uma razão: o homem é ainda demasiado agarrado aos valores materiais porque são esses que dão poder. E o homem vive numa busca contínua de poder — sobre os outros. Mas note-se que do poder obtido pela posse de terras e uso de exércitos para as manter, evoluiu-se para a posse de dinheiro e uso de negociações. Caminhamos no sentido do “material” para o “simbólico ou espiritual”.

A história humana ensina-nos que evolução partiu da irracionalidade para cada vez maior racionalidade. Mas a realidade pura é bem mais irracional. É dessa realidade, dessa confusão de valores, que opõe a razão ao mito, que opõe o sagrado ao profano, que opõe o moral ao legal, que opõe o possível ao fictício, é dela que nasce a nossa verdade e a nossa mentira. E para que os nossos valores não sejam falsos, como os castelos de areia que se desfazem na onda mais forte, deveríamos questionar tudo o que nos ensinaram e reconsiderar só o que a nossa experiência nos provar ser verdade, com a maior inteligência possível.

E tudo o que aprendemos, deveríamos aprender até à compreensão total, sem restarem dúvidas para classificarmos como verdade ou como mentira. De tudo deveríamos ser cépticos. Não confirmar nem desmentir até termos provas reais. E compreender que a nossa verdade pode não ser a verdade dos outros.

Ninguém deveria acreditar no que está escrito neste texto como em todos os textos, pelo simples facto de estar escrito, mas porque a sua experiência pessoal e consciente o confirma ou não. E com a maior inteligência possível, porque — um estúpido não sabe que é estúpido porque não é inteligente, mas um inteligente sabe que é inteligente, e se quiser, sabe ser estúpido da forma mais inteligente.

 

 

 


publicado por sl às 01:33
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