Domingo, 3 de Junho de 2007

Ciência

CIÊNCIA

 

 

“Conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios certos” — esta frase, adaptada, define o muito e o pouco que a ciência é.

Princípios certos são as manifestações que existem na natureza de forma abundante, repetitiva ou constante, que permitem ao homem a sua observação, registo, catalogação e outras formas de obtenção de dados que possibilitam o conhecimento de resultados de qualquer acção antes da sua existência real.

Para uma coisa existir cientificamente, essa coisa tem que ser observada várias vezes por várias pessoas capazes de a estudar exaustivamente para obterem o maior número de dados possíveis sobre todas as suas características, e por fim chegarem a um consenso sobre a sua realidade e a classificarem sobre todos os aspectos possíveis atribuindo-lhe um nome, e descrevendo todas as conclusões que a vão caracterizar como realidade existente cientificamente dai para o futuro.

A ciência nasceu na aurora da civilização humana, de uma forma instintiva e inconsciente, a par do nascimento da religião e do misticismo, pela constante observação da natureza, durante uma longa sequência de gerações que evoluiu até aos nossos dias.

O homem primitivo começou por observar a natureza e descobriu coisas maravilhosas. Descobriu que umas coisas são mais pesadas e outras são mais leves; descobriu que umas são mais altas e outras mais baixas; descobriu que se partir uma coisa, fica com duas ou mais; descobriu que se essa coisa for uniforme e a partir a meio fica com duas iguais e metade mais pequenas que a primeira — e para que não tivesse que transportar o tronco mais comprido, e logo mais pesado, quando bastava o tronco mais curto e mais leve, ou para não ter que transportar diversos troncos e ter que os colocar sobre o riacho, para escolher o ideal para colocar sobre o riacho que desejava atravessar, sentiu necessidade de medir o riacho para procurar o tronco com a medida exacta. A invenção da medida do riacho para depois comparar com a medida dos troncos encontrados, foi o grande passo científico, pois permitiu saber qual o tronco ideal antes de o colocar.

E assim nasceu a ciência. Estuda-se na natureza a possibilidade de inventar medidas sobre ela, e uma vez inventadas, usam-se essas medidas como guia para o futuro.

A ciência nasceu instintivamente pela observação de factos naturais testáveis e mensuráveis, a par da religião que nasceu instintivamente pela observação de todos os factos naturais, inclusivamente não testáveis e incomensuráveis. A evolução da ciência na forma de cada vez mais medir e testar a natureza, e logo de a compreender, tendeu para a contestação, oposição e até negação da própria religião, acabando actualmente por inverter essa tendência ao dedicar-se ao estudo científico da própria religião, numa tentativa de a “medir”, ou de medir o seu efeito no homem.

Iniciando-se a grande jornada científica no campo das ciências exactas — lógica, matemática, física, astronomia, geografia, biologia — evoluindo para as ciências aplicadas — tecnologia, engenharia, medicina — continuando a evolução no capo das ciências económicas, sociais e políticas — história, direito, sociologia — e cada vez mais no campo das ciências humanas — filosofia, psicologia — a ciência evoluiu em interdependência com a religião devido ao grande peso da religião no passado, cuja influência na pesquisa científica era sempre um facto, favorável ou desfavorável conforme a aceitação ou negação dos resultados, de acordo com os interesses da própria religião.

Tudo existe na natureza anteriormente ao homem. Todas as matérias, todos os movimentos e todas as energias já existiam quando o homem, com a sua inteligência, as começou a observar. A sua observação inteligente originou a possibilidade e a necessidade da criação de medidas. A possibilidade deve-se à constância de determinadas características — uma coisa com tamanho constante permite inventar medidas de comprimento (era impossível inventar o “metro” numa matéria elástica). Todas as medidas foram inventadas pelo homem devido à constância de determinadas características, de determinada matéria ou energia. A necessidade de criação de medidas deve-se ao facto de só com medidas ser possível comparar, para melhor escolher. Também só com medidas se pode teorizar uma coisa, para melhor a estudar e compreender. Além disso, sem medidas é impossível existir vida social e racional. As medidas são as referências pelas quais se orienta o homem civilizado: é impossível marcar um encontro sem uma data, uma hora, e sem um local; é impossível encomendar um artigo sem dizer qual; é impossível fazer uma obra sem projecto; é impossível fazer um telefonema sem marcar um número — todo o acto racional requer referências teóricas.

Qualquer medida é inventada por qualquer pessoa de forma a identificar qualquer coisa para que possa ser comparada consigo própria ou com outra. Uma medida uma vez obtida/inventada por alguém é dada ao conhecimento e consideração dos outros que a vão aceitar ou reprovar conforme a sua utilidade. Todas as medidas são inventadas por alguém e são aceites pela maioria para bem dessa maioria. Todas as medidas são aceites quando a sua organização é lógica, constante e infinita, ou completa e aplicável, sem deixar qualquer margem de dúvidas. E todas as medidas são valores elementares teóricos criados a partir da observação da natureza, com o objectivo de a racionalizar e compreender, para depois melhor a poder transformar e dominar.

A matemática e a álgebra são a base de toda a ciência, porque toda a ciência funciona com medidas e todas as medidas são representadas com números e letras. Os próprios números e letras não existem na natureza, foi o homem que os inventou, mas aplicam-se a tudo porque tudo o que o que a ciência envolve se traduz teoricamente por números e letras. E esta teorização é criada pelo homem a partir da natureza.

Todas as matérias, todas as energias, todas as formas geométricas, todas as cores, todos os sons, todas as radiações, todos os movimentos, todas as velocidades, todas as pressões, todas as densidades, e todas as forças electromagnéticas, gravitacionais, caloríficas, atómicas e nucleares, assim como as correlações existentes entre todas estas partes, já existiam na natureza antes do homem as descobrir, estudar, medir e classificar como medidas cientificamente existentes. E as medidas de comprimento, superfície, volume, massa, tempo, frequência, velocidade, aceleração, força, energia, potência, intensidade, resistência, temperatura, radiação, e etc; apenas foram os modelos inventados que possibilitaram essa classificação com realidades cientificamente provadas.

As medidas científicas partem de uma unidade padrão — grama, litro, watt, metro, hertz, bit, grau — e estendem-se em múltiplos e submúltiplos, multiplicando-se e desmultiplicando-se de mais infinito a menos infinito, abrangendo toda a realidade, cada uma no campo que mede. São generalizadas por imposição ou conveniência e de acordo com a maior perfeição na tradução da existência natural, para maior compreensão racional e científica — muitas sociedades do passado guiaram-se por calendários muito diferentes do actual calendário gregoriano, acabando este por se generalizar no mundo ocidental devido à sua maior perfeição em relação aos movimentos naturais de rotação e translação da terra. No entanto, se for descoberta/inventada outra forma de medir o tempo, ainda mais perfeita, esta se extinguirá. Acontece isto com todas as formas de medir a natureza, mas algumas são de tal forma lógicas, que são tidas como arquétipos — dois mais dois são quatro em todo o mundo, mas existem várias formas de linguagem, como várias formas de numeração e certamente várias formas de cálculo.

As descobertas científicas acontecem algumas vezes por mero acaso, e normalmente após aprofundados estudos. Cada nova descoberta é influenciada pelas anteriores e vai influenciar as posteriores, como que num ciclo evolutivo multiplicativo. A história da evolução científica relata-nos longos períodos no passado para a aceitação de uma nova verdade científica, tendo a grande maioria das descobertas acontecido nos séculos mais recentes. Actualmente, nos muitos laboratórios industriais e das universidades espalhadas por todo o mundo são permanentemente feitas novas descobertas científicas.

O conhecido método científico define como funciona a ciência. A formulação de questões só é possível quando temos dúvidas e quando nos interrogamos. A elaboração de hipóteses só é possível quando temos matéria para observarmos e nos dedicamos a isso. A verificação das hipóteses só é possível quando existem medidas previamente estabelecidas e aplicáveis, ou constância de características que permitem a criação de medidas novas ou ocasionais para que todas as variáveis conhecidas sejam controladas. E a obtenção de resultados e formulação de conclusões só é possível quando os três passos anteriores são concluídos de forma clara, inequívoca, indubitável e repetível.

Assim, sempre que não temos dúvidas e não nos interrogamos, sempre que não temos matéria para observar, sempre que não temos medidas nem as podemos criar, e sempre que as conclusões são obscuras, duvidosas, e não é possível repetir o estudo para que se possa replicar qualquer coisa, essa coisa não existe cientificamente.

E é aqui que encontramos os limites da ciência. Porque tudo o que foi provado cientificamente, já existia antes de o ser. E tudo o que existe e não está provado cientificamente, pode não existir realmente ou pode não existir até ser provado pela ciência. E todos sabemos que existem muitas coisas concretas que a ciência não explica: ainda não é possível prever exactamente o estado do tempo; ainda não é possível prever sismos: ainda não é possível conhecer o código genético completo de uma pessoa; ainda não se conhecem as verdadeiras causas da homossexualidade; ainda não se descobriram vacinas para o cancro e para a sida; ainda desconhecemos a finalidade dos sonhos; ainda sabemos pouco sobre o funcionamento e capacidade do cérebro humano; ainda não sabemos se existem extraterrestres; ainda não sabemos de onde vimos nem para onde vamos — isto são só alguns dos inúmeros exemplos que provam a nossa ignorância científica perante a vida.

Estes são exemplos que a ciência não clarifica, mas procura clarificar e admite a sua ignorância. No entanto existem outros que a ciência nega categoricamente, mas que são realidades absolutas para muitas pessoas, tais como as crenças populares e as superstições, as medicinas alternativas e os fenómenos parapsicológicos, as seitas religiosas e os rituais culturais, a fé e Deus.

Só o futuro dirá se a ciência se vai impor negando todas estas realidades e originando um mundo completamente compreensível e racionalizado, ou se todas estas realidades irão influenciar a ciência de forma a tornar possível a sua medição e aprovação científica. Só o futuro dirá se Deus vai deixar de existir ou se a ciência o vai provar cientificamente.

Provavelmente não acontecerá uma coisa nem outra. A evolução do conhecimento científico acaba por aceitar a teoria da relatividade e a física quântica, em que uma nova descoberta ou um novo dado pode influenciar toda a percepção do passado, deitando por terra as conceptualizações cientificamente testadas — repare-se que a nave espacial “Challenger” possuía a mais elevada tecnologia, e era testada pelos mais proficientes especialistas e, no entanto, tudo se perdeu. Por outro lado, cada vez mais nas universidades proliferam cursos relacionados com as ciências sociais, humanas e religiosas.

É que o homem é um ser natural e criou a ciência a partir da sua natureza. E por muito que entre em contradição negando parte de si mesmo, a verdade é que acaba por voltar à sua natureza. O homem é um todo e a ciência é apenas parte dele.

A honra, o orgulho, o respeito, a dor, o amor, a paixão, a alegria, a tristeza, o desejo, a ambição, a fama, a vaidade, o luto, a saudade, a vontade, a angustia, o medo, o ódio, a inveja, o desespero, a fé, e muitos outros sentimentos e valores humanos, não se podem medir numa escala objectiva científica e isso não os torna inexistentes. Da mesma forma que a altura, a raça, o sexo, a cor dos olhos, a forma dos cabelos, a estatura, o grupo sanguíneo, o código genético, o nome, a idade, o estado civil, a profissão, a religião, o número do cartão de identidade, o número fiscal, o número de eleitor, e muitos outros números e escalas objectivas de identificação provadas cientificamente, por si só, não chegam para concluir a existência real de um ser humano.

Tudo o que existe concreta e objectivamente, e cientificamente testado, é importante para o desenvolvimento humano, e para que o homem se compreenda a si próprio e tudo o que o rodeia. No entanto, por mais evoluída que esteja a ciência, o seu impacto no ser humano nunca será superior a metade da sua globalidade, porque o homem é uma unidade dualística, de corpo e alma, físico e espiritual.

E toda a criação científica, tecnológica e artificial, foi originada a partir da natureza, não ultrapassou os limites impostos pela natureza, e apenas criou condições de adaptabilidade, segurança, bem-estar, prazer e relativo domínio do homem em relação à própria natureza, mas nunca eliminando ou substituindo princípios naturais básicos para a sobrevivência humana, como as necessidades biológicas.

A ciência apenas permitiu ao homem que se distanciasse dos outros animais possibilitando-lhe uma vida com autoconhecimento, autocontrolo e dignidade. É sempre uma possibilidade — mas nem sempre uma realidade.

 

 

 

 


publicado por sl às 03:34
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