Sábado, 14 de Julho de 2007

Cultura

CULTURA

 

 

A cultura é o alimento do espírito. Da mesma forma que o homem sentiu necessidade de cultivar plantas e criar animais para a alimentação do corpo, também sentiu necessidade de criar/cultivar ideias para a alimentação do espírito.

O homem distinguiu-se dos outros animais a partir do momento em que criou uma bilateralidade mantendo, por um lado, um corpo físico com características em tudo idênticas aos outros animais, mas por outro, criando uma nova identidade, de carácter mental, espiritual ou psicológico.

Esta nova essência, única e exclusiva do homem, nasceu devido à faculdade natural do homem poder emitir uma grande variedade de sons diferentes e de os poder registar na sua memória, possibilitando a atribuição de um significado a cada um, assim como a atribuição de um significado a cada conjunto de sons, que devido à sua multiplicação, torna interminável tal significação.

Assim, a linguagem e todo o desenvolvimento linguístico, coexistiu em reciprocidade com o desenvolvimento cognitivo, e deles dependente, o desenvolvimento cultural.

A palavra “cão” significa um animal de quatro patas, com pêlo, que ladra e tem um olfacto apurado. Está gravado na nossa memória — no nosso cérebro — que esta palavra, este som, significa tal ideia. Mas se nós a usarmos numa conversa com uma pessoa que nunca a ouviu, e logo não a associou ao animal, essa pessoa nunca saberá ao que nos estamos a referir.

Desta forma nasceram todas as palavras, todas as ideias, toda a cultura, toda a diferença existente entre o homem e o mais que o rodeia. No inicio por palavras simples e em pequenos agrupamentos sociais. Depois pelo crescimento populacional, no contacto entre as várias pequenas sociedades. Mais tarde pela necessidade de comercializar produtos e bens.

A evolução linguística transformou-se devido à necessidade de criar bases de apoio à memória — a escrita — que por sua vez reforçou o crescimento da própria linguagem e da memória. Até que, actualmente, o uso das palavras, dos sons, das ideias, da escrita, etc; fez valorizar de tal forma a linguagem e a cultura, que o homem acabou por esquecer as suas origens naturais pela sobreposição das origens culturais.

Actualmente o homem é um ser cultural. E a cultura é tudo o que o envolve porque a tudo ele deu significado. Tudo traduziu pela linguagem; a tudo atribuiu um nome; e tudo teorizou. A linguagem é a base da cultura. De nada serve conhecermos uma pintura ou uma música se não as sabemos definir. Podemos deleitarmo-nos com elas, mas isso não é cultura — cultura é apreciar ou observar uma coisa e saber o que estamos a observar [Investigadores já provaram que determinadas vacas produziam mais leite por ouvirem determinadas músicas. O facto das vacas terem preferências musicais não significa que sejam cultas]. Cultura é sabermos responder aos pronomes interrogativos: qual, quem, como, onde, quando, porquê?!...

A cultura é um produto social. Só vivendo em sociedade existe cultura. E a cultura, tal como a sociedade, necessita de regras. Uma das principais regras é que cada coisa tenha o mesmo significado para todas as pessoas dentro da mesma sociedade. Os conflitos culturais existem quando as mesmas palavras significam diferentes coisas para diferentes pessoas, ou quando palavras diferentes significam as mesmas coisas para pessoas diferentes, e principalmente quando cada um tenta impor as suas palavras e os seus significados aos outros de uma forma irreverente.

A cultura é tudo o que existe e que está referenciado em palavras. Descobrir qualquer coisa ou criar qualquer coisa é criar cultura porque a nova existência será referenciada por palavras. A cultura não tem limites, pois a capacidade que o homem tem de criar ideias com as palavras que consegue produzir, é interminável.

A evolução cultural é difusa. O homem tanto cria novas palavras para o que o enaltece como para o que o diminui. Tanto conhece mais e melhor o mundo civilizado e evoluído como o mundo subdesenvolvido. A evolução cultural passa também pela miscigenação entre culturas anteriormente isoladas, assim como pela extinção de outras. Compreender a evolução cultural é compreender a evolução humana e vice-versa — humanidade e cultura são duas vertentes de uma sólida unidade. Porque tudo o que compreende o homem e tudo o que o homem compreende é cultura.

Cultura é saber. É conhecimento. Quanto maior for o conhecimento maior é a cultura, independentemente daquilo que se sabe [tem mais cultura uma pessoa — imaginária — que sabe vinte coisas sobre a criação de porcos que outra que sabe dez coisas sobre computadores]. Os limites da cultura em cada pessoa são os limites da sua memória, da sua capacidade de compreensão, da sua mentalidade, que, apesar de não ser possível medir – correctamente — também não faria sentido, uma vez que são osciláveis e dependentes de muitos factores como o contexto social, a idade, o nível de instrução, a motivação, etc.

Quando um homem nasce, nasce inserido numa sociedade cultural, e tudo o que esse homem vai aprender nos primeiros anos de vida vai ser o que os mais velhos lhe vão ensinar. Os mais velhos ensinarão aquilo que sabem, pois é a sua própria cultura. Quando este homem crescer, se os mais velhos lhe tiverem ensinado a aprender coisas pelos próprios meios, vai procurar aprender mais. Ao saber mais vai posteriormente ensinar mais e assim sucessivamente. Mas...

A cultura é produto do homem — foi o homem que a criou — não está na natureza — se o homem morrer, a cultura desaparece. E existe a par de outros produtos ou características, inatas ou de cariz cultural. Entre essas outras características encontra-se o desejo de poder e domínio sobre os outros. E o poder é conseguido através de várias forças de cariz cultural — o filho de um rei só nasce predestinado a ser rei porque a cultura monárquica desse povo assim estabeleceu. As palavras e as ideias estão, de tal forma, enraizadas, que as pessoas nascem enquadradas numa estrutura cultural e social organizada, da qual não ousam duvidar. Esses axiomas não só são racionalizados, como acabam por influenciar o próprio estado de atitudes e o comportamento explícito — numa sociedade monárquica, por exemplo, não só toda a nobreza ensina que o povo lhe deve veneração e honra, como o próprio povo se considera orgulhoso na prestação desse dever. As famílias nobres, ditas de “sangue azul”, a sociedade indiana das castas, os senhores soberanos e os senhores feudais, assim como os escravos do passado, são exemplos de enraizamentos ideológicos em que as pessoas não só sabem aquilo que são, como sentem que aquilo que são é o que tinham que ser — é a sua verdade [limitada à sua existência]. Alguém disse que “nunca se deve libertar um escravo que prefere ficar agarrado às suas correntes”, pois a sua libertação seria a sua desgraça.

As palavras que o homem inventou foram de tal forma valorizadas por ele que o ultrapassaram. E agora é o próprio homem que é escravo das palavras. Escravo da sua própria criação e da sua própria cultura. Todas as ideologias, todas as regras sociais, todas as religiões, todos os valores humanos, foram inventados pelo homem. São produtos culturais nascidos das palavras.

A subordinação do homem perante as palavras será um facto enquanto na sociedade humana não existir igualdade e enquanto uns desejarem ter poder sobre outros, porque assim, quem transmite a cultura é quem está no poder e só ensina o que lhe convém para que se mantenha no poder. E quem recebe a cultura aprende só o que quem está no poder permite que aprenda. E a transmissão de cultura que é feita de geração em geração é limitada e deturpada, criando ao fim de algumas gerações uma cultura rígida, mas desadequada, de valores injustos e de desigualdade social. Facilmente se adoram deuses falsos.

Foi também pela cultura — pelas palavras — que se criaram os valores e os sentimentos humanos. Os novos valores imateriais, de carácter psicológico, espiritual, moral e afectivo. Os valores humanos elevam o homem ao mais alto pedestal perante toda a criação, ao viver conduzido pelo seu órgão mais perfeito — o seu cérebro — fundo de todo o pensamento, razão, justiça, dignidade e paz. Inversamente, os sentimentos humanos, transformaram o homem no único ser capaz de matar sem ser por necessidade natural de sobrevivência, ao deixar-se conduzir pelo seu coração, com ódio, inveja, ciúme e ambição exagerada.

E esta é a cultura do homem. Cultura que permite a uns viverem em palácios revestidos de ouro e a outros morrerem por não terem alimentos; a uns serem senhores da própria cultura e a outros não terem direito a um nome individual; a uns receberem prémios nobel e a outros serem exterminados inocentemente...

E quantas vezes uns podem ser os outros e vice-versa — tudo, semiconscientemente, em nome da cultura, que o homem criou.

 

 

 


publicado por sl às 03:05
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