Sábado, 21 de Julho de 2007

Desejo

DESEJO

 

 

Um desejo é uma necessidade psicológica. É uma necessidade criada pela psicologia e pela criação artificial humana para a sua satisfação e bel-prazer, que está para o homem da mesma forma que qualquer outra necessidade vital está para qualquer outro ser vivo.

Qualquer ser vivo — animal ou planta — necessita de água para sobreviver. A natureza criou os dois — seres vivos e água — com uma relação de dependência organizada e involuntária.

O ser humano — animal racional, dotado de consciência — além de dependências vitais relacionadas com a própria natureza, criou, com a sua inteligência, novas necessidades de carácter humano, umas mais aproximadas da própria animalidade e outras puramente espiritualizadas, que podem ser vastas, confusas, e consideradas de vários pontos de vista.

A diferença entre uma necessidade e um desejo é que uma necessidade é de origem natural, involuntária e instintiva, e um desejo é de origem humana, voluntária e consciente. Todos os seres vivos têm necessidades, e o ser humano, como tal também as tem, mas só o ser humano tem desejos.

A supremacia do ser humano sobre todos os outros seres vivos e o facto de apenas ele ser dotado de consciência, fez com que entendesse todos os seres que o rodeiam conforme a sua própria concepção de vida. Um animal não pensa, mas o homem atribui-lhe pensamentos conforme os seus, porque também ele (homem) sente (dores físicas) como o animal. O animal necessita de água, mas o homem diz que ele deseja água. Só os humanos têm desejos porque só os humanos têm consciência.

Por exemplo: sexo e amor. Cada um e ambos podem ser a mesma coisa. Mas sexo todos os animais necessitam e amor só o homem deseja. O sexo dos animais é periódico e instintivo. O amor humano é regulado e racional. Ou regulável e racionável porque muitos desejos se confundem com necessidades, como o sexo se confunde com o amor. Como muitos valores naturais se confundem com valores humanos, porque o homem é um ser com uma dualidade complexa de animal-físico-instintivo e humano-espírito-consciente.

Todos os desejos foram criados pelo homem e inspirados por um lado nas suas próprias necessidades naturais (fome, sede, carinho, companhia, ternura, segurança, sexo, e tudo o que todos os seres vivos necessitam), e por outro lado nas suas criações artificiais (fama, orgulho, honra, glória, sucesso, poder, e todos os bens materiais artificiais).

O homem nasceu com necessidades, depois criou os desejos, e depois transformou os desejos em necessidades. Ninguém necessita de dinheiro por natureza — não alimenta nem sacia a sede — mas a vida humana desenvolvida é tão artificial que quem não tiver dinheiro não consegue viver — porque tudo se compra e tudo se vende. Através da evolução, por ser colectiva e inconsciente, o dinheiro passou de um desejo de alguns a uma necessidade de todos. Também quando se deseja qualquer coisa em demasia, a não satisfação desse desejo pode causar efeitos emocionais e orgânicos no corpo que podem originar um estado de doença, e logo, é criada uma necessidade fundamentada num desejo.

Um desejo é consciente e controlável, mas se não tivermos consciência disso, poderemos transformá-lo numa necessidade, se não quisermos ou não podermos controlá-lo.

A consciência gera o desejo que se pode controlar, a par e em relação ao inconsciente, que gera uma necessidade que é incontrolável.

Desejar é querer ter. Necessitar é ter que querer.

 

 

 


publicado por sl às 12:31
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1 comentário:
De Ilma Soares Vieira a 16 de Dezembro de 2015 às 22:27
Excelente texto! disse tudo o que a natureza humana precisa saber.
A humanidade está enferma por uns desejos que o poder aquisitov não pode comprar. Só o contentamento pode por um freio nos desejos.


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