Sábado, 4 de Agosto de 2007

Destino

DESTINO

 

 

O destino pode-se entender de duas formas. Neste texto vamos pôr de parte o destino concreto e racional, ou seja, aquele local para onde sabemos que caminhamos, e vamos apenas referir-nos ao destino desconhecido — a sorte ou o fado — que nós guiamos apesar de considerarmos que é ele que nos guia.

As estrelas traçaram no destino a esperança que este texto transforme o triste fado do passado numa vida cheia de sorte no futuro. E isto só acontecerá para quem é supersticioso e acredita no destino, deixando de acreditar nele após a sua compreensão.

Pois de facto, este destino não existe. O destino previamente demarcado por alguém ou por alguma coisa para determinar a orientação da vida de alguém é pura ficção. Ninguém tem um destino ou um fado previamente determinado. Todas as atribuições ao destino nesse sentido são pura superstição ou ignorância. O destino não existe como realidade.

Todos nós temos um passado, que existe desde que nascemos até agora. Temos um presente que é o momento que estamos a viver agora — e que já é passado — porque estas já são outras palavras, e o nosso presente agora é este, aqui, nesta palavra, que vai correndo como o movimento dos olhos e a recepção no cérebro. Só este é presente. Tudo o que está para trás é passado e o que está para a frente é futuro. Tudo o que está escrito a partir daqui é futuro. O próximo parágrafo é futuro.

Mas deixa de ser futuro, e passa a ser presente enquanto que o parágrafo anterior passou a ser passado. Se fosse possível, no presente, saber qual o destino futuro, não haveria necessidade de alcançar o futuro, pois poderia antecipar-se ou adiar-se a sua vivência. Mas não é possível, e daí a sua necessidade de o viver. No entanto, é no presente que se decide, parcialmente e perante as mais variadas circunstâncias, o que vai ser o futuro. Existem coisas que somos obrigados a seguir, perante as leis da sociedade e da natureza, sem hipóteses de escolha — são as leis da vida e não destino — e existem coisas que nós podemos escolher livremente, por opção consciente — se houvesse destino não teríamos qualquer hipótese de escolha.

Seguidamente vai ser apresentado um pequeno teste que prova que o destino não está traçado, que somos nós que o vamos traçando e que nem tudo depende de nós. Chama-se a atenção para que este teste seja realizado uma única vez, seguindo-se cada passo correctamente, pois uma vez realizado não faz sentido a sua repetição.

Pede-se ao leitor para que escolha um dos seguintes números: 4, 14, 24, 34, 134, 234 e 1234. Imagine que o número que escolheu é o seu número da sorte. Se houvesse destino, e o leitor fosse um leitor com sorte, confirmaria de seguida o seu número, ou se fosse um leitor com azar não o confirmaria. No entanto, essa confirmação vai ser o leitor que vai ser levado a faze-la, e apesar de estar consciente que as suas decisões confirmarão ou não a sua sorte, não terá consciência de como isso acontecerá, e será da seguinte forma:

Conserve na sua memória, ou escreva num papel, o número que escolheu para não se esquecer qual foi, e de seguida vai escolher uma das seguintes letras, A, B, C e D, que correspondem aos quatro seguintes parágrafos, e vai continuar a sua leitura no parágrafo que escolheu (se escolheu o A continue no parágrafo A, se escolheu o B avance para o parágrafo B, se escolheu o C avance para C, e se escolheu o D avance para D) a partir de agora.

Parágrafo A: Se este foi o parágrafo que escolheu em primeiro lugar deve memorizar o algarismo 1 (um); e de seguida escolher um dos outros três parágrafos e continuar a leitura nele (se escolheu o B continue em B, se foi o C avance para C, e se foi o D avance para D).

Parágrafo B: Se este foi o parágrafo que escolheu deve memorizar o algarismo 2 (dois); escolher um dos outros dois parágrafos e continuar a leitura nele (se escolheu o C continue no parágrafo C e se escolheu o D avance para o parágrafo D).

Parágrafo C: Se este foi o parágrafo que escolheu deve memorizar o algarismo 3 (três); e como só tem mais um parágrafo, não tem qualquer hipótese de escolha, terá que continuar a leitura no parágrafo D.

Parágrafo D: Memorize o algarismo 4 (quatro), e continue a leitura.

Recorde agora todos os passos que escolheu e quais os algarismos que foi convidado a memorizar colocando-os na ordem da memorização. Com eles formará um número, que confirma, ou não, o número previamente escolhido. Por exemplo, se havia escolhido o número 4 e escolheu o parágrafo D confirmou a sua escolha.

Se houvesse destino bastaria ter escolhido o algarismo 4 e não haveria necessidade de o confirmar. A selecção dos parágrafos, da mesma forma que pode ter confirmado a primeira escolha também a pode ter desconfirmado. Na primeira escolha apenas terá havido espontaneidade, mas na segunda poderá já ter havido planeamento. Na vida somos também obrigados a tomar opções espontâneas, e a tomar decisões planeadas. Com ambas vamos traçando o nosso destino, que não existe à priori, mas que se vai formulando posteriormente. Somos levados a fazer muitas coisas que não compreendemos. Mas tudo tem explicação apesar de nós não a conhecermos. A ordem foi criada passo a passo. É o resultado de várias decisões que foram tomadas em cada momento. Ao escolher cada parágrafo, optando por um e rejeitando os outros, ou existia um motivo pessoal ou era mero acaso. Não era o destino que estava em jogo, mas a consciência e a liberdade de optar num momento exacto — optar bem ou mal — conforme os nossos desejos e o que as circunstâncias impõem. Ao escolher o primeiro parágrafo, como existiam quatro, em cada quatro hipóteses escolheria o que escolheu. Ao escolher o segundo, em cada três hipóteses escolheria o que escolheu. Ao escolher o terceiro, em cada duas vezes escolheria o que escolheu e deixava o outro para quarto sem qualquer hipótese de escolha.

Na vida, a cada momento, vamos optando e escolhendo um dos muitos caminhos que se nos apresentam, ou seguindo os caminhos que nos são impostos sem qualquer liberdade de escolha. Cada momento presente existe circundado de mais ou menos liberdade — assim como mais ou menos perdição — e é em cada momento presente que nós optamos ou não, trilhando a nossa vida, e deixando um rasto ao qual chamamos destino, mas que é apenas passado, fruto das nossas decisões. E é também em cada decisão de cada momento que podemos também influenciar todo o nosso futuro.

Saberemos melhor para onde se desloca um caracol se conhecermos o seu rasto. O nosso futuro prevê-se tendo em conta o passado e principalmente analisando as decisões do presente.

Se houvesse destino previamente marcado não haveria necessidade de nos preocuparmos com a vida, nem de lutarmos pelos nossos objectivos, nem de trabalharmos para crescermos. Pois se um homem nascesse predestinado a ser médico, não necessitaria de estudar porque seria médico pela força do destino, e se nascesse predestinado a não ser médico, ainda que muito estudasse, nunca o alcançaria — o que não é compreensível a qualquer raciocínio lógico.

A única possibilidade de alguém influenciar o nosso destino – futuro — está no facto de poder influenciar as nossas decisões ou decidir por nós. Só quem não tem capacidade mental, carácter ou responsabilidade, prefere que sejam os outros a decidirem por eles. E o seu destino é o que eles quiserem.

Quando alguém morre num acidente de automóvel por excesso de velocidade e se atribui a causa ao destino, seria mais racional atribuir a causa ao acto consciente de decidir carregar no pedal de aceleração.

Uma pessoa racional tem consciência de que a sua vida é feita de passado, presente e futuro — só irracionalmente se concebe a ideia de destino predeterminado.

 

 

 

 

 


publicado por sl às 12:27
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1 comentário:
De SABEDORIA a 13 de Agosto de 2007 às 19:30
Sua vida é controlada pelo destino?

“ALA NÒ DON.” Na língua bambara, de Mali, África Ocidental, essa expressão significa: “É obra de Deus.” Expressões como essa são muito comuns naquela parte do mundo. Na língua uolofe costuma-se dizer: “Yallah mo ko def” (Deus fez isso). E num dos dialetos da tribo dogon o que se diz é: “Ama biray” (Deus causou isso).

Essas expressões têm seus equivalentes em outros países. Quando alguém morre ou ocorre uma tragédia costuma-se dizer: “Chegou a sua hora” e “Foi da vontade de Deus”. Na África Ocidental é comum ver em veículos de transporte coletivo e em tabuletas nas lojas os dizeres: “O homem põe, Deus dispõe”. Muita gente acha que esses dizeres não passam de figura de retórica, mas em muitos casos eles revelam uma crença bem arraigada no fatalismo.

O que exatamente é fatalismo? A Enciclopédia World Book define fatalismo como “a crença de que os acontecimentos são determinados por forças que os seres humanos não podem controlar”. Que “forças” são essas? Há milhares de anos, os babilônios criam que o destino da pessoa era fortemente influenciado pela configuração das estrelas por ocasião do nascimento. (Note o que diz Isaías 47:13.) Os gregos criam que o destino estava nas mãos de três deusas poderosas que teciam, mediam e cortavam o fio da vida. No entanto, foram os teólogos da cristandade que criaram a idéia de que o próprio Deus determina o destino da pessoa!

“Santo” Agostinho, por exemplo, repudiava “as opiniões falsas e nocivas” dos astrólogos, mas dizia que “confessar que Deus existe, e ao mesmo tempo negar que Ele tenha presciência de eventos futuros, é a mais óbvia tolice”. Dizia que, se Deus era mesmo todo-poderoso, ele tinha “de saber todas as coisas antes de acontecerem”, não deixando “nada sem ser predeterminado”. No entanto, Agostinho defendia com veemência a idéia de que o homem ainda tem livre-arbítrio, apesar de Deus saber de antemão tudo o que acontece. — The City of God (A Cidade de Deus), Livro V, Capítulos 7-9.

Séculos depois, o teólogo protestante João Calvino foi um pouco mais além, argumentando que alguns são “predestinados [por Deus] a ser filhos e herdeiros do reino celestial”, mas que outros são predestinados para ser “recipientes do seu furor”!

Hoje em dia, a crença no destino é levada a sério em muitas partes do mundo. É o caso de Ousmane, um jovem na África Ocidental. Ele era um dos melhores alunos na escola, mas foi reprovado nos exames finais! Iria repetir um ano letivo e ainda passar vergonha diante da família e dos amigos. Um amigo procurou consolá-lo, dizendo que tinha sido a vontade de Deus. Sua mãe também culpou o destino pela reprovação.

A princípio, Ousmane se conformou com essas palavras de consolo. Afinal, se ele foi reprovado porque essa era mesmo a vontade de Deus, não havia nada que ele pudesse ter feito para impedir isso. Mas seu pai tinha outro ponto de vista e disse-lhe que a culpa era dele mesmo, não de Deus. Ousmane foi reprovado simplesmente por ter negligenciado os estudos.

Com a fé no destino abalada, Ousmane decidiu investigar o assunto. Nós o convidamos a fazer o mesmo, examinando o artigo que se segue.


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