Domingo, 19 de Agosto de 2007

Dinheiro

DINHEIRO

 

 

O dinheiro é a invenção dos homens que mais transformou a sua vida. Foi inventado para facilitar as trocas comerciais e acabou por servir de valor que representa quase todos os outros valores.

Quando surgiram os primeiros mercados, há alguns milhares de anos, os negócios eram feitos trocando-se os produtos uns pelos outros. Um mercador teria que ter um produto para vender que outro desejasse comprar, e este, por sua vez, teria que ter outro produto para vender, que o primeiro desejasse comprar. Reunir estas condições tornava-se muitas vezes difícil, dai que surgiu a necessidade de criar um terceiro produto, diferente, cuja finalidade fosse poder ser trocado por todos os outros. Criou-se então o dinheiro.

O dinheiro é algo de simbólico que existiu e existe representado materialmente das mais diversas formas. Em moedas de diversos metais, em notas de papel (papel-moeda), em vales, em letras, em cheques, em títulos e em registos informáticos, quase imaterialmente, movimentado por digitalização e bandas magnéticas ou chips electrónicos, só visível o seu valor em monitores ou extractos impressos.

O dinheiro por si só não tem qualquer valor, mas como tudo se pode trocar e pode ser trocado por ele, então, por isso, o dinheiro é a coisa que mais tem valor.

Mas o dinheiro só tem valor quando cotado numa sociedade organizada, com leis de mercado que garantem que quando recebido na venda de um produto, está registado e conforme as leis, de forma a poder ser utilizado na compra de outro produto, e assim sucessivamente.

Nos primórdios do mundo económico — simples economias locais onde se vivia em comunidade — quem possuísse um produto em excesso dividia-o por quem tivesse falta dele. Tudo se dava e tudo se dividia mútua e amigavelmente, naturalmente uns mais, outros menos. Mas os mercados evoluíram. Aumentaram as trocas de produtos e passaram a haver pessoas a viver exclusivamente dessas trocas, comprando a uns e vendendo a outros — os comerciantes.

O mundo continuou a evoluir, existiram grandes progressos científicos, sociais e económicos. Foram criados os bancos e outras instituições de crédito. Grandes mercados começaram a funcionar à escala mundial. Até que o próprio dinheiro começou a ser comprado e vendido, devido aos diferentes valores que lhe são atribuídos.

O progresso faz aumentar a riqueza mundial, mas faz também aumentar a população. Cada vez mais os bens têm que ser distribuídos por cada vez mais pessoas, e logo, cada vez mais cada pessoa tem menos — com a agravante, ou talvez não, de não serem distribuídos igualitariamente.

O valor económico predomina sobre todos os outros valores. Quem tem dinheiro, tem tudo. Quem tem poder económico, tem tudo. Quem tem valores económicos com valor comercial, tem tudo. Os valores não materiais, como o moral, espiritual, familiar, religioso, cultural, artístico, desportivo, etc; só têm realmente valor quando podem ser comercializados. Uma ideia só é valorizada quando pode ser directa ou indirectamente comercializada. Quando pode ser directa ou indirectamente transformada em dinheiro. Tudo o que pode ser transformado em dinheiro, vale, tudo o que não pode ser transformado em dinheiro, não vale.

Como quem tem dinheiro tem tudo e quem não tem dinheiro não tem nada, então, vale tudo para ter dinheiro. Porque se, cada vez, há menos dinheiro para cada pessoa — embora o dinheiro não seja estanque, isto é, aumenta constantemente conforme o crescimento económico que é gerido pela balança da economia que actua sempre que há valorização ou desvalorização excessiva — e se cada vez, cada pessoa vale mais se possuir mais dinheiro, então, o medo de não ter dinheiro, que é o mesmo que o medo de não ter valor, que é o mesmo que o medo de não ser ninguém, que é o mesmo que o medo de não ser respeitado, que é o mesmo que o medo de não existir, faz com que cada pessoa use todos os meios, lícitos ou não, legais ou não, éticos ou não, para adquirir dinheiro, que é o mesmo que para existir, ou para sobreviver.

Para se sobreviver, no mundo actual moderno, é imprescindível ter dinheiro. Quem tem dinheiro sobrevive, quem não tem dinheiro morre [há actualmente lugares onde se paga para respirar (por enquanto, só ar puro)].

A luta pela sobrevivência, que é o mesmo que a luta pelo poder ou a luta pelo dinheiro, transforma as pessoas em seres insensíveis, indolentes, completamente indiferentes aos problemas dos outros.

E quem tem dinheiro apregoa os valores sociais, os valores humanos, as boas intenções, a moral e os bons costumes. No fundo, sabe que o que conta é o dinheiro, mas é importante que os outros não pensem assim, porque quanto menos dinheiro os “pobres” desejarem mais os “ricos” dividem entre si. E o dinheiro traz dinheiro como a pobreza traz pobreza, criando-se um conjunto de ciclos viciosos que transformam os – poucos — ricos cada vez mais ricos, e os – muitos — pobres cada vez mais pobres.

 

 

 

 

 


publicado por sl às 01:10
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