Sábado, 13 de Outubro de 2007

Escrita

ESCRITA

 

 

A escrita é um conjunto de símbolos criados pelo homem que permite a transmissão de ideias sem contacto físico natural entre o emissor e o receptor. Essa característica possibilita a transmissão de ideias em espaço e tempo relativamente ilimitados. Através da escrita é possível enviar mensagens de um ponto para qualquer outro do planeta, ou do espaço, onde se encontre um homem, como também enviar e receber mensagens no tempo. Pode-se receber uma mensagem que foi escrita há milhares de anos, como escrever uma que pode ser lida só daqui a milhares de anos. A escrita aumenta a capacidade humana de comunicação de tal forma que torna o homem num ser extraordinariamente diferente e superior. Será assim a maior invenção ou o grande passo para a sobrevalorização do homem perante todos os outros seres e perante todo o universo que o rodeia.

A criação da escrita, como tudo o que o ser humano criou — tudo o que é artificial e/ou que não nasce naturalmente — é uma criação lenta, progressiva e demorada. Uma criação que começou do nada há milhares de anos e que foi evoluindo a par de todas as outras vertentes evolucionistas humanas, influenciando e sendo influenciada por elas, até à actualidade conhecida, e com caminho livre para continuar a evolução cada vez mais rápida e complexa.

A escrita nasceu de outra grande criação humana, a linguagem — a principal distinção entre os humanos e os outros animais. A linguagem é um conjunto de sons produzido pelo aparelho vocal humano que significa uma coisa ou uma ideia. A escrita é um conjunto de sinais gravados ou impressos numa superfície material visível que significa um conjunto de sons reproduzíveis pela voz, que por sua vez significam uma coisa ou uma ideia.

A origem da escrita está na observação que o homem efectuou de tudo o que o rodeava, criando sons que significassem cada coisa observada, e posteriormente criando símbolos que significassem cada um desses sons.

A invenção da escrita deve-se à necessidade de não perder informação útil e de perpetuar ideias importantes, funcionando como uma ajuda preciosa à limitada memória humana. A memória humana não tem capacidade para registar toda a informação recebida de forma a poder utilizá-la útil e conscientemente numa vida em sociedade. Houve então a necessidade de recorrer a ajudas de memória do exterior. Com as mãos gravam-se símbolos que mais tarde ao serem percepcionados fazem recordar algum acontecimento do passado. Assim nasceu a escrita.

A escrita começou por ser um conjunto de poucos símbolos grosseiros, e cada um com um vasto significado. Nos primeiros tempos, a sua evolução aconteceu no sentido de esmiuçar esses símbolos. Cada civilização criou a sua linguagem e posteriormente a sua escrita — os seus símbolos. No decurso da história, civilizações houveram que se perderam, e com elas as suas escritas. Actualmente existem várias civilizações, com diferentes escritas — note-se a total diferença existente nos símbolos actuais das escritas chinesas, árabes, e latinas. Cada escrita nasceu e evoluiu conforme a civilização que a originou. Dos símbolos que significavam ideias, evoluiu-se no sentido de cada símbolo representar uma sílaba, e posteriormente, com a invenção do alfabeto, cada símbolo representa um som produzido pelo aparelho vocal, que apenas tem significado quando aliado a outros símbolos para formar uma palavra, ou em separado no contexto de uma frase. Esta desconjunção dos símbolos grosseiros que permitiu a criação de novos símbolos elementares, possibilitou a reunião desses novos símbolos com eles próprios e com outros, de uma forma multiplicativa e de organização de frases interminável. Se apenas possuíssemos um símbolo para cada objecto apenas poderíamos representar tudo o que é concreto, mas não poderíamos representar os verbos, os adjectivos, as ideias, os pensamentos, e toda a semântica.

A escrita alfabética permite uma criação interminável de significados. A criação de ideias está correlacionada com a criação material. Quanto mais complexas forem as ideias mais complexas podem ser as criações materiais e vice-versa. A evolução torna-se mais eloquente. Também por essa razão, as civilizações de origem latina, com linguagens e escritas de origem latina, se desenvolveram ao ponto de tomar a dianteira no progresso humano.

A escrita nasceu da linguagem oral, mas a evolução das duas foi simultânea devido à dependência recíproca — a linguagem escrita e oral conduzem à mesma ideia. A linguagem latina, que recebeu grandes influências da antiga linguagem grega, acabou por se dispersar por todos os países originados do antigo império romano. A escrita latina originou as escritas dos países da velha Europa, que na época da expansão, das descobertas, das conquistas e dos achamentos as espalharam por quase todo o mundo. Actualmente com o progresso tecnológico, nomeadamente no campo da informação e da informática, a escrita inglesa começa a globalizar-se. Não sabemos, no entanto o que o futuro nos reserva, mas possivelmente, a chamada aldeia global tenderá ao uso prático de uma só linguagem e uma só escrita, compreendida por todos os seres humanos, que poderá ser uma nova criação originada das actuais (o esperanto, por exemplo), ou a supremacia natural de uma linguagem existente (o inglês segue essa tendência). E as actuais mais de duas mil línguas faladas e muitas delas escritas das mais diversas formas poderão ser extintas e passar ao esquecimento ou ao uso como línguas mortas, como acontece actualmente com o latim.

A escrita foi fundamental na evolução humana porque permitiu que informação do passado fosse recebida no futuro através da leitura de registos e documentos que possibilitaram a compreensão de acontecimentos passados, longinquamente, sem a presença “in loco” dos sujeitos vivos. Permitiu também que informação de um lugar viajasse para outro mais rapidamente, possibilitando a resolução de problemas sem a deslocação e presença real dos intervenientes. E permitiu através da difusão em série de periódicos, a possibilidade da criação da opinião pública, que culminou na democratização/liberalização da civilização, na alfabetização e na criação de direitos humanos protegidos.

A escrita em si é uma coisa artificial, incipiente e inerte. Só é possível em sociedade e só é necessária quando se pretende que uma ideia passe ao esquecimento com a possibilidade de ser reavivada de novo. A linguagem escrita funciona como qualquer outra forma de linguagem, necessita de um emissor, de um receptor e de um canal de transferência. O emissor é o escritor, o receptor é o leitor, e o canal de transferência é o suporte da escrita —  o papel, por exemplo —  a mensagem e o código são a escrita, com a diferença de que o código fica-se pela escrita e a mensagem passa da mente do emissor para a do receptor.

Qualquer escrita nada significa a partir do momento em que acabou de ser escrita. O valor da escrita apenas é o valor dado por quem escreve no momento que escreve e o valor dado pelo leitor no momento da leitura. Entre o momento da escrita e o momento da leitura os símbolos existentes nada significam. Para a escrita ter significado, é necessário que o escritor e o leitor compreendam a mesma linguagem — os mesmos símbolos, as mesmas letras, as mesmas palavras, e os mesmos significados. — Um português que só compreende a linguagem escrita portuguesa nunca compreenderá os significados dos símbolos da escrita chinesa porque são muito diferentes; o mesmo português também não compreenderá os significados da escrita inglesa apesar dos símbolos serem iguais; e se o português é analfabeto nem os significados da escrita portuguesa compreenderá. A compreensão da escrita exige o conhecimento dos símbolos – léxico — o conhecimento da organização dos símbolos – sintaxe — e o conhecimento do significado da organização dos símbolos — semântica. Estas letras nada significam para quem nunca aprendeu o que cada uma e a sua junção organizada significam. Para saber ler e escrever é necessário que haja um código linguístico criado pela sociedade e suficientemente consistente, englobando regras gramaticais que sejam aceites, compreendidas e ensinadas durante várias gerações.

A escrita não é uma necessidade vital, não é uma função natural da vida. Não é hereditária e não é perene. Está constantemente em mutação e é permanentemente ensinada pelos mais velhos e aprendida pelos mais novos. A sua constante mutação depende da criação de vocábulos novos na sociedade, resultantes de novos pontos de vista da realidade ou de novas realidades.

No passado, a escrita foi inventada por pessoas que viviam em círculos de elite, privilegiados por terem todas as suas necessidades satisfeitas por outros, podendo dar-se aos prazeres da retórica, da arte e da ciência. Durante muitos milhares de anos só esses poucos tinham acesso à leitura e ao conhecimento, mantendo-se a grande maioria na ignorância, na guerra e na luta pela sobrevivência. Mas a natureza tem evoluções que a própria razão desconhece. A recente, e relativamente brusca, expansão da alfabetização, transformou totalmente o mundo. A escrita transformou-se num valor enigmático. Criaram-se dicionários e enciclopédias, criaram-se leis e códigos, criaram-se regras e estatutos, criaram-se marcas, nomes e números — toda a vida se retratou pela escrita. E se por um lado ainda é elevada a percentagem de analfabetismo, por outro lado todos fazemos parte de algum suporte escrito.

A escrita valorizou-se de tal forma que toda a existência só é considerada quando traduzida e provada pela própria escrita. A linguagem escrita tornou-se determinante na vida. Por ela tudo se regista, tudo se traduz, tudo se compreende e tudo se ensina, porque a sua abstracção simbólica evoluída permite a teorização de tudo o que existe, e das mais diversas fórmulas: científica, matemática, literária, lírica, narrativa, descritiva, poética, dramática, cuidada, popular e pessoal.

Além da sua indubitável utilidade como suporte de ajuda da memória pessoal e colectiva, em agendas, diários, arquivos e bibliotecas, que possibilitam um elevado alargamento das nossas capacidades intelectuais naturais; e da sua indubitável utilidade como meio de envio de mensagens de grande alcance e conteúdo e de baixo custo, primeiro por mensageiros e correios postais, e actualmente por meios informatizados e em tempo real; e ainda da sua indubitável utilidade como meio de difusão pública de informação útil e necessária, lúdica e de opinião, nos meios de comunicação social, livros, anuários e catálogos; a escrita foi também a grande base impulsionadora das criações intelectuais, quer a nível científico quer a nível erudito. Só devido à escrita foi possível fazerem-se grandes descobertas e darem-se grandes passos na evolução científica, e só devido à escrita foi possível criarem-se grandes obras literárias e artísticas que transformaram culturalmente o mundo.

A escrita só é possível pela aprendizagem, cada vez mais não só da língua materna, mas também de estrangeiras, devido à globalização da sociedade. A aprendizagem só é possível com estabilidade social, política e económica. A estabilidade depende de diversos factores, que podem ser imprevistos e incontroláveis.

Actualmente é impossível viver num mundo civilizado sem saber escrever nem ler. Mas também de nada serve saber escrever e ler quando não há paz, segurança, saúde e alimentos.

Escrever é pensar devagar. É exteriorizar os pensamentos. É poder ver o que se pensa. É poder pensar no que se pensa. É poder corrigir o que se pensa mal. É crescer. Escrever é também registar a imaginação. É criar a partir do nada. Tudo o que é escrito pode ser útil e benéfico. Pode ser simplesmente aprazível. E pode ser até inútil e maléfico. Porque o acto de escrever é o acto mais livre e mais individual que há. Tudo pode ser escrito, e uma vez escrito, tudo pode ser lido —  esta é a finalidade da escrita. Mas nem tudo o que é lido é agradável e aceitável. Tudo o que se escreve pode-se perder para sempre, mas se não se perder, e se for lido, pode provocar reacções evolutivas exponenciais incontroláveis, que podem ser glorificadoras ou aterradoras,

A escrita também é uma arma, e como todas as armas, dá poder — mas também mata.

 

 

 

 

 


publicado por sl às 02:05
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