Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Família

FAMÍLIA

 

 

A família é um conjunto de pessoas que partilham em comum alguns aspectos de intimidade. Tem como objectivo principal a organização entre adultos de forma a permitir a sobrevivência dos recém-nascidos. É uma organização natural que assegura a continuidade da espécie humana.

Mas a família é entendida das mais diversas formas.

Atribui-se a origem da família às reuniões antigas dos escravos ou criados em volta do seu chefe, dai nascer o chefe de família, e também à necessidade de organizar grupos para cultivar a terra quando os alimentos naturais escasseavam. Mas não serão estes os verdadeiros sentidos da família actual.

A família natural, análoga em todas as espécies animais, começa quando todos os seres jovens, no despertar da sua sexualidade, começam a sentir atracção pelo sexo oposto, com vista ao acasalamento. Qualquer casal, após a fase preliminar necessária para garantir correspondência quanto à disposição do corpo, pela excitação, acaba por copular. A cópula visa a concepção. Durante o período de gestação, a fêmea torna-se frágil até algum tempo após o nascimento do descendente. O macho, por sua vez, devido à afectividade que ganhou, causada pelo prazer sexual, protege-a, primeiro a ela, e depois também o recém-nascido. A desunião só acontece quando o novo ser sobrevive pelos próprios meios.

É assim com todos os animais, e com os humanos também. Mas os humanos, como são inteligentes, adaptaram a natureza às suas ideias artificiais. E da mesma forma que se alimentam não quando têm fome, mas nas horas marcadas para refeições, também não constituem família para garantir descendência mas para os mais variados fins.

A união natural — inevitável — apenas serve de base a todos os enquadramentos que estruturam a sociedade humana. A família é o primeiro e o último grau da sociedade humana, porque, por um lado, toda a sociedade tem uma componente familiar na sua estruturação, e por outro lado, todos os indivíduos pertencem a alguma família.

Assim, a família humana é importante não só para gerar descendentes, mas também para garantir segurança e entreajuda mútua, porque ao ser uma união de pessoas, faz mais força e gera mais poder. Serve também para proteger os mais desprotegidos, nomeadamente doentes e idosos, para além das crianças. Serve de base fundamental na transmissão de valores ideológicos, éticos e religiosos, pela educação. É também a base da organização social. Parte da família ou é a ela direccionada toda a sistematização política e económica, nomeadamente a concepção de direitos, liberdades e garantias. As regras da moral e ética, tradições e bons costumes, assim como as regras económicas, das heranças, impostos, consumo e propriedade de bens, estão também inter-relacionadas com a família.

Todos estes critérios levam à definição do que é uma família, onde começa e onde acaba, mas são de origem humana — artificial. A história descreve-nos muitas definições distintas da família: o chefe de família já foi a mulher; os idosos já foram abandonados para morrer; os filhos deficientes já foram assassinados; a poligamia e a poliandria já existiram; o casamento incestuoso e homossexual já existiu; o adultério masculino já foi aclamado; o casamento civil já foi proibido; o concubinato já foi admitido; etc; etc.

Todas estas variantes nas relações familiares e ainda muitas mais, já existiram e foram legais. A família apenas é o que a sociedade quiser que ela seja, apesar dessa decisão ser parcialmente inconsciente.

Apesar da família ser a grande fomentadora dos principais laços humanos, também é, por vezes, grande motivo de conflitos. O acto fundamental da construção familiar é o casamento. Qualquer pessoa ao casar passa a considerar o cônjuge, a pessoa mais importante da sua vida, sobrevalorizando-o em relação aos pais, não obstante, estes terem-na gerado e criado, e o cônjuge por vezes ser quase um desconhecido. E é desse desconhecido que vão ser gerados novos filhos e nascer nova família.

A família nasce no amor. E do amor nascem os filhos. Quando os filhos crescem, a chama do amor apaga-se. Talvez esta realidade seja a causa da elevada percentagem de infidelidade e divórcios, ainda que muitos casamentos sejam eternos e muitas famílias permaneçam unidas por outros motivos.

E o amor paternal, só os verdadeiros pais o sentem, e só eles o consideram demasiado aprazível e demasiado sublime para ser descritível.

 

 

 

 

 


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Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Fama

FAMA

 

 

A fama é o conhecimento que os outros têm de nós.

Todos vivemos em sociedade e vivemos numa sociedade consciente porque somos civilizados e sabemos que existimos entre outros. Todos temos relacionamentos sócio-culturais com outros, na família, na escola, no trabalho, na igreja, no desporto, na rua, nos transportes, nas festas e em todos os lugares públicos que todos podem frequentar ou em todos os lugares particulares frequentados por alguns.

Temos ainda relacionamentos sociais sem contactos físicos quando dos nossos espaços reservados comunicamos com os outros pelos meios que a tecnologia nos permite — carta, telefone, fax e e-mail. Conhecem-se melhor duas pessoas que comunicam frequentemente por escrito ou telefone entre dois continentes e que nunca se encontraram, do que duas pessoas que se cruzam diariamente na mesma rua, mas que nunca se falaram.

Mas a fama vai mais além porque não exige que o conhecimento seja recíproco. Para uma pessoa ser famosa basta que os outros tenham conhecimento dela independentemente dela ter ou não conhecimento deles. Aliás, quanto maior for a fama menor será a reciprocidade, porque, quantas mais pessoas conhecerem uma, menor será a probabilidade desta conhecer as primeiras.

A fama pode ser boa ou má. É boa quando o motivo que tornou a pessoa famosa é socialmente útil, culturalmente enriquecedora e moralmente aceite, e é má quando acontece o oposto.

Pode também ser voluntária ou involuntária. É voluntária quando é a própria pessoa que conscientemente deseja ser conhecida e age no sentido de se dar a conhecer. E é involuntária quando a autoria de algo invulgar, ou acontecimento particular, desencadeia uma acção de divulgação que ninguém consegue controlar.

A fama, como tudo na vida, tem vantagens e desvantagens. O reconhecimento público de alguém é motivo de orgulho, honra e glória e até auto-realização e poder, se esse alguém goza de boa fama. Mas poderá ser o oposto se goza de má fama. No entanto, na fama, estão sempre em jogo os critérios dos valores das pessoas famosas contra os das pessoas que lhes atribuíram a fama. A fama pode ter uma evolução progressiva, brusca ou até póstuma, mas sempre que acontece com pessoas vivas, limita-lhes a liberdade individual por se tornarem figuras públicas. Uma pessoa famosa pode por um lado fazer mais o que quer porque tem poder, mas por outro não pode fazer tanto o que quer porque está permanentemente a ser observada. A fama projecta-nos na sociedade, mas limita-nos a liberdade.

Os meios de comunicação social, cada vez mais influentes, são os principais geradores de fama, por transformarem públicos os aspectos particulares das pessoas.

Como o excesso de fama seria a falta de individualidade, e o excesso de individualidade seria a falta de contactos sociais, e como todos necessitamos simultaneamente de individualidade e de sociabilidade, cada um terá que encontrar a dose certa de cada parte para ter a fama que deseja, não esquecendo que a vida não é só o que nós queremos, mas também o que os outros querem, e o que a natureza permite.

 

 

 

 


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Sábado, 1 de Dezembro de 2007

Existência

EXISTÊNCIA

 

 

Para existir é necessário ser ou estar.

Para a sua melhor compreensão, a existência pode-se dividir em duas partes distintas — o homem e a natureza — que são totalmente diferentes, mas que uma sem a outra não permitiam a existência da própria existência.

A natureza, seguindo leis próprias não totalmente conhecidas, originou tudo o que existe. Tudo o que existe tem origem na natureza. Assim, o cosmos, as estrelas, os cometas, os planetas, os oceanos, as montanhas, os desertos, as plantas, os animais, e etc; tudo nasceu da natureza, e são ela própria. Mas tudo existe sem saber que existe!

E foi então que no topo da existência, a natureza fez também nascer o homem. Nasceu o homem, não como animal mamífero, erecto, com cabeça, tronco e membros, mas como ser pensante, inteligente, e que raciocina devido às faculdades naturais de falar, recordar e imaginar.

E foi o homem que no topo da existência, tomou consciência de que existia ele e tudo o que o rodeava. E foi essa consciencialização que tornou tudo existente apesar de já tudo existir.

Assim, para uma coisa existir, é necessário que essa coisa exista e que o homem saiba que ela existe. Uma árvore já era árvore antes do homem a conhecer, mas foi este que lhe atribuiu o nome e descreveu as características. Quase tudo existe anteriormente ao homem, mas só este tem consciência dessa existência. E com a sua consciência, além de tudo teorizar, ou transformar em palavras tudo o que existe, de forma a provar essa existência, o homem criou ainda novas formas de existência: a existência espiritual ou extramaterial.

Tudo o que existe sob a forma espiritual, psicológica, mística ou ideológica, nasceu da mente humana, e tem o cérebro como base. Desta forma, tudo o que não é material é dele dependente. Toda a existência é originada na natureza material. O espírito humano só existe porque existe o cérebro, como a energia só existe porque existe a matéria.

Mas o conhecimento da existência de tudo só é possível com a existência da própria     consciência.     Sem            consciência — característica exclusivamente humana — não seria possível admitir a existência.

Pode-se então concluir que existem três formas de existência: existe a realidade natural, que é a verdade originada na própria natureza, independentemente do conhecimento humano dela ou não; existe a racionalização, que é a verdade natural de que o homem tem consciência, e que com a sua inteligência catalogou; e existe a criação humana, que é a verdade que o homem considera existir, independentemente da existência de provas. Resumindo, existe o que existe, existe o que o homem sabe que existe, e existe o que o homem pensa que existe.

Toda a existência nasce na natureza, mas só é concretizada após o reconhecimento humano. O homem é um tradutor da realidade natural, mas como não a conhece totalmente, traduz a parte desconhecida da forma como a imagina. E o conhecimento da realidade natural só existe através do homem. Por isso, tudo o que o homem diz é verdade, porque ninguém o pode desmentir. Será ele próprio a ter que mudar de ideias, crescendo, porque, pior que mudar de ideias é não as ter.

A existência é só uma e só existe sendo afirmada. Mas são muitas as formas de a afirmar.

 

 

 


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Domingo, 18 de Novembro de 2007

Evolução

 

EVOLUÇÃO

 

 

Falar de evolução no sentido abstracto do termo significa falar de evolução humana. O Homem é um ser em constante evolução. Desde que se conhece e até onde se conhece — caminhando em direcção ao passado — sempre existiu evoluindo, no sentido em que ele próprio se considera evoluir.

Apesar de alguns indícios indicarem a existência de civilizações evoluídas no passado, no conhecimento científico actual, esses indícios não são considerados verdadeiros, perdendo-se assim o conhecimento do passado nos meandros do esquecimento, embora direccionado para a involução até à própria natureza, cada vez mais no sentido bruto.

Segundo as teorias mais consensuais do mundo científico, tudo existe na natureza, representado por átomos e em duas formas: matéria e energia. Como ambas se transformam uma na outra, então uma e a outra são a mesma.

Os átomos — e tudo o que os compreende — todos juntos formam tudo o que existe, desde a maior inactividade à maior actividade. Uma rocha é uma composição de matéria permanentemente inactiva, e um coração é uma composição de matéria permanentemente activa — sob o ponto de vista humano.

Assim, dentro dos limites do conhecimento — humano — porque não conhecemos a verdadeira origem do universo nem a sua evolução, se é que existem, pois todas as afirmações a isto referentes são teorias não comprovadas, ainda que lógicas — toda a evolução segue no sentido da maior simplicidade, na composição atómica, para a maior complexidade, dessa composição.

Se colocarmos num recipiente areia, água e azeite e agitarmos tudo, obteremos uma mistura homogénea. Se deixarmos de agitar, os três elementos separam-se. Também se imagina que no início dos tempos toda a composição da vida se encontrava igualmente misturada numa massa homogénea, que, com o passar dos tempos e com a estabilidade cósmica, cada vez mais os elementos foram-se diferenciando do todo, agrupando por partes, e reunindo essas partes em doses complexas que originaram a vida.

No sentido inverso, e imaginando para melhor compreensão, se reuníssemos um elefante, uma árvore, um automóvel, e uma viga de betão armado, e ralássemos tudo o mais possível, obteríamos uma pasta com peso, densidade, humidade, pressão, temperatura, cor e outras características específicas. Ninguém conseguiria localizar e extrair dessa pasta o sangue ou a pele do elefante, a madeira ou o fruto da árvore, a gasolina ou o vidro do automóvel, e o cimento ou o ferro da viga, mas tudo estava lá.

A separação das partículas elementares da matéria e a sua reorganização, são o resultado de muitos milhões de anos de estabilidade e de reunião de condições de evolução, começando por serem criadas as matérias inorgânicas e depois as matérias orgânicas que deram origem à vida. Os minerais, vegetais, animais e por fim os humanos, são todos provenientes dessa massa inicial, e existem desde as formas mais simples às mais complexas.

A evolução é a criação de coisas novas com base nas anteriores. Tudo existe na natureza desde o princípio ou desde sempre e é apenas transformado para maior complexização,

A evolução da vida na natureza, vegetal e animal, precede a evolução humana, mas ambas seguem os mesmos trajectos, até porque a evolução humana também é natural. Os seres vivos evoluem conforme a teoria da evolução natural das espécies, em que o ser mais forte vence sempre, tornando-se o gerador de descendência.

O homem é o ser vivo mais evoluído porque possuí o sistema mais complexo de organização celular. Todos os seres vivos são organizações de células. As células são a mais elementar matéria viva. São diversificadas conforme a sua estrutura molecular formada pela composição atómica. Os átomos — matéria ou energia — que formam as moléculas que formam o sistema nervoso do corpo humano, são a mais evoluída estrutura de matéria viva natural. Por isso criaram o pós-material: o espiritual.

O espiritual nasceu com a linguagem e a consciência, e toda a evolução artificial nasceu também daí. A evolução humana é originada na sua inteligência. Com ela, o homem domesticou animais, cultivou plantas, criou sociedades civilizadas, dominou muitos obstáculos naturais, e começou a conhecer-se a si próprio e ao lugar que ocupa na natureza. Cada nova geração é mais evoluída que a anterior porque acumula os ensinamentos precedentes com a experiência própria.

A evolução artística, económica, social, tecnológica e científica, é idêntica à evolução natural. A opinião do mais forte é a que prevalece. Mas o mais forte pode não ser o mais inteligente, e por isso toda a criação humana é de uma artificialidade de segurança relativa. A evolução humana não é totalmente consciente. Evoluímos na direcção que a natureza nos permite e que queremos, mas não sabemos porque queremos, porque ninguém controla nem explica a evolução.

E se a natureza é de uma diversificação imensa, que criou infinitas formas de vida, não sabemos se a sua própria evolução e principalmente se a nossa evolução humana, é a única forma de evolução ou se é uma de muitas variantes possíveis, porque tudo o que nós – humanos — sabemos, aprendemos pelos nossos próprios meios — ninguém mais inteligente nos ensinou nada — e podemos estar totalmente errados.

Enquanto não acontecer nenhuma catástrofe a nível planetário, e a estabilidade natural e a vida se mantiverem, continuaremos a evoluir, e poderemos um dia saber porquê — ou não.

 

 


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Terça-feira, 13 de Novembro de 2007

Eternidade

ETERNIDADE

 

 

Considera-se eterno tudo o que não tem princípio nem fim. Se não tem principio, não tem origem, não nasceu, não foi criado nem inventado. E se não tem fim, não tem destino, não morre, não se extingue e não desaparece. Logo, se não tem uma nem outra coisa, também não pode ter existência. E não existe.

A eternidade realmente não existe. Não existe porque tudo tem princípio e fim. Ainda que o princípio e o fim, sejam indefiníveis por se perderem no infinito, ou que sejam quase simultâneos, eles existem, e a própria existência existe entre eles.

Tudo existe entre um princípio e um fim. Podem ser eternamente – humanamente — desconhecidos, mas existem. A existência de alguma coisa prova a existência do seu princípio e do seu fim. A não existência de principio e de fim prova a inexistência da coisa.

A eternidade, ou tudo o que não teve princípio e é igualmente infinito, apenas existe psicologicamente, em termos de lógica científica necessária ao abstraccionismo da racionalidade.

Se dividirmos dez por três, obteremos um número infinito (3,333...). A divisão deste número vai até à eternidade, não tem fim, mas é impraticável. A sua aplicação prática ou é arredondada ou perde-se para sempre, que é o mesmo que lhe atribuir um fim.

Na vida como na matemática, a eternidade só existe teoricamente. É uma impossibilidade prática real. Quando alguém diz que alguma coisa existe eternamente ou para sempre, está-se a referir a uma eternidade relativa. Existe até um fim indeterminado ou existe para sempre enquanto outra coisa existir, depois acaba também.

A eternidade é também usada pela religião de forma a dar um sentido à vida que é finita, tornando-a infinita em planos espirituais. Neste aspecto poderia dizer-se que a eternidade existe, por ser puramente espiritual. Mas o espírito só existe porque existe um corpo. Se o corpo morre, o espírito deixa de existir, e a eternidade com ele.

A eternidade só existe em imaginação. Tudo o que é eterno não existe real e naturalmente, porque tudo o que existe real e naturalmente tem fim, como teve princípio.

 

 

 


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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Espírito

 

 

 

ESPÍRITO

 

 

O espírito é uma das características humanas que mais acentua a diferença existente entre o ser humano e os outros seres vivos. O espírito humano identifica-se também como “alma” — sinónimo religioso — e como “psique” — sinónimo derivado do grego que acabou por ser adoptado no mundo científico, pelas palavras “psíquico” e “psicológico”. O espírito é algo que se traduz pela alma da religião e pelo psíquico da ciência. A religião chama “alma” ao espírito e tem uma explicação consistente para essa concepção, da mesma forma que a ciência tem uma explicação para lhe chamar “entidade psicológica”.

O espírito é algo que existe no homem e apenas neste, e é nesse espírito que se encontra a grande superioridade humana. Mas não é ainda possível clarificar consensualmente o que é o espírito, pois a sua essência justifica esta impossibilidade, apesar de, no entanto, lhe serem atribuídas muitas caracterizações e definições.

O espírito é uma entidade abstracta incognoscível, excepto pelas suas manifestações e principalmente pelas teorizações dessas manifestações. Não há um acesso directo ao espírito, mas um acesso às suas manifestações. Não sendo uma entidade concreta, o espírito não se pode localizar espacialmente, mas por aproximação e idealização, imagina-se que o espírito possa estar “localizado” no cérebro humano sob uma forma imaterial.

As células cerebrais recebem permanentemente enormes quantidades de informação através dos sentidos e do interior do próprio corpo. Esta informação é registada na memória. A memória é composta por, calcula-se, cinco por cento de consciente e noventa e cinco por cento de inconsciente. No nosso quotidiano racional humano apenas funcionamos com o consciente, pois somos seres racionais. Mas se nós quisermos deixar de ser racionais e conscientes — embriagando-nos, tomando alucinogénios, medicamentos não receitados ou produtos tóxicos, trabalhando ou praticando exercício físico excessivamente, abstendo-nos de alimentos ou de dormir, etc; etc. — ou se por acidente ou doença, deixarmos de ser racionais e conscientes involuntariamente, ou por outras palavras, se o nosso corpo for privado das suas necessidades vitais, ou se receber ou expelir qualquer coisa em excesso ou em defeito, em relação àquilo para que está naturalmente preparado, entra em desequilíbrio, e o cérebro, como órgão corporal físico que também é, entra também em desequilíbrio. Este desequilíbrio no cérebro baralha a memória e transforma o ser humano racional e consciente em irracional e inconsciente. A perda parcial ou total de consciência deixa livre o caminho para o inconsciente que é inconfundivelmente maior e quase todo desconhecido. É quase todo desconhecido porque a maior parte das coisas que o nosso cérebro regista na memória não chega a passar pela consciência. Por exemplo, conscientemente este texto está a ser lido, mas inconscientemente o cérebro está a registar o que o leitor sente sobre ele, se concorda ou não, se provoca prazer ou repugnância, as vezes que o leitor se enganou, que recuou ou repetiu, a cor do papel, a forma da letra, a luz que nele incide, todos os sons, movimentos e odores que os sentidos conseguem alcançar, as dores musculares, os movimentos oculares — uma lista interminável de coisas que ficam no cérebro inconscientemente. Então, quando o caminho está livre, nós podemos ter acesso a coisas ou manifestar coisas vindas do nosso cérebro, que nunca nos passariam pela cabeça conscientemente. São tudo coisas vindas do nosso inconsciente inconscientemente, pois só inconscientes temos acesso ao nosso inconsciente da mesma forma que só conscientes conseguimos raciocinar.

O espírito é tudo o que o cérebro contém consciente e inconscientemente. A ciência define o espírito a partir do consciente atribuindo-lhe todas as faculdades psicológicas e espirituais, como o racionalismo, a identidade, a personalidade, a mentalidade, os sonhos, os desejos, os medos, etc. A religião define o espírito a partir do inconsciente, considerando todas as manifestações do inconsciente como sendo das almas, dos mortos, dos anjos, do sobrenatural, do outro mundo, de Deus e da eternidade.

O espírito é tudo isto. Se enquanto dorme, o homem sonha eroticamente com a mulher, a ciência pela psicologia afirma que é o “id” a satisfazer um desejo que o “ego” não satisfaz porque o “superego” não permite. A religião, pelas suas doutrinas, afirma que é a tentação da carne, que simboliza o mal.

O espírito continua a ser um grande enigma para o homem, porque conscientemente apenas é o que a psicologia consegue teorizar. E inconscientemente apenas se manifesta em estados de consciência alterada, e sempre involuntária e imprevisivelmente, não se podendo estudar científica e racionalmente.

O espírito está no cérebro. O cérebro emite ondas eléctricas. As ondas cerebrais variam conforme o estado de espírito e conforme a actividade cerebral. Se o cérebro se alterar, a energia que dele pode ser libertada pode criar os mais imprevisíveis fenómenos.

Visões e fantasmas; movimentos, sons, odores e manifestações corporais absurdas; sonhos premonitórios; pesadelos; e etc; são manifestações do espírito vindas do inconsciente.

Inteligência, consciência, justiça, paz, ternura, respeito, amizade, civismo, liberdade, igualdade, fraternidade e etc; são manifestações do espírito vindas do consciente.

O nosso espírito crítico, aliado ao nosso espírito humano, saberão escolher qual a espiritualidade que mais nos convém e por ela guiarmos a nossa vida.

 

 




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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

Esperança

ESPERANÇA

 

 

“A esperança é a última coisa a morrer” — esta popular frase traduz o que é a esperança. Mas a esperança é ainda mais que isso, e contrariando o sentido da própria palavra, a esperança é mais negativa do que se possa esperar. Pois a esperança não só é a última coisa a morrer, como nunca morre. Nunca morre porque é como se não existisse. A esperança é mais uma das muitas ideias criadas pelo espírito humano.

Considerada uma virtude, a esperança é apenas fomentada pelos sábios perante os ignorantes, que a revalorizam, pois a mesma é uma grande companheira dos ignorantes. Quando um indivíduo não tem meios de saber o que lhe vai acontecer, resta-lhe ter esperança. Tem esperança de que lhe aconteça o que deseja, ou que não aconteça o que não deseja. A esperança está sempre relacionada com um desejo futuro e só existe até ao momento em que se realiza o acontecimento que o causava.

A esperança é usada pelos conhecedores para dominar os ignorantes, e é usada pelos ignorantes para continuar a acreditar numa causa sem garantias, que pode ser perdida. É uma atenuante da derrota. Se soubéssemos tudo não existiria esperança, pois a esperança nasceu da ignorância.

A esperança é sempre chamada perante a suposição, a incerteza, e a dúvida. O seu valor é irrelevante porque o facto de termos esperança em alguma coisa, essa esperança de nada serve para concretizar essa coisa. A esperança começa quando começa a dúvida sobre alguma coisa e termina quando se esclarece essa dúvida. Só existe no estado de dúvida.

Só tem esperança quem tem dúvidas, e todo o ser humano tem dúvidas, sejam elas concretas ou existenciais. Quanto mais dúvidas tiver, maior é a esperança. Enquanto há vida há esperança porque enquanto há vida existem dúvidas e incertezas. Só condenados à morte ou incuravelmente doentes temos vida sem esperança, porque temos vida sem dúvidas.

A esperança produz um efeito psicológico semelhante à felicidade — como que uma felicidade falsa. Se uma pessoa acredita plena e convictamente numa coisa que não existe, essa coisa passa a existir para essa pessoa, porque a desejava muito, mas só existe psicologicamente. E essa existência psicológica provoca efeitos reais, e agradáveis porque é uma coisa desejada. Da mesma forma a esperança, que não existe realmente, provoca efeitos reais.

Mas a esperança só existe perante as dúvidas do que é desejado. Só esperamos o que não temos, mas desejamos. E a esperança é um meio de atenuar esse desejo que nos invade, dando-nos uma satisfação prévia face à resolução do desejo. Mas é um meio falso, que aquando do esclarecimento da dúvida, no acto da ocorrência ou na previsão correcta do mesmo, pode ser a confirmação do facto que deu origem ao desejo, mas também pode ser a sua eliminação. E quanto maior for a esperança — o sentimento que durante algum tempo deu alguma felicidade — mais se transforma numa explosão de alegria ou num tremendo desgosto.

Se desejamos uma coisa, temos esperança que a mesma se concretize da mesma forma que não desejando uma coisa temos medo da sua concretização. Quanto mais fortes forem os sentimentos — esperança e medo — maiores serão as emoções — alegria ou tristeza — desencadeadas pelos acontecimentos.

A esperança apenas é um manto suave que cobre alguma coisa que esperamos ser boa, ou agradável. Esse manto dá-nos alguma felicidade. Mas não sabemos o que se encontra por baixo do mesmo e como às vezes temos medo de saber se a verdade que está debaixo do manto é má para nós, então preferimos manter o manto e ter alguma felicidade – falsa — em vez de sermos infelizes com a realidade. Preferimos a esperança de uma coisa boa à verdade de uma coisa má.

Pela mesma razão, muitas pessoas vivem desconhecendo a realidade durante toda a vida, mas vivem felizes devido a elevadas doses de esperança, preferindo uma mentira boa a uma verdade má.

A religião, a política, e muitas outras ideologias representadas em instituições com poder, conhecedoras do que está debaixo do manto, conhecedoras da verdade, são as primeiras a defender que o manto não deve ser retirado, para que os outros, os ignorantes, pensem que a verdade é o próprio manto, permanecendo as primeiras sempre dominantes.

E assim quase todo o mundo vive com uma felicidade suspensa, edificada sobre um manto falso chamado esperança, que muitas vezes se rasga, mas nunca se abre o suficiente para esclarecer a verdade, porque a força dos que seguram o manto é superior à força dos que nele vivem. E a esperança de muitos é a realidade de alguns. E será sempre assim enquanto os ignorantes se contentarem apenas com a felicidade dada pela esperança.

A esperança é a ultima coisa a morrer, porque enquanto houver ignorância há esperança, e enquanto houver vida, há ignorância.

 

 

 


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Sábado, 20 de Outubro de 2007

Espaço

ESPAÇO

 

 

O espaço é a distância que vai de um ponto de referência a outro. Pode ser objectivo e concreto se as referências forem medíveis pelas leis da matemática, geometria ou física; pode ser abstracto e subjectivo se não existirem referências concretas; pode ser temporal se as referências existirem no tempo; e pode ser tudo o que está para além da atmosfera no sentido em que se entende por espaço toda a existência entre os corpos celestes.

O espaço em si não existe. Só existe espaço quando existem referências. Ninguém pode conhecer qualquer medida ou qualquer quantidade de espaço sem conhecer os pontos que o limita.

O espaço existe tendo em conta principalmente as unidades geométricas e unidades de tempo para o medir. As unidades geométricas servem para medir quantidades de matéria. Tudo o que é material pode-se medir porque tudo o que é material ocupa espaço. A energia não ocupa espaço porque não é material e não pode ser medida por unidades geométricas. O espaço existente entre dois valores matemáticos ou estatísticos é imaginário, não existe realmente. O espaço real só existe considerando a matéria — e o tempo.

A cronologia do tempo refere várias unidades em relação ao passado, ao presente e ao futuro, tendo por base os movimentos terrestres de rotação e translação, e os anos-luz (distância que a luz percorre durante um ano). Sem movimentos siderais rítmicos, constantes e observáveis, para se tornarem previsíveis, não seria possível medir o tempo. Assim, também o tempo exige uma base material para ser medido.

O espaço sempre existiu no mundo científico, especialmente correlacionado com o tempo. Um espaço de tempo é a distância que vai de um momento a outro. Os acontecimentos são as referências. Nas o espaço, por ser tudo e nada ao mesmo tempo, sempre originou curiosidade científica e de ficção. O céu que todos os dias podemos observar é de uma dimensão inalcançável, e leva-nos ao imaginário, também fundamentado em teorias científicas.

Por exemplo: imaginemos um circuito automóvel, com 100 kms de comprimento; e imaginemos que possuímos um automóvel que viaja a 100 kms/hora desde que parte até à meta. Percorremos o circuito demorando uma hora. Mas, se aumentarmos a velocidade para 200 kms/hora, já só demoramos 30 minutos. E se aumentarmos para 400 kms/hora, só demoramos 15 minutos. E se aumentássemos para 800 Kms/hora, só demoraríamos 7,5 minutos. Aumentamos a velocidade de 100 para 800 kms/hora e reduzimos o tempo de 60 para 7,5 minutos. Se fosse possível aumentar sempre a velocidade até atingirmos a velocidade instantânea que é a velocidade da luz (300,000 Kms por segundo aprox.), chegaríamos à meta no mesmo momento da partida.

Uma conversa por telefone entre Londres e Tóquio existe em tempo real. A voz viaja milhares de kms imediatamente.  Se ultrapassássemos essa velocidade no nosso circuito, chegaríamos à meta antes de termos partido. É a teoria das viagens no tempo, tão famosa na literatura de ficção científica e no cinema. E como o progresso cada vez nos mostra que viajamos mais velozmente, leva-nos a acreditar que um dia essa teoria seja realidade.

Mas é impossível. O passado não volta e o futuro ainda não chegou. Só existe o presente, neste espaço e neste tempo. Se nós um dia conseguíssemos viajar no tempo, seria porque o passado, presente e futuro existiam em simultâneo, e se existissem, poderíamos questionar qual a razão dos humanos do futuro ainda não nos terem visitado para corrigirem os nossos erros — simplesmente porque não existem.

Nós somos únicos e existimos num tempo e num espaço únicos.

 

 

 


publicado por sl às 02:21
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Sábado, 13 de Outubro de 2007

Escrita

ESCRITA

 

 

A escrita é um conjunto de símbolos criados pelo homem que permite a transmissão de ideias sem contacto físico natural entre o emissor e o receptor. Essa característica possibilita a transmissão de ideias em espaço e tempo relativamente ilimitados. Através da escrita é possível enviar mensagens de um ponto para qualquer outro do planeta, ou do espaço, onde se encontre um homem, como também enviar e receber mensagens no tempo. Pode-se receber uma mensagem que foi escrita há milhares de anos, como escrever uma que pode ser lida só daqui a milhares de anos. A escrita aumenta a capacidade humana de comunicação de tal forma que torna o homem num ser extraordinariamente diferente e superior. Será assim a maior invenção ou o grande passo para a sobrevalorização do homem perante todos os outros seres e perante todo o universo que o rodeia.

A criação da escrita, como tudo o que o ser humano criou — tudo o que é artificial e/ou que não nasce naturalmente — é uma criação lenta, progressiva e demorada. Uma criação que começou do nada há milhares de anos e que foi evoluindo a par de todas as outras vertentes evolucionistas humanas, influenciando e sendo influenciada por elas, até à actualidade conhecida, e com caminho livre para continuar a evolução cada vez mais rápida e complexa.

A escrita nasceu de outra grande criação humana, a linguagem — a principal distinção entre os humanos e os outros animais. A linguagem é um conjunto de sons produzido pelo aparelho vocal humano que significa uma coisa ou uma ideia. A escrita é um conjunto de sinais gravados ou impressos numa superfície material visível que significa um conjunto de sons reproduzíveis pela voz, que por sua vez significam uma coisa ou uma ideia.

A origem da escrita está na observação que o homem efectuou de tudo o que o rodeava, criando sons que significassem cada coisa observada, e posteriormente criando símbolos que significassem cada um desses sons.

A invenção da escrita deve-se à necessidade de não perder informação útil e de perpetuar ideias importantes, funcionando como uma ajuda preciosa à limitada memória humana. A memória humana não tem capacidade para registar toda a informação recebida de forma a poder utilizá-la útil e conscientemente numa vida em sociedade. Houve então a necessidade de recorrer a ajudas de memória do exterior. Com as mãos gravam-se símbolos que mais tarde ao serem percepcionados fazem recordar algum acontecimento do passado. Assim nasceu a escrita.

A escrita começou por ser um conjunto de poucos símbolos grosseiros, e cada um com um vasto significado. Nos primeiros tempos, a sua evolução aconteceu no sentido de esmiuçar esses símbolos. Cada civilização criou a sua linguagem e posteriormente a sua escrita — os seus símbolos. No decurso da história, civilizações houveram que se perderam, e com elas as suas escritas. Actualmente existem várias civilizações, com diferentes escritas — note-se a total diferença existente nos símbolos actuais das escritas chinesas, árabes, e latinas. Cada escrita nasceu e evoluiu conforme a civilização que a originou. Dos símbolos que significavam ideias, evoluiu-se no sentido de cada símbolo representar uma sílaba, e posteriormente, com a invenção do alfabeto, cada símbolo representa um som produzido pelo aparelho vocal, que apenas tem significado quando aliado a outros símbolos para formar uma palavra, ou em separado no contexto de uma frase. Esta desconjunção dos símbolos grosseiros que permitiu a criação de novos símbolos elementares, possibilitou a reunião desses novos símbolos com eles próprios e com outros, de uma forma multiplicativa e de organização de frases interminável. Se apenas possuíssemos um símbolo para cada objecto apenas poderíamos representar tudo o que é concreto, mas não poderíamos representar os verbos, os adjectivos, as ideias, os pensamentos, e toda a semântica.

A escrita alfabética permite uma criação interminável de significados. A criação de ideias está correlacionada com a criação material. Quanto mais complexas forem as ideias mais complexas podem ser as criações materiais e vice-versa. A evolução torna-se mais eloquente. Também por essa razão, as civilizações de origem latina, com linguagens e escritas de origem latina, se desenvolveram ao ponto de tomar a dianteira no progresso humano.

A escrita nasceu da linguagem oral, mas a evolução das duas foi simultânea devido à dependência recíproca — a linguagem escrita e oral conduzem à mesma ideia. A linguagem latina, que recebeu grandes influências da antiga linguagem grega, acabou por se dispersar por todos os países originados do antigo império romano. A escrita latina originou as escritas dos países da velha Europa, que na época da expansão, das descobertas, das conquistas e dos achamentos as espalharam por quase todo o mundo. Actualmente com o progresso tecnológico, nomeadamente no campo da informação e da informática, a escrita inglesa começa a globalizar-se. Não sabemos, no entanto o que o futuro nos reserva, mas possivelmente, a chamada aldeia global tenderá ao uso prático de uma só linguagem e uma só escrita, compreendida por todos os seres humanos, que poderá ser uma nova criação originada das actuais (o esperanto, por exemplo), ou a supremacia natural de uma linguagem existente (o inglês segue essa tendência). E as actuais mais de duas mil línguas faladas e muitas delas escritas das mais diversas formas poderão ser extintas e passar ao esquecimento ou ao uso como línguas mortas, como acontece actualmente com o latim.

A escrita foi fundamental na evolução humana porque permitiu que informação do passado fosse recebida no futuro através da leitura de registos e documentos que possibilitaram a compreensão de acontecimentos passados, longinquamente, sem a presença “in loco” dos sujeitos vivos. Permitiu também que informação de um lugar viajasse para outro mais rapidamente, possibilitando a resolução de problemas sem a deslocação e presença real dos intervenientes. E permitiu através da difusão em série de periódicos, a possibilidade da criação da opinião pública, que culminou na democratização/liberalização da civilização, na alfabetização e na criação de direitos humanos protegidos.

A escrita em si é uma coisa artificial, incipiente e inerte. Só é possível em sociedade e só é necessária quando se pretende que uma ideia passe ao esquecimento com a possibilidade de ser reavivada de novo. A linguagem escrita funciona como qualquer outra forma de linguagem, necessita de um emissor, de um receptor e de um canal de transferência. O emissor é o escritor, o receptor é o leitor, e o canal de transferência é o suporte da escrita —  o papel, por exemplo —  a mensagem e o código são a escrita, com a diferença de que o código fica-se pela escrita e a mensagem passa da mente do emissor para a do receptor.

Qualquer escrita nada significa a partir do momento em que acabou de ser escrita. O valor da escrita apenas é o valor dado por quem escreve no momento que escreve e o valor dado pelo leitor no momento da leitura. Entre o momento da escrita e o momento da leitura os símbolos existentes nada significam. Para a escrita ter significado, é necessário que o escritor e o leitor compreendam a mesma linguagem — os mesmos símbolos, as mesmas letras, as mesmas palavras, e os mesmos significados. — Um português que só compreende a linguagem escrita portuguesa nunca compreenderá os significados dos símbolos da escrita chinesa porque são muito diferentes; o mesmo português também não compreenderá os significados da escrita inglesa apesar dos símbolos serem iguais; e se o português é analfabeto nem os significados da escrita portuguesa compreenderá. A compreensão da escrita exige o conhecimento dos símbolos – léxico — o conhecimento da organização dos símbolos – sintaxe — e o conhecimento do significado da organização dos símbolos — semântica. Estas letras nada significam para quem nunca aprendeu o que cada uma e a sua junção organizada significam. Para saber ler e escrever é necessário que haja um código linguístico criado pela sociedade e suficientemente consistente, englobando regras gramaticais que sejam aceites, compreendidas e ensinadas durante várias gerações.

A escrita não é uma necessidade vital, não é uma função natural da vida. Não é hereditária e não é perene. Está constantemente em mutação e é permanentemente ensinada pelos mais velhos e aprendida pelos mais novos. A sua constante mutação depende da criação de vocábulos novos na sociedade, resultantes de novos pontos de vista da realidade ou de novas realidades.

No passado, a escrita foi inventada por pessoas que viviam em círculos de elite, privilegiados por terem todas as suas necessidades satisfeitas por outros, podendo dar-se aos prazeres da retórica, da arte e da ciência. Durante muitos milhares de anos só esses poucos tinham acesso à leitura e ao conhecimento, mantendo-se a grande maioria na ignorância, na guerra e na luta pela sobrevivência. Mas a natureza tem evoluções que a própria razão desconhece. A recente, e relativamente brusca, expansão da alfabetização, transformou totalmente o mundo. A escrita transformou-se num valor enigmático. Criaram-se dicionários e enciclopédias, criaram-se leis e códigos, criaram-se regras e estatutos, criaram-se marcas, nomes e números — toda a vida se retratou pela escrita. E se por um lado ainda é elevada a percentagem de analfabetismo, por outro lado todos fazemos parte de algum suporte escrito.

A escrita valorizou-se de tal forma que toda a existência só é considerada quando traduzida e provada pela própria escrita. A linguagem escrita tornou-se determinante na vida. Por ela tudo se regista, tudo se traduz, tudo se compreende e tudo se ensina, porque a sua abstracção simbólica evoluída permite a teorização de tudo o que existe, e das mais diversas fórmulas: científica, matemática, literária, lírica, narrativa, descritiva, poética, dramática, cuidada, popular e pessoal.

Além da sua indubitável utilidade como suporte de ajuda da memória pessoal e colectiva, em agendas, diários, arquivos e bibliotecas, que possibilitam um elevado alargamento das nossas capacidades intelectuais naturais; e da sua indubitável utilidade como meio de envio de mensagens de grande alcance e conteúdo e de baixo custo, primeiro por mensageiros e correios postais, e actualmente por meios informatizados e em tempo real; e ainda da sua indubitável utilidade como meio de difusão pública de informação útil e necessária, lúdica e de opinião, nos meios de comunicação social, livros, anuários e catálogos; a escrita foi também a grande base impulsionadora das criações intelectuais, quer a nível científico quer a nível erudito. Só devido à escrita foi possível fazerem-se grandes descobertas e darem-se grandes passos na evolução científica, e só devido à escrita foi possível criarem-se grandes obras literárias e artísticas que transformaram culturalmente o mundo.

A escrita só é possível pela aprendizagem, cada vez mais não só da língua materna, mas também de estrangeiras, devido à globalização da sociedade. A aprendizagem só é possível com estabilidade social, política e económica. A estabilidade depende de diversos factores, que podem ser imprevistos e incontroláveis.

Actualmente é impossível viver num mundo civilizado sem saber escrever nem ler. Mas também de nada serve saber escrever e ler quando não há paz, segurança, saúde e alimentos.

Escrever é pensar devagar. É exteriorizar os pensamentos. É poder ver o que se pensa. É poder pensar no que se pensa. É poder corrigir o que se pensa mal. É crescer. Escrever é também registar a imaginação. É criar a partir do nada. Tudo o que é escrito pode ser útil e benéfico. Pode ser simplesmente aprazível. E pode ser até inútil e maléfico. Porque o acto de escrever é o acto mais livre e mais individual que há. Tudo pode ser escrito, e uma vez escrito, tudo pode ser lido —  esta é a finalidade da escrita. Mas nem tudo o que é lido é agradável e aceitável. Tudo o que se escreve pode-se perder para sempre, mas se não se perder, e se for lido, pode provocar reacções evolutivas exponenciais incontroláveis, que podem ser glorificadoras ou aterradoras,

A escrita também é uma arma, e como todas as armas, dá poder — mas também mata.

 

 

 

 

 


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Sábado, 6 de Outubro de 2007

Equilíbrio

EQUILÍBRIO

 

 

O equilíbrio é uma das principais bases da vida. Tudo na vida necessita de equilíbrio. O equilíbrio representa também a harmonia e a justiça. Repare-se na balança como símbolo da justiça. Tudo está bem quando está equilibrado e tudo está mal quando há desequilíbrio.

A existência de equilíbrio — ou desequilíbrio — implica a existência de, pelo menos, duas forças opostas. Não podemos falar de equilíbrio de um só elemento simples. Poderíamos sim, falar de forças opostas que compõem um elemento para lhe darem equilíbrio.

A vida, em todas as vertentes de que é composta e mais que pudéssemos imaginar, desde a parte mais divisível do átomo até ao imensurável universo, ou artificialmente, desde a natureza à maior criação do homem, seja ela tecnológica, artística, ideológica, religiosa, ou etc; tem sempre uma coisa e o seu oposto. E cada coisa é o complemento do seu oposto. O bem é o oposto do mal, mas um só existe porque existe o outro. A existência de uma coisa implica a existência do seu oposto. A própria existência só é considerada tendo em conta a inexistência, que é o seu oposto. O oposto de qualquer coisa é o complemento dessa coisa, e juntos formam um ciclo que vai desde os extremos à união, ou equilíbrio.

Mas o equilíbrio existe na vida não só numa coisa e no seu oposto — apenas duas forças, como base explicativa simplificada — mas essencialmente numa enorme complexidade de forças opostas e complementares. O equilíbrio existe também tendo em conta a relatividade das forças. Os opostos são os extremos que se tentam impor, mas a unidade deles é o equilíbrio que o não permite, assim, existe também equilíbrio entre o equilíbrio e a falta dele.

Vamos considerar como exemplo explicativo, a temperatura: a temperatura é composta de duas forças opostas que se complementam —  o calor e a falta dele, ou o frio e a falta dele, ou apenas o calor e o frio. Uma força implica a existência da outra. São forças opostas — onde está calor não pode estar frio e onde está frio não pode estar calor — que nos extremos são inconvenientes — muito calor ou só calor e muito frio ou só frio são inconcebíveis — e que se complementam — a mistura de calor com frio cria a temperatura ideal, agradável, necessária ou aconselhável.

Mas o equilíbrio da temperatura só é avaliado por estas duas forças se quisermos falar só e abstractamente de temperatura. Pois a complexidade do equilíbrio aumenta quando aumentam as condicionantes. Por exemplo, a temperatura — calor e frio — sempre existiu, anteriormente ao homem, foi o homem que lhe atribuiu a medida, e só o pode fazer criando outra forma de equilíbrio/oposição com a água: com zero graus, a água solidifica e aos cem graus evapora. O equilíbrio entre a temperatura e qualquer coisa só se pode considerar tendo em conta a relação entre a temperatura e essa coisa, existindo sempre um balanceamento entre as duas partes. O equilíbrio entre a temperatura e o ambiente é cerca de 18 graus centígrados; entre a temperatura e o corpo humano é cerca de 37 graus. Aqui apenas temos duas condicionantes ou duas forças ou duas variáveis, mas se considerarmos o fogo, por exemplo, já é necessária uma terceira força que vai condicionar o equilíbrio: calor (temperatura), oxigénio e combustível. Se o combustível for gasóleo e existindo oxigénio, só se alcança o fogo a uma temperatura de 70 graus; com petróleo alcança-se apenas com 38 graus; com álcool etílico bastam 13 graus; e com gasolina, mesmo a 40 graus negativos conseguimos o fogo. Diferentes combustíveis exigem diferentes temperaturas para com o mesmo oxigénio conseguirmos o mesmo efeito, o fogo.

O equilíbrio existe sempre na relação dos opostos. Os opostos são as partes que compõem a unidade, num mínimo de duas e sem limite máximo — o planeta Terra é uma unidade composta por infinitas partes em equilíbrio umas com as outras.

A água é um elemento natural, quimicamente composto, e só existe devido ao equilíbrio entre as partes que a compõem — duas partes de hidrogénio para uma de oxigénio. Se tivermos hidrogénio e oxigénio sem estarem combinados na medida certa para formarem a água, nunca obteremos água. Por seu lado, o hidrogénio e o oxigénio são elementos químicos simples, mas que precisam ter equilíbrio na sua própria estrutura atómica. Uma molécula de oxigénio é composta por dois átomos — se este se condensar e a molécula passar a ter três átomos de oxigénio, passa a ser ozono. Desde o elemento mais simples da natureza, à fórmula mais complicada, tudo tem que estar em equilíbrio consigo próprio e com tudo o que o rodeia.

Este princípio, apesar dos exemplos citados serem apenas físicos e químicos, aplica-se também ao homem em todo o seu ser.

Fisicamente, a anorexia e a bulimia são extremos doentios que causam outras doenças por desequilíbrios alimentares. A falta ou excesso de sono, de trabalho e de estudo, são exemplos de desequilíbrios que o corpo sente e alerta quando se atingem os limites. Alerta pela doença, e a pessoa é obrigada a parar. Se não parar, o equilíbrio pode tornar-se demasiado e a pessoa morre. A lei natural do equilíbrio é peremptória.

Psicologicamente, pela falta de ideais, de projectos, de actividade criativa e recreativa, ou pelo excesso de responsabilidade, de desgostos, e por toda a espécie de distúrbios psicológicos e emocionais.

Socialmente, também os desequilíbrios causam mal-estar pela pobreza, desemprego, falta de habitação, e outras necessidades elementares, ou pelo excesso de trânsito, poluição, alcoolismo e droga.

Politicamente, tem que haver equilíbrio entre os governantes e os governados, entre o poder e a oposição, entre os vários estados e entre os vários regimes. E também a história é vasta em exemplos de batalhas sangrentas devido a desequilíbrios políticos.

E, economicamente, existem os equilíbrios dos mercados, a relação de compra e venda, o valor do dinheiro e dos produtos pelo qual são trocados, a relação ganho-perda, as mais e as menos-valias, os empréstimos, os créditos, as taxas de juro, os câmbios, os índices bolsistas, as remunerações, a inflação, o poder de compra, os impostos, tudo se relaciona dentro do mais possível equilíbrio para evitar falências e enriquecimentos desmedidos.

O equilíbrio é o ideal para a vida humana e da natureza, no entanto existe em correlação com outras realidades também humanas e também naturais. Entre elas a ambição e o desejo do poder por parte do homem e a lei do mais forte por parte da natureza. Estas realidades, sempre presentes naturalmente na vida conhecida, são por um lado causa de fortes desequilíbrios, gerando as maiores guerras — sociais, políticas, económicas, militares e mesmo religiosas, raciais ou tribais — das quais nascem os maiores desequilíbrios globais, principalmente entre ricos e pobres, civilizados e terceiro-mundistas. Mas por outro lado são também motivo de crescimento civilizacional, tecnológico, científico e cultural.

Pode-se concluir que também neste aspecto há equilíbrio, tendo presente que a necessidade de construção e uso de poderosas armas foi causa de grandes descobertas médico-científicas.

Os ricos e os pobres são as duas faces da mesma moeda. Como o são o bem e o mal, o amor e o ódio, o alto e o baixo, o dentro e o fora, o forte e o frágil, o masculino e o feminino, o direito e o esquerdo, o certo e o errado, o simples e o complexo, o prazer e a dor, a realidade e a imaginação, a verdade e a mentira, o tudo e o nada, o principio e o fim, o equilíbrio e o desequilíbrio — tudo existe em relação a outra coisa e numa relação de forças. O equilíbrio entre as duas partes, ou todas as partes, será o ideal.

Sempre que algo está mal, essa anomalia deve-se a um desequilíbrio entre duas forças, que podem ser desmultiplicadas devido às possíveis diversas variáveis. Deve-se identificar qual o elemento que provoca o desequilíbrio, e o erro corrige-se aumentando a força do elemento oposto. Mas apenas podemos fazer correcções nas pequenas coisas pessoais. Ao nível global será sempre a lei da maioria, da qual nós podemos fazer parte.

E a lei do mais forte é relativa. Um homem só nada vale contra um milhão de outros homens, mas se possui uma bomba atómica!...

 


publicado por sl às 11:46
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