Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Fama

FAMA

 

 

A fama é o conhecimento que os outros têm de nós.

Todos vivemos em sociedade e vivemos numa sociedade consciente porque somos civilizados e sabemos que existimos entre outros. Todos temos relacionamentos sócio-culturais com outros, na família, na escola, no trabalho, na igreja, no desporto, na rua, nos transportes, nas festas e em todos os lugares públicos que todos podem frequentar ou em todos os lugares particulares frequentados por alguns.

Temos ainda relacionamentos sociais sem contactos físicos quando dos nossos espaços reservados comunicamos com os outros pelos meios que a tecnologia nos permite — carta, telefone, fax e e-mail. Conhecem-se melhor duas pessoas que comunicam frequentemente por escrito ou telefone entre dois continentes e que nunca se encontraram, do que duas pessoas que se cruzam diariamente na mesma rua, mas que nunca se falaram.

Mas a fama vai mais além porque não exige que o conhecimento seja recíproco. Para uma pessoa ser famosa basta que os outros tenham conhecimento dela independentemente dela ter ou não conhecimento deles. Aliás, quanto maior for a fama menor será a reciprocidade, porque, quantas mais pessoas conhecerem uma, menor será a probabilidade desta conhecer as primeiras.

A fama pode ser boa ou má. É boa quando o motivo que tornou a pessoa famosa é socialmente útil, culturalmente enriquecedora e moralmente aceite, e é má quando acontece o oposto.

Pode também ser voluntária ou involuntária. É voluntária quando é a própria pessoa que conscientemente deseja ser conhecida e age no sentido de se dar a conhecer. E é involuntária quando a autoria de algo invulgar, ou acontecimento particular, desencadeia uma acção de divulgação que ninguém consegue controlar.

A fama, como tudo na vida, tem vantagens e desvantagens. O reconhecimento público de alguém é motivo de orgulho, honra e glória e até auto-realização e poder, se esse alguém goza de boa fama. Mas poderá ser o oposto se goza de má fama. No entanto, na fama, estão sempre em jogo os critérios dos valores das pessoas famosas contra os das pessoas que lhes atribuíram a fama. A fama pode ter uma evolução progressiva, brusca ou até póstuma, mas sempre que acontece com pessoas vivas, limita-lhes a liberdade individual por se tornarem figuras públicas. Uma pessoa famosa pode por um lado fazer mais o que quer porque tem poder, mas por outro não pode fazer tanto o que quer porque está permanentemente a ser observada. A fama projecta-nos na sociedade, mas limita-nos a liberdade.

Os meios de comunicação social, cada vez mais influentes, são os principais geradores de fama, por transformarem públicos os aspectos particulares das pessoas.

Como o excesso de fama seria a falta de individualidade, e o excesso de individualidade seria a falta de contactos sociais, e como todos necessitamos simultaneamente de individualidade e de sociabilidade, cada um terá que encontrar a dose certa de cada parte para ter a fama que deseja, não esquecendo que a vida não é só o que nós queremos, mas também o que os outros querem, e o que a natureza permite.

 

 

 

 


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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Espírito

 

 

 

ESPÍRITO

 

 

O espírito é uma das características humanas que mais acentua a diferença existente entre o ser humano e os outros seres vivos. O espírito humano identifica-se também como “alma” — sinónimo religioso — e como “psique” — sinónimo derivado do grego que acabou por ser adoptado no mundo científico, pelas palavras “psíquico” e “psicológico”. O espírito é algo que se traduz pela alma da religião e pelo psíquico da ciência. A religião chama “alma” ao espírito e tem uma explicação consistente para essa concepção, da mesma forma que a ciência tem uma explicação para lhe chamar “entidade psicológica”.

O espírito é algo que existe no homem e apenas neste, e é nesse espírito que se encontra a grande superioridade humana. Mas não é ainda possível clarificar consensualmente o que é o espírito, pois a sua essência justifica esta impossibilidade, apesar de, no entanto, lhe serem atribuídas muitas caracterizações e definições.

O espírito é uma entidade abstracta incognoscível, excepto pelas suas manifestações e principalmente pelas teorizações dessas manifestações. Não há um acesso directo ao espírito, mas um acesso às suas manifestações. Não sendo uma entidade concreta, o espírito não se pode localizar espacialmente, mas por aproximação e idealização, imagina-se que o espírito possa estar “localizado” no cérebro humano sob uma forma imaterial.

As células cerebrais recebem permanentemente enormes quantidades de informação através dos sentidos e do interior do próprio corpo. Esta informação é registada na memória. A memória é composta por, calcula-se, cinco por cento de consciente e noventa e cinco por cento de inconsciente. No nosso quotidiano racional humano apenas funcionamos com o consciente, pois somos seres racionais. Mas se nós quisermos deixar de ser racionais e conscientes — embriagando-nos, tomando alucinogénios, medicamentos não receitados ou produtos tóxicos, trabalhando ou praticando exercício físico excessivamente, abstendo-nos de alimentos ou de dormir, etc; etc. — ou se por acidente ou doença, deixarmos de ser racionais e conscientes involuntariamente, ou por outras palavras, se o nosso corpo for privado das suas necessidades vitais, ou se receber ou expelir qualquer coisa em excesso ou em defeito, em relação àquilo para que está naturalmente preparado, entra em desequilíbrio, e o cérebro, como órgão corporal físico que também é, entra também em desequilíbrio. Este desequilíbrio no cérebro baralha a memória e transforma o ser humano racional e consciente em irracional e inconsciente. A perda parcial ou total de consciência deixa livre o caminho para o inconsciente que é inconfundivelmente maior e quase todo desconhecido. É quase todo desconhecido porque a maior parte das coisas que o nosso cérebro regista na memória não chega a passar pela consciência. Por exemplo, conscientemente este texto está a ser lido, mas inconscientemente o cérebro está a registar o que o leitor sente sobre ele, se concorda ou não, se provoca prazer ou repugnância, as vezes que o leitor se enganou, que recuou ou repetiu, a cor do papel, a forma da letra, a luz que nele incide, todos os sons, movimentos e odores que os sentidos conseguem alcançar, as dores musculares, os movimentos oculares — uma lista interminável de coisas que ficam no cérebro inconscientemente. Então, quando o caminho está livre, nós podemos ter acesso a coisas ou manifestar coisas vindas do nosso cérebro, que nunca nos passariam pela cabeça conscientemente. São tudo coisas vindas do nosso inconsciente inconscientemente, pois só inconscientes temos acesso ao nosso inconsciente da mesma forma que só conscientes conseguimos raciocinar.

O espírito é tudo o que o cérebro contém consciente e inconscientemente. A ciência define o espírito a partir do consciente atribuindo-lhe todas as faculdades psicológicas e espirituais, como o racionalismo, a identidade, a personalidade, a mentalidade, os sonhos, os desejos, os medos, etc. A religião define o espírito a partir do inconsciente, considerando todas as manifestações do inconsciente como sendo das almas, dos mortos, dos anjos, do sobrenatural, do outro mundo, de Deus e da eternidade.

O espírito é tudo isto. Se enquanto dorme, o homem sonha eroticamente com a mulher, a ciência pela psicologia afirma que é o “id” a satisfazer um desejo que o “ego” não satisfaz porque o “superego” não permite. A religião, pelas suas doutrinas, afirma que é a tentação da carne, que simboliza o mal.

O espírito continua a ser um grande enigma para o homem, porque conscientemente apenas é o que a psicologia consegue teorizar. E inconscientemente apenas se manifesta em estados de consciência alterada, e sempre involuntária e imprevisivelmente, não se podendo estudar científica e racionalmente.

O espírito está no cérebro. O cérebro emite ondas eléctricas. As ondas cerebrais variam conforme o estado de espírito e conforme a actividade cerebral. Se o cérebro se alterar, a energia que dele pode ser libertada pode criar os mais imprevisíveis fenómenos.

Visões e fantasmas; movimentos, sons, odores e manifestações corporais absurdas; sonhos premonitórios; pesadelos; e etc; são manifestações do espírito vindas do inconsciente.

Inteligência, consciência, justiça, paz, ternura, respeito, amizade, civismo, liberdade, igualdade, fraternidade e etc; são manifestações do espírito vindas do consciente.

O nosso espírito crítico, aliado ao nosso espírito humano, saberão escolher qual a espiritualidade que mais nos convém e por ela guiarmos a nossa vida.

 

 




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Sábado, 30 de Junho de 2007

Conhecimento

CONHECIMENTO

 

 

Conhecimento é sabedoria, é inteligência, é erudição, é intelectualidade, é racionalidade, é experiência — é o conjunto de tudo isto, mas nada disto em particular.

O conhecimento apenas é acumulação de informação. Informação que pode ser útil ou não. Possuir grandes conhecimentos de assuntos que de nada servem é errado, é desperdício. É errada a célebre frase que afirma que “saber não ocupa lugar”. O saber ocupa lugar, e o lugar que possuímos para guardar o saber é limitado.

Possuir conhecimento de uma coisa é ter gravado na memória consciente essa coisa. [Eu sei que a bandeira portuguesa é verde e encarnada porque a recordo. A imagem da bandeira portuguesa está registada na minha memória consciente. Eu já vi as bandeiras de todos os países do mundo, e sei que todas as que vi estão registadas no meu inconsciente. Mas não as posso descrever todas. Apenas posso descrever as que recordo]. Assim, o conhecimento é apenas o que se recorda e do qual se pode falar conscientemente. E esta capacidade de recordar, de ter um acesso consciente à memória, é limitada, embora sejam indefiníveis os seus limites. Dependem da capacidade natural do cérebro.

A capacidade do cérebro, apesar de ser limitada quanto ao que é consciente, é de uma dimensão enormíssima, pois guarda tudo o que nos é útil, necessário e importante para o dia-a-dia, como a nossa identidade — psicológica e social — que se compõe de infinitas informações concretas (nomes, números, direcções, nºs de telefone, horários, programas, preços...) e de infinitas informações mais informais (linguagem, recordações, lembranças, desejos, sonhos, projectos, ideais...). Toda a nossa vida mental consciente está alicerçada em informação que nós manipulamos mentalmente. Essa manipulação consiste em relacionar uma imagem ou acto mental com a sua realidade concreta ou concretização real. Isso é conhecimento, real e consciente.

É este conhecimento consciente o mais importante na nossa vida. Pois é recorrendo ao passado e à memória que nós usamos o cérebro e a mente possibilitando a prática e a acção criando uma cadeia em continuidade. É também com a capacidade que nós temos de usar o conhecimento que temos acesso a mais conhecimento. Assim, o importante não é saber — até porque é impossível saber tudo — mas saber como saber o que é necessário em determinada situação. [É inútil eu saber, recordar e descrever todas as bandeiras do mundo, mas se por algum motivo eu tiver que as diferenciar, devo saber onde as posso encontrar para as descrever]. Repetindo, o importante não é saber, mas saber como saber.

O melhor conhecimento é o conhecimento consciente de chaves de acesso ao conhecimento inconsciente, individual ou colectivo. E esse conhecimento inconsciente é que é ilimitado. É que é tudo o que for a vida do homem. Tudo o que o homem quiser e não quiser.

Exceptuando as diferenças sócio-biológicas do cérebro e sendo ele conscientemente limitado, a explicação para que indivíduos em igualdade de circunstâncias possuam graus de conhecimentos diferentes encontra-se na forma como é usado o próprio consciente.

O consciente é usado de diferentes formas em cada indivíduo. Um indivíduo que sempre viveu no mundo rural, isolado da civilização e sem acesso à grande informação, tem o seu consciente ocupado apenas com o contexto do seu ambiente rural, não possuindo por motivos sociais conhecimentos mais abrangentes. Um forte adepto de futebol sabe conscientemente tudo sobre o futebol — história dos clubes, nomes dos intervenientes, etc. — mas como tem o seu consciente quase todo ocupado com o futebol não pode saber muito de outros assuntos — teria que esquecer o futebol — assim, por razões culturais, possui muitos conhecimentos de uma coisa, mas poucos de tudo. Um indivíduo que passe a maior parte do seu tempo em actividades monótonas e repetitivas, quer sejam de trabalho ou divertimento, ocupa o tempo sem nada aprender, preenchendo o seu consciente com futilidades e ainda que saiba tudo do trabalho ou do jogo possui pouco conhecimento geral.

Embora o mais importante na vida seja que cada um se sinta feliz independentemente da qualidade e quantidade de conhecimentos que possui, pode-se considerar que os exemplos citados referem cérebros subaproveitados. Mas se este subaproveitamento se considerar defeito, não é defeito inferior a um cérebro sobrecarregado, senão vejamos: imaginemos um indivíduo que possui muitos conhecimentos, estudou a vida inteira, passa os dias em bibliotecas, viajou muito, recebe informação de muitas fontes, conhece meio mundo e passou por inúmeras experiências.

Este indivíduo pode-se caracterizar de três formas: por um lado não pode ter estes conhecimentos todos presentes conscientemente. A maior parte deles — a grande parte mesmo — fazem parte do seu inconsciente, e só é verdadeiramente conhecedor se guardar conscientemente apenas as chaves de acesso ao enorme inconsciente. Não sabe uma coisa, mas sabe onde a encontra. E os livros ou os registos dos imensos meios de “gravação” que actualmente existem permitem ter acesso a uma quantidade infinita de informação. Só assim se tem verdadeiro conhecimento, pois de nada servem as coisas que já esqueceram e não podem ser recuperadas da memória.

Por outro lado, este indivíduo se não souber organizar a forma de guardar todo este conhecimento, mais facilmente tem perturbações mentais. Como a memória consciente é limitada, não podemos saber mais que aquilo que o cérebro permite, e como não sabemos os limites, podemos introduzir dados em excesso podendo estes provocar uma espécie de engarrafamento, de desorganização mental. Recorde-se que o próprio raciocínio é apenas uma “manipulação” mental de dados, se os dados forem excessivos, complexos ou indecifráveis, o cérebro bloqueia.

E por fim, de nada serve ser possuidor de um vasto conhecimento se em nada é usado na vida. O verdadeiro valor do conhecimento está na sua utilidade. O ideal, ainda que utópico, seria conhecer tudo o que fosse necessário conhecer, quaisquer que fossem as razões.

O conhecimento pode ser alterado e perturbado por acidentes, doenças, drogas ou medicamentos, que afectem o cérebro onde se aloja toda a memória, consciente e inconsciente, podendo o inconsciente manifestar-se de formas anormais — alterações de personalidade, amnésias, etc. E sabendo que o conhecimento útil é consciente e racional, pode ser também afectado por razões emocionais e afectivas. Pois quando uma pessoa está sentimentalmente ferida, o cérebro está demasiado ocupado com esse sofrimento e não tem capacidade para pensar. Este bloqueamento provocado pelos sentimentos pode levar aos mesmos problemas.

O conhecimento pode-se entender de quatro formas: individual consciente — aquilo que determinada pessoa sabe; individual inconsciente — aquilo que determinada pessoa soube, mas já esqueceu e aquilo que sabe sem saber que sabe, sabe inconscientemente; colectivo consciente — aquilo que todos sabem; colectivo inconsciente — aquilo de que ninguém se recorda, mas que pode estar ainda na memória de alguém, ou pode estar na natureza, nos museus e nas bibliotecas. Note-se que o inconsciente é composto não só de tudo o que já existiu conscientemente, mas também de tudo o que existe e ao qual ainda ninguém conscientemente teve acesso — a gravidade já existia antes de Newton formular as suas leis.

O conhecimento é apenas acumulação de informação. O importante é acumular informação que nos permita usar o próprio conhecimento.

 

 

 

 


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Domingo, 3 de Junho de 2007

Ciência

CIÊNCIA

 

 

“Conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios certos” — esta frase, adaptada, define o muito e o pouco que a ciência é.

Princípios certos são as manifestações que existem na natureza de forma abundante, repetitiva ou constante, que permitem ao homem a sua observação, registo, catalogação e outras formas de obtenção de dados que possibilitam o conhecimento de resultados de qualquer acção antes da sua existência real.

Para uma coisa existir cientificamente, essa coisa tem que ser observada várias vezes por várias pessoas capazes de a estudar exaustivamente para obterem o maior número de dados possíveis sobre todas as suas características, e por fim chegarem a um consenso sobre a sua realidade e a classificarem sobre todos os aspectos possíveis atribuindo-lhe um nome, e descrevendo todas as conclusões que a vão caracterizar como realidade existente cientificamente dai para o futuro.

A ciência nasceu na aurora da civilização humana, de uma forma instintiva e inconsciente, a par do nascimento da religião e do misticismo, pela constante observação da natureza, durante uma longa sequência de gerações que evoluiu até aos nossos dias.

O homem primitivo começou por observar a natureza e descobriu coisas maravilhosas. Descobriu que umas coisas são mais pesadas e outras são mais leves; descobriu que umas são mais altas e outras mais baixas; descobriu que se partir uma coisa, fica com duas ou mais; descobriu que se essa coisa for uniforme e a partir a meio fica com duas iguais e metade mais pequenas que a primeira — e para que não tivesse que transportar o tronco mais comprido, e logo mais pesado, quando bastava o tronco mais curto e mais leve, ou para não ter que transportar diversos troncos e ter que os colocar sobre o riacho, para escolher o ideal para colocar sobre o riacho que desejava atravessar, sentiu necessidade de medir o riacho para procurar o tronco com a medida exacta. A invenção da medida do riacho para depois comparar com a medida dos troncos encontrados, foi o grande passo científico, pois permitiu saber qual o tronco ideal antes de o colocar.

E assim nasceu a ciência. Estuda-se na natureza a possibilidade de inventar medidas sobre ela, e uma vez inventadas, usam-se essas medidas como guia para o futuro.

A ciência nasceu instintivamente pela observação de factos naturais testáveis e mensuráveis, a par da religião que nasceu instintivamente pela observação de todos os factos naturais, inclusivamente não testáveis e incomensuráveis. A evolução da ciência na forma de cada vez mais medir e testar a natureza, e logo de a compreender, tendeu para a contestação, oposição e até negação da própria religião, acabando actualmente por inverter essa tendência ao dedicar-se ao estudo científico da própria religião, numa tentativa de a “medir”, ou de medir o seu efeito no homem.

Iniciando-se a grande jornada científica no campo das ciências exactas — lógica, matemática, física, astronomia, geografia, biologia — evoluindo para as ciências aplicadas — tecnologia, engenharia, medicina — continuando a evolução no capo das ciências económicas, sociais e políticas — história, direito, sociologia — e cada vez mais no campo das ciências humanas — filosofia, psicologia — a ciência evoluiu em interdependência com a religião devido ao grande peso da religião no passado, cuja influência na pesquisa científica era sempre um facto, favorável ou desfavorável conforme a aceitação ou negação dos resultados, de acordo com os interesses da própria religião.

Tudo existe na natureza anteriormente ao homem. Todas as matérias, todos os movimentos e todas as energias já existiam quando o homem, com a sua inteligência, as começou a observar. A sua observação inteligente originou a possibilidade e a necessidade da criação de medidas. A possibilidade deve-se à constância de determinadas características — uma coisa com tamanho constante permite inventar medidas de comprimento (era impossível inventar o “metro” numa matéria elástica). Todas as medidas foram inventadas pelo homem devido à constância de determinadas características, de determinada matéria ou energia. A necessidade de criação de medidas deve-se ao facto de só com medidas ser possível comparar, para melhor escolher. Também só com medidas se pode teorizar uma coisa, para melhor a estudar e compreender. Além disso, sem medidas é impossível existir vida social e racional. As medidas são as referências pelas quais se orienta o homem civilizado: é impossível marcar um encontro sem uma data, uma hora, e sem um local; é impossível encomendar um artigo sem dizer qual; é impossível fazer uma obra sem projecto; é impossível fazer um telefonema sem marcar um número — todo o acto racional requer referências teóricas.

Qualquer medida é inventada por qualquer pessoa de forma a identificar qualquer coisa para que possa ser comparada consigo própria ou com outra. Uma medida uma vez obtida/inventada por alguém é dada ao conhecimento e consideração dos outros que a vão aceitar ou reprovar conforme a sua utilidade. Todas as medidas são inventadas por alguém e são aceites pela maioria para bem dessa maioria. Todas as medidas são aceites quando a sua organização é lógica, constante e infinita, ou completa e aplicável, sem deixar qualquer margem de dúvidas. E todas as medidas são valores elementares teóricos criados a partir da observação da natureza, com o objectivo de a racionalizar e compreender, para depois melhor a poder transformar e dominar.

A matemática e a álgebra são a base de toda a ciência, porque toda a ciência funciona com medidas e todas as medidas são representadas com números e letras. Os próprios números e letras não existem na natureza, foi o homem que os inventou, mas aplicam-se a tudo porque tudo o que o que a ciência envolve se traduz teoricamente por números e letras. E esta teorização é criada pelo homem a partir da natureza.

Todas as matérias, todas as energias, todas as formas geométricas, todas as cores, todos os sons, todas as radiações, todos os movimentos, todas as velocidades, todas as pressões, todas as densidades, e todas as forças electromagnéticas, gravitacionais, caloríficas, atómicas e nucleares, assim como as correlações existentes entre todas estas partes, já existiam na natureza antes do homem as descobrir, estudar, medir e classificar como medidas cientificamente existentes. E as medidas de comprimento, superfície, volume, massa, tempo, frequência, velocidade, aceleração, força, energia, potência, intensidade, resistência, temperatura, radiação, e etc; apenas foram os modelos inventados que possibilitaram essa classificação com realidades cientificamente provadas.

As medidas científicas partem de uma unidade padrão — grama, litro, watt, metro, hertz, bit, grau — e estendem-se em múltiplos e submúltiplos, multiplicando-se e desmultiplicando-se de mais infinito a menos infinito, abrangendo toda a realidade, cada uma no campo que mede. São generalizadas por imposição ou conveniência e de acordo com a maior perfeição na tradução da existência natural, para maior compreensão racional e científica — muitas sociedades do passado guiaram-se por calendários muito diferentes do actual calendário gregoriano, acabando este por se generalizar no mundo ocidental devido à sua maior perfeição em relação aos movimentos naturais de rotação e translação da terra. No entanto, se for descoberta/inventada outra forma de medir o tempo, ainda mais perfeita, esta se extinguirá. Acontece isto com todas as formas de medir a natureza, mas algumas são de tal forma lógicas, que são tidas como arquétipos — dois mais dois são quatro em todo o mundo, mas existem várias formas de linguagem, como várias formas de numeração e certamente várias formas de cálculo.

As descobertas científicas acontecem algumas vezes por mero acaso, e normalmente após aprofundados estudos. Cada nova descoberta é influenciada pelas anteriores e vai influenciar as posteriores, como que num ciclo evolutivo multiplicativo. A história da evolução científica relata-nos longos períodos no passado para a aceitação de uma nova verdade científica, tendo a grande maioria das descobertas acontecido nos séculos mais recentes. Actualmente, nos muitos laboratórios industriais e das universidades espalhadas por todo o mundo são permanentemente feitas novas descobertas científicas.

O conhecido método científico define como funciona a ciência. A formulação de questões só é possível quando temos dúvidas e quando nos interrogamos. A elaboração de hipóteses só é possível quando temos matéria para observarmos e nos dedicamos a isso. A verificação das hipóteses só é possível quando existem medidas previamente estabelecidas e aplicáveis, ou constância de características que permitem a criação de medidas novas ou ocasionais para que todas as variáveis conhecidas sejam controladas. E a obtenção de resultados e formulação de conclusões só é possível quando os três passos anteriores são concluídos de forma clara, inequívoca, indubitável e repetível.

Assim, sempre que não temos dúvidas e não nos interrogamos, sempre que não temos matéria para observar, sempre que não temos medidas nem as podemos criar, e sempre que as conclusões são obscuras, duvidosas, e não é possível repetir o estudo para que se possa replicar qualquer coisa, essa coisa não existe cientificamente.

E é aqui que encontramos os limites da ciência. Porque tudo o que foi provado cientificamente, já existia antes de o ser. E tudo o que existe e não está provado cientificamente, pode não existir realmente ou pode não existir até ser provado pela ciência. E todos sabemos que existem muitas coisas concretas que a ciência não explica: ainda não é possível prever exactamente o estado do tempo; ainda não é possível prever sismos: ainda não é possível conhecer o código genético completo de uma pessoa; ainda não se conhecem as verdadeiras causas da homossexualidade; ainda não se descobriram vacinas para o cancro e para a sida; ainda desconhecemos a finalidade dos sonhos; ainda sabemos pouco sobre o funcionamento e capacidade do cérebro humano; ainda não sabemos se existem extraterrestres; ainda não sabemos de onde vimos nem para onde vamos — isto são só alguns dos inúmeros exemplos que provam a nossa ignorância científica perante a vida.

Estes são exemplos que a ciência não clarifica, mas procura clarificar e admite a sua ignorância. No entanto existem outros que a ciência nega categoricamente, mas que são realidades absolutas para muitas pessoas, tais como as crenças populares e as superstições, as medicinas alternativas e os fenómenos parapsicológicos, as seitas religiosas e os rituais culturais, a fé e Deus.

Só o futuro dirá se a ciência se vai impor negando todas estas realidades e originando um mundo completamente compreensível e racionalizado, ou se todas estas realidades irão influenciar a ciência de forma a tornar possível a sua medição e aprovação científica. Só o futuro dirá se Deus vai deixar de existir ou se a ciência o vai provar cientificamente.

Provavelmente não acontecerá uma coisa nem outra. A evolução do conhecimento científico acaba por aceitar a teoria da relatividade e a física quântica, em que uma nova descoberta ou um novo dado pode influenciar toda a percepção do passado, deitando por terra as conceptualizações cientificamente testadas — repare-se que a nave espacial “Challenger” possuía a mais elevada tecnologia, e era testada pelos mais proficientes especialistas e, no entanto, tudo se perdeu. Por outro lado, cada vez mais nas universidades proliferam cursos relacionados com as ciências sociais, humanas e religiosas.

É que o homem é um ser natural e criou a ciência a partir da sua natureza. E por muito que entre em contradição negando parte de si mesmo, a verdade é que acaba por voltar à sua natureza. O homem é um todo e a ciência é apenas parte dele.

A honra, o orgulho, o respeito, a dor, o amor, a paixão, a alegria, a tristeza, o desejo, a ambição, a fama, a vaidade, o luto, a saudade, a vontade, a angustia, o medo, o ódio, a inveja, o desespero, a fé, e muitos outros sentimentos e valores humanos, não se podem medir numa escala objectiva científica e isso não os torna inexistentes. Da mesma forma que a altura, a raça, o sexo, a cor dos olhos, a forma dos cabelos, a estatura, o grupo sanguíneo, o código genético, o nome, a idade, o estado civil, a profissão, a religião, o número do cartão de identidade, o número fiscal, o número de eleitor, e muitos outros números e escalas objectivas de identificação provadas cientificamente, por si só, não chegam para concluir a existência real de um ser humano.

Tudo o que existe concreta e objectivamente, e cientificamente testado, é importante para o desenvolvimento humano, e para que o homem se compreenda a si próprio e tudo o que o rodeia. No entanto, por mais evoluída que esteja a ciência, o seu impacto no ser humano nunca será superior a metade da sua globalidade, porque o homem é uma unidade dualística, de corpo e alma, físico e espiritual.

E toda a criação científica, tecnológica e artificial, foi originada a partir da natureza, não ultrapassou os limites impostos pela natureza, e apenas criou condições de adaptabilidade, segurança, bem-estar, prazer e relativo domínio do homem em relação à própria natureza, mas nunca eliminando ou substituindo princípios naturais básicos para a sobrevivência humana, como as necessidades biológicas.

A ciência apenas permitiu ao homem que se distanciasse dos outros animais possibilitando-lhe uma vida com autoconhecimento, autocontrolo e dignidade. É sempre uma possibilidade — mas nem sempre uma realidade.

 

 

 

 


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