Domingo, 8 de Novembro de 2009

Liberdade

LIBERDADE

 

 

 

Espaço dentro do qual nos movimentamos regulados por opções pessoais, voluntárias e conscientes.

A liberdade é uma produção da consciência humana — um animal pode estar livre ou em cativeiro mas não sabe disso, e pode expressar sinais que nós consideramos de satisfação ou de depressão, mas apenas são reacções naturais dele. É produção da consciência porque só conscientemente sabemos se somos livres ou não e até onde. Os escravos do passado nunca tiveram consciência se algum dia poderiam ser homens livres.

A liberdade é como um balão imaginário, no centro do qual nos encontramos a flutuar. Entre nós e as paredes do balão existe um espaço que é o nosso espaço de liberdade. Podemos partir do centro em todas os sentidos e direcções. Mas esse balão é de uma forma completamente irregular, porque é constituída pelos os limites da nossa liberdade. Cada pessoa teria assim um balão com uma forma diferente, porque a totalidade dos limites, quer físicos, quer psicológicos, é diferente para cada um, apesar de existirem limites que são iguais para todos.

A liberdade de cada um é o espaço entre si e os seus limites, e existem muitos tipos de limites. Existem limites perfeitamente definidos (por exemplo, velocidades máximas de circulação automóvel). Existem limites permanentemente indefinidos (por exemplo, quantidade de horas de sol nos primeiros dias de praia). Existem limites em constante crescimento (idade individual), decrescimento (distância entre o atleta e a sua meta) e mutação (estado do tempo). Existem limites com bruscos aumentos e reduções (saldos bancários). Existem limites que surgem e desaparecem (doenças e incapacidades temporárias) e limites permanentes (calendário). Existem limites desconhecidos (universo). Existem limites moldáveis (comportamento). E existem limites infinitos (divisão de uma unidade por três), como existe uma infinidade de limites...

Todos estes limites formam as paredes do nosso balão, que podemos observar nos diversos planos — planos fixos, planos que se aproximam e se afastam de nós, planos vibratórios, planos que nos atraem ou que nos repelem, planos que facilmente ultrapassamos, planos impossíveis de quebrar, planos inatingíveis, planos imperceptíveis e planos infinitos. Todos são o nosso limite em relação a qualquer coisa. A nossa liberdade existe entre nós e eles. Do lado de fora do balão encontram-se os outros e a natureza.

As barreiras que a natureza nos impõe colidem com as nossas capacidades naturais. Neste aspecto somos todos aproximadamente iguais, ainda que muito diferentes. Mas as barreiras que os outros nos impõem são as que colidem com a nossa vontade, e é nestas que reside o grande paradoxo da liberdade.

Porque a nossa liberdade começa onde acaba a liberdade dos outros e vice-versa. Assim, a nossa vontade – interior — tem que ser suficientemente forte para dominar os outros — no exterior — para que seja maior o nosso espaço de liberdade. Mas, por outro lado, essa vontade é originada pelo que recebemos dos outros, que são como nós, simplesmente, nós somos “um” e os outros são “todos”. Desta forma, se todos permitirem a liberdade a cada um, existe liberdade — ainda que condicionada — para todos, mas se todos quiserem mais liberdade que os outros, e como a maior liberdade de uns é a menor liberdade de outros, então os que obterão mais liberdade serão os que tiverem mais força para reduzirem a liberdade dos outros.

A liberdade é um espaço imaginário de todos. Mas só a alcança quem a consegue conquistar com inteligência. As pessoas que conquistam liberdade com a aniquilação dos ideais dos outros têm uma liberdade falsa, pois precisam de manter os outros afastados forçosamente, e a qualquer momento a força inverte-se a acaba a liberdade. A verdadeira liberdade existe com respeito mútuo, em democracia — a vontade de todos ou da maior parte — com inteligência e com sabedoria.

A liberdade é de certa forma uma utopia. Por um lado, todos ou a maior parte não são inteligentes nem sábios, e o respeito que uns deviam ter pelos outros para que fosse o mesmo que os outros tivessem pelos primeiros, é dúbio. A maioria escolhe o que pensa ser correcto, mas que raramente é. Por outro lado, devido à natural ambição, evolução e crescimento humano, tecnológico e populacional, cada vez mais, o espaço que é de todos é menos de cada um, porque é limitado.

A liberdade é um produto recente da história humana. No passado uns eram totalmente livres, reis e senhores enquanto que outros não tinham liberdade, sendo escravos e servos. Actualmente ninguém é totalmente livre e ninguém é totalmente escravo, mas todos somos livres e escravos em parte. A outrora muita liberdade de alguns transformou-se na actual alguma liberdade para todos.

Mas nem todos sabem ser homens livres. Porque a liberdade quando verdadeira exige mais que a servidão. O homem livre tem que saber que é livre e que os outros também são; tem que respeitar; tem que escolher; tem que pensar e tem que tomar decisões correctas, enquanto que o homem que não é livre tem quem faça isso por ele — e isto é mais cómodo.

O homem que tem liberdade, mas não sabe ser livre, sente-se perdido. A liberdade gera a perdição quando não existe sabedoria. O homem que é livre para escolher um de dois caminhos, mas não sabe qual escolher sente-se perdido. E pode ter que escolher um entre muitos caminhos.

Os limites da nossa liberdade são também as nossas referências. É pelos vários planos do balão que sabemos de onde e até onde podemos ir dentro do nosso espaço de liberdade. A liberdade é a nossa maior conquista, mas o seu excesso é a nossa perdição. Dentro de uma cela não podemos passar para além das grades, mas isolados num deserto infinito não tomaremos qualquer rumo.

A liberdade ideal consiste no equilíbrio entre a prisão e a perdição — nem demasiado presos nem demasiado perdidos. Os nossos limites e as nossas referências são os outros. A liberdade é um produto da sociedade civilizada e racional. Sem civismo não há liberdade.

Existem vários tipos de liberdade, cada um com diferentes limites. Existe a liberdade natural (o que a natureza permite que façamos) e a liberdade social nos seus diversos aspectos (civil, penal, militar, política, religiosa, profissional, comercial, familiar, desportiva, afectiva...) estando reunidas em cada indivíduo e formando uma espécie de liberdade individual, que é o estatuto que cada um alcança perante os outros e que lhe permite determinadas atitudes e comportamentos. Devemos saber o espaço que temos em cada uma, isto é, até onde devemos e podemos ir, em cada situação concreta, sem que isso interfira na liberdade dos outros desrespeitando-os,

O espaço cedido pela natureza, apesar de nem sempre ser definido é inviolável, pois o próprio corpo reage impedindo-nos de ultrapassarmos os limites. Mas o espaço cedido pela civilização só conscientemente é compreensível. As leis, códigos ou regras que nos são impostos pelos outros, de acordo ou não com a nossa opinião, podem ou não, ser violáveis. Sendo violáveis devemos saber até que ponto nos convém violar essas leis — esses limites de liberdade — porque qualquer violação, qualquer passagem para além da nossa liberdade em termos individuais ou colectivos, pode trazer consequências negativas graves. Temos que ter consciência se compensa pisar o risco — se é preferível viajar em excesso de velocidade ou chegar atrasado. Se o limite é imposto pela sociedade de forma regrada, podemos até saber o que nos poderá acontecer. Mas se o limite não é regrado, ou é individual, e o ultrapassamos entrando no espaço de liberdade do outro, esse outro pode ter reacções inesperadas, violentas e perigosas.

A liberdade tem que existir de parte a parte, e começa com o conhecimento dos deveres e dos direitos, passando obviamente pelo respeito mútuo. Perante o desconhecimento apenas podemos agir correndo riscos, ou com respeito e cautela, mas podemos assim não usufruir de todos os direitos e liberdade que temos.

A declaração dos direitos humanos foi um grande passo para a garantia da liberdade individual. Apesar de muitas vezes violada — porque o mundo actual é diversificado evolutivamente — a consagração dos direitos fundamentais de pensamento, consciência, opinião e expressão, garantiu a homem, a liberdade naquilo em que o espaço é infinito.

A liberdade de pensamento é infinita e ilimitada. Os limites do pensamento e da imaginação nunca colidirão com os limites de outrem. É como se existisse no nosso balão que limita a liberdade, um buraco ou um túnel, em que nós por muito que andássemos nele, nunca atingiríamos o fim e nunca nos cruzaríamos com ninguém. É a nossa maior liberdade. Dela nunca devemos abdicar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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Sábado, 13 de Junho de 2009

Lei

LEI

 

 

 

Uma lei é um conjunto de regras criadas pelas pessoas que compõem uma entidade e que visa estabelecer ordem nas relações entre as mesmas e a entidade.

O principal objectivo de uma lei é delimitar o espaço de liberdade que cada pessoa possui em relação a determinada organização social, cuja finalidade é garantir o respeito pela liberdade alheia de forma a que se possa viver socialmente.

Todas as leis existem em sociedade e são criadas e aplicadas por todos, pela maioria, ou pelos detentores do poder, conforme a política de organização social.

Se uma sociedade é democratizada cria as leis conforme os desejos da maioria, defendendo os direitos e exigindo o cumprimento dos deveres dessa maioria em igualdade de circunstâncias. Os criadores e defensores das leis serão os próprios aplicadores e cumpridores. Se a estrutura social não é democratizada, independentemente do regime por que se defina, serão os detentores do poder que criarão as leis e as imporão aos restantes membros da sociedade, independentemente da sua concordância ou não.

A organização civilizacional humana sempre funcionou por leis, independentemente da sua justiça, funcionalidade e racionalidade.

Uma lei justa, racional e funcional, que defenda a igualdade e o respeito pela diferença, só pode existir numa sociedade liberal, civilizada e livre, onde o voto da maioria é possível, realizado e respeitado,

Uma lei tanto pode existir como um código, conjunto de normas ou regras por que se estabelece um simples grupo de pessoas, com poucos estatutos objectivos para defender os interesses dos associados de uma forma colectiva, como pode existir numa associação ou empresa, ou ainda num estado ou numa nação para proteger os cidadãos, e pode ser universal, defendendo os direitos humanos, a natureza e a vida. Qualquer lei existe em função do número de pessoas que a ela se submetem ou por ela são submetidas — quanto maior o número mais abrangente é a lei. E todas as leis existem em hierarquia nunca se sobrepondo umas às outras, embora ocasionalmente possam haver colisões que em igualdade de poder devem respeitar-se mutuamente.

Todas as leis, excepto as naturais, são criadas por alguém, ainda que inconscientemente e colectivamente. Quando são aprovadas democraticamente, logo, pela maioria, serão as melhores possíveis no momento, pois possibilitarão a vida em sociedade e em liberdade e igualdade. Ainda que uma minoria esteja mais correcta, ao lhe ser dada aprovação, será maior o risco, pois só se saberá se estava correcta após a aplicação da lei, e se estiver errada, o preço a pagar pelo erro poderá ser elevado. Se for a maioria a estabelecer as regras, será a maioria a defende-las, a cumpri-las e principalmente a responsabilizar-se por elas. Só com a aprovação da maioria haverá estabilidade social, e só com estabilidade haverá crescimento.

A lei implica cumprimento e responsabilidade, mas esse cumprimento e responsabilidade devem ser livres e não impostos. Ou seja, da mesma forma que alguém deve ser livre para não cumprir a lei, também deve ser responsável para assumir as consequências desse não cumprimento, porque a lei quando existe é para ser cumprida e é para o bem de todos. No entanto, como é feita e aplicada por humanos, e os humanos não são seres perfeitos, pode, tanto a criação como a aplicação, estarem viciadas. E caberá a cada um defender-se tanto em nome da lei, como defender-se da própria lei. Naturalmente será uma questão de forças, mas é assim em tudo na vida.

Todos as leis, códigos, e normas de um estado de direito visam delimitar em igualdade cada cidadão de forma a que não interfira no espaço de outro, para que todos vivam em respeito mútuo, respeitando também as diferenças.

Cada código — civil, penal, comercial, criminal, da estrada, dos direitos humanos — determina objectivamente as limitações impostas e as condenações respectivas para cada infracção. Todos somos livres para cumprir ou deixar de cumprir as obrigações impostas, mas devemos saber até que ponto avançar e se compensa transgredir. Da mesma forma que devemos conhecer os nossos direitos.

Uma lei democrática define os direitos e os deveres de todos os cidadãos. Só com leis se vive em democracia e só democraticamente se organiza a vida em sociedade humana, equilibrando com a maior justiça possível, todos os desejos, vontades, necessidades e ambições, com as respectivas satisfações e realizações.

Só os humanos têm leis, porque só as sociedades humanas são artificiais, onde impera não a lei do mais forte por natureza, mas a lei do mais forte por justiça — ou por outra qualquer razão menos justa.

 

 

 

 

 

 


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Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Justiça

 

JUSTIÇA

 

 

 

Se existem dois adultos para serem alimentados e uma galinha que vai servir de alimento, é justo que cada adulto coma metade da galinha. Se existe um adulto e uma criança, é justo que o adulto tenha direito a uma parte maior e a criança a uma parte menor.

  A justiça consiste na divisão dos bens pelos pretendentes que a eles tenham direito e nas devidas proporções. As proporções justas são as que atingem o maior nível de equilíbrio entre todas as partes.

A natureza é regida por leis absolutas que visam o equilíbrio entre todas as partes, e que são justas. No entanto, a justiça, mesmo natural é relativa. O equilíbrio justo só pode existir entre partes iguais cujos opostos se complementam, mas quando as partes são diferentes, a justiça para uma pode ser injusta para outras, apesar de todas contribuírem para o equilíbrio global da vida. Aqui, a justiça que prevalece é a das partes cujas forças sejam superiores — se a raposa tem duas lebres para comer, mas só uma é suficiente para saciar o seu apetite, a lebre que vai ser comida, se pensasse, consideraria injusto ser comida ela e não a outra, já que eram iguais; a raposa não iria deixar de comer porque morreria de fome, nem comeria as duas porque morreria empanturrada; também não comeria metade de cada uma, porque ao matar as duas ficava sem alimento para uma próxima refeição; assim, comer uma das lebres ao acaso é a maior justiça possível ainda que injusta para uma lebre; também a raposa servirá de alimento a seres vivos superiores e a lebre se alimentará de inferiores; mas a lebre nunca comerá a raposa porque na natureza tudo tem a sua ordem que é intransponível, mesmo parecendo injusta.

Poderá então concluir-se que as injustiças da natureza são inevitáveis e contribuem para o desenvolvimento da mesma, podendo assim tornarem-se justas se considerarmos a natureza no seu todo.

E com o homem, por ser filho da natureza, acontece exactamente a mesma coisa. Uma criança também é um ser humano, mas se o adulto lhe der a parte menor da galinha, aquela limita-se a comer essa parte porque, além de não ter a noção de justiça, não teria outra alternativa porque o adulto é mais forte que ela e domina-a.

A justiça é a divisão dos bens em partes justas, mas quem considera como é que as partes são justas é quem detém o poder. Quem tem mais força é quem domina e é quem determina o que é a justiça, como é quem faz as leis. E naturalmente fá-las de acordo com os seus interesses. É assim em todos os aspectos da sociedade humana, desde a economia à família, passando pela política.

Em todos os lugares onde se encontrem pelo menos duas pessoas conscientes — porque a justiça só faz sentido quando em consciência, pois não se consideram as opiniões de quem não se encontra em juízo perfeito — existem duas concepções diferentes de justiça. E prevalecerá aquela que for mais forte, com base nas capacidades de argumentação e de coacção ou em último recurso de força física.

A justiça é também uma das criações psicológicas causadas pela consciência, com influência das heranças culturais do passado, e das ideologias adoptadas, ou criadas pelos seus defensores. Está em permanente transformação evolutiva, conforme as novas realidades sociais e humanas — até ao século XIX, seria justo castigar o escravo que desobedecesse ao seu senhor, actualmente será justo punir o senhor que possua um escravo. Qualquer assembleia governativa aprova regularmente leis que determinam que certos actos e omissões passam a ser crime ou deixam de o ser.

Para além da justiça criminal, que visa defender a sociedade em geral, existem outras formas de justiça regulamentadas pelos diversos códigos — civil, comercial, eclesiástico, militar — ou não regulamentadas, mas subentendidas pela ética, moral, usos, costumes e tradições.

O sentido da justiça tem tido uma progressão que partiu do irracional, inconsciente e desumano, tornando-se cada vez mais racional, consciente e humano, podendo-se concluir que quanto mais juízo, mais justiça.

E só com justiça se viverá numa sociedade equilibrada, com o máximo possível de igualdade, dignidade, fraternidade e liberdade. Mas isso implicará responsabilidade, respeito e até alguma submissão e resignação. E este é que é o problema, porque, para alguém ganhar outrem tem de perder, e se é certo que o mundo é de todos, também é certo que todos desejam o poder sobre ele. E se a natureza nos dotou de um sentido de justiça, muito antes nos dotou também de um sentido de ambição.

Este é o nosso único mundo e nele viveremos naturalmente com justiças e injustiças, desejando a justiça ambicionada, só possível com a ambição justa.

 

 

 

 

 

 

 

 


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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Informação

 

INFORMAÇÃO

 

 

Entende-se por informação qualquer conjunto de dados registados numa memória, que serão interpretados por alguém.

É informação o conjunto dos nossos conhecimentos e recordações, alojadas na nossa memória, que reside no nosso cérebro. É informação todo o conteúdo de um livro e de todos os livros, jornais, revistas e documentos de todas as bibliotecas. É informação tudo o que está gravado em qualquer material desde os mais primitivos aos mais evoluídos: desde os fósseis, pinturas rupestres e rumas; passando pelos monumentos pré-históricos e seculares, pergaminhos, trajes e armas; por todas as expressões artísticas — esculturas, quadros em relevo, pintura, arquitectura, música, canções e teatro — e mais recentemente pela fotografia, pelos discos de vinil e fitas magnéticas de audio, também pelo cinema e vídeo, e pelos actuais discos de leitura “lazer” que registam informação das mais diversas formas; até às bandas magnéticas e micro-chips electrónicos em cartões que suportam muita informação em muito pouco material. Tudo é informação.

A informação em si é uma coisa passiva e inerte, mas a sua implicação no que lhe está inerente torna-a de uma importância extraordinária. A informação é o propulsor da evolução humana porque tudo o que caracteriza a evolução humana está em correlação com tudo o que caracteriza a informação.

Para existir informação é necessário existir matéria que a suporte; é necessário existir linguagem que a enrede; é necessário existir energia que a reproduza; e é necessário existir inteligência que a compreenda, porque, toda a informação é artificial e existe de e para o homem. Por analogia, a natureza tem a sua informação genética e biológica que se auto-reproduz. Também a informação humana caracteriza-se principalmente pelo facto de poder ser reproduzida — de nada servia gravar um disco que nunca pudesse ser ouvido ou escrever um livro que nunca pudesse ser lido.

O facto da informação poder ser reproduzida é que é a chave para o desenvolvimento humano. Se alguém pratica um acto e pode depois ver como o praticou, corrigirá possíveis erros e irá, no futuro, praticar o mesmo acto com mais perfeição. Entra também aqui o facto de o homem ser o único ser com consciência dos seus actos. Subentende-se assim o que a experiência proporcionará em milhares de anos. Repare-se ainda no crescimento cada vez mais galopante dos últimos anos em que a era da informação se tornou uma realidade. Um adolescente de hoje com um computador em casa ligado à internet tem acesso a mais informação que todos os habitantes do planeta há cem anos.

A informação é muito importante porque a sua reprodutibilidade transforma-a atemporal. Só com informação se consegue analisar um acontecimento do passado ou prever um acontecimento futuro. E como a transmissão da informação, além de poder acontecer de uma pessoa para ela própria, pode também acontecer de uma pessoa para muitas outras. É assim geradora de opiniões, conceitos, juízos e valores psicológicos — o romantismo do século XIX só existiu porque alguns autores no início desse século o fomentaram.

As novas tecnologias da informação, através da informática e audiovisual, encurtaram as distâncias no mundo, transformando todo o planeta numa “aldeia global” em que todos têm acesso a tudo em todo o lado — todos os que têm acesso às tecnologias. Mas, repare-se que este encurtamento é psicológico e artificial, como toda a informação é psicológica e artificial, criada pelo homem — se falhar a tecnologia, Nova Yorque fica do outro lado do oceano a milhares de quilómetros em relação a Lisboa, e apesar dos meios de transporte serem evoluídos, nunca alcançarão a velocidade da transmissão de informação que é instantânea.

A era da informação caracteriza-se também pela existência de inteligência artificial, só possível devido a grandes memórias artificiais usadas por automatismos próprios e com determinadas energias.

Também a inteligência humana consiste na capacidade de uso da informação que cada um tem na sua memória.

Um computador pode ter registados na sua memória todos os livros de uma biblioteca, mas isso de nada servirá se não tiver um programa que os ordene, procure e edite. Os programas informáticos são também informação memorizada com o fim de trabalhar outra informação.

Talvez ninguém imagine a quantidade de “bits” e “bytes” que seriam necessários para suportar toda a memória de recordações, instruções, conceitos, desejos, medos e tudo o mais que um ser humano compreende: “saber que o dia ‘x’ é um de tantos que tem tal mês entre outros doze do ano tal depois de Cristo, porque se contam assim os anos após o acerto do calendário pelo movimento do planeta em relação ao sol que é uma estrela porque... e foi nesse dia que ele nasceu; ou saber que o sapato preto diz bem com o fato azul porque esta é a cor do céu que se vê da janela do escritório para onde tem que se dirigir e causar boa impressão se não se perder em conversas fúteis e chegar atrasado porque... e tem que o calçar no pé”.

Tudo o que o homem sabe é informação. Tudo o mais que existe é natureza. Tudo o que faz conscientemente é porque está informado. Tudo o que faz inconscientemente é pura natureza. Quanta mais informação o homem tiver, mais consciente será.

 

 

 

 

 

 


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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Inconsciente

 

INCONSCIENTE

 

 

 

 

Entende-se por inconsciente toda a actividade existente no nosso cérebro que está fora do nosso domínio racional.

 

Tudo aquilo que nós fazemos sem nos apercebermos que estamos a fazer, tal como respirar, ver, ouvir, tactear, cheirar, saborear, dormir, sonhar, etc; e todos os sentimentos físicos e emocionais como sentir dor, sentir frio e calor; sentir fome, sede e sono; sentir cansaço, comichão e arrepios; sentir admiração, medo e repugnância; corar, transpirar, tremer, suspirar, bocejar e chorar; sentir prazer e ódio; sentir gosto, desejo, saudade e compaixão; sentir amor; sentir constrangimento, arrependimento e orgulho; sentir excitação e alegria, depressão e tristeza; tudo isto e muito mais são reacções produzidas no nosso corpo devido a ordens dadas pelo nosso cérebro inconscientemente, embora posteriormente possamos ter consciência disso.

Os sentidos podem ser usados por nós conscientemente ou inconscientemente — podemos procurar uma coisa para a ver ou podemos ver uma coisa que nos desperta interesse sem a termos procurado — mas os sentimentos, sensações ou emoções são reacções originadas inconscientemente. É o inconsciente existente no cérebro que determina o limite máximo de temperatura que o corpo pode receber, e ao atingir esse limite “dispara um alarme” que avisa a consciência que se tem que evitar o calor. Assim como para todos os limites do corpo. Se não obedecermos conscientemente às ordens vindas do cérebro — produzidas do inconsciente para o consciente — acabamos por obedecer inconscientemente e inconscientes. O nosso inconsciente domina o nosso consciente e o consciente tem que respeitar as ordens vindas do inconsciente. Se o inconsciente nos diz “não podes mais”, e nós conscientemente dizemos “ainda posso mais”, poderemos ainda mais certamente, porque o inconsciente avisa-nos com uma margem de segurança, mas se continuarmos a insistir, o inconsciente continua-nos a avisar, e, ou paramos enquanto é tempo de recuperar ou atingimos os limites e ficamos inconscientes, ou podemos até morrer.

O inconsciente humano é formado por duas grandes vertentes sentimentais. Existem os sentimentos físicos que são memorizados no inconsciente através dos sentidos e que provêm da natureza, do homem como animal, irracionalmente e inconscientemente — como a dor, a fome, o frio — análogos a todos os outros animais, e existem os sentimentos humanos, também memorizados no inconsciente, e também através dos sentidos, mas estes passaram primeiro pelo consciente ou consciência. Os sentimentos humanos não são inatos como os físicos, mas pelo contrário, aprendem-se. Aprendem-se pela educação (cultura/religião) e valorizam-se ou não na consciência. Conforme se valorizarem na consciência, é também assim que ficam memorizados no inconsciente. E será conforme esses valores que o nosso inconsciente nos vai alertar. No entanto o nosso inconsciente regista tudo, e se nós agora pensarmos de uma forma oposta à que pensávamos no passado, em relação a determinado assunto, se o inconsciente tiver que nos enviar alguma mensagem relacionada com esse assunto, tanto pode corresponder ao que nós agora pensamos como opor-se. E uma mensagem oposta ao nosso consciente provocará conflito [dissonância cognitiva] — se eu não quero chorar e sei que não devo chorar perante determinada situação mas não consigo deixar de o fazer, significa que o inconsciente está a dominar.

Nós devemos respeitar o inconsciente, pois ele é poderosíssimo e não o devemos desafiar, pois ele vencerá sempre. É-nos muito útil na nossa protecção e equilíbrio pessoal, mas nós apenas devemos dar-lhe valor no que respeita aos avisos que ele nos faz. Devemos valorizar mais a consciência.

O nosso consciente, ao contrário do inconsciente, é tudo a que temos acesso pelo cérebro, em perfeito estado de raciocínio, vigilantes e alertas. Quanto mais perfeita, forte e segura, for a nossa consciência, mais estaremos conscientes, e logo, menos possibilidades damos ao inconsciente de intervir.

O inconsciente é importante porque nos defende dos perigos e nos guarda toda a informação do nosso passado. Tem uma capacidade infinita se pensarmos que cada segundo o nosso cérebro recebe dezenas de estímulos ou mensagens, permanentemente, sendo a maior parte delas armazenadas directamente na memória inconsciente, sem nos apercebermos delas.

Mas a nossa vida de humanos, racionais, e conscientes do que somos, tem que ser vivida com consciência, raciocínio, sabedoria, inteligência e saúde. Se nós não temos essa segurança que nos vem da consciência, deixamos caminho aberto para o inconsciente.

Teorias dizem que o nosso cérebro funciona noventa e cinco por cento inconscientemente e apenas cinco por cento conscientemente. Nós vivemos racionalmente com essa pequena percentagem. Se estivermos inseguros, deprimidos, doentes, ou em qualquer estado de consciência alterada, então o inconsciente apodera-se dela e manifesta-se, das mais diversa formas. E se não recuperarmos a consciência viveremos inconscientes, com uma personalidade alterada e demente.

O inconsciente é irracional, os animais também o têm. O consciente é racional, só os humanos têm consciência daquilo que são. É na racionalidade e consciência que nos diferenciamos dos animais, mas por muito racionais que sejamos, o nosso inconsciente será sempre maior que o nosso consciente, porque antes de nós pensarmos, já sentimos, e antes de nós sermos humanos, somos animais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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Domingo, 14 de Setembro de 2008

Ilusão

 

ILUSÃO

 

 

É ilusão tudo aquilo que percepcionamos como real, mas que não o é. A vida contém múltiplas e variadas ilusões não só na sua componente humana, mas também animal e vegetal. Pode dizer-se que as ilusões são mesmo uma característica natural, embora o conhecimento das mesmas esteja limitado aos humanos. Todas as outras espécies, animais e vegetais, reagem naturalmente às ilusões, como os humanos, mas nunca poderão compreender que eram ilusões. As ilusões são assim uma prova da compreensão que os humanos têm da natureza, só possível pela sua excepcional consciência.

Uma ilusão é uma realidade falsa. No entanto, enquanto realidade, o efeito que uma ilusão provoca no ser iludido é exactamente o mesmo que provocaria uma realidade verdadeira, porque a ilusão só passa a existir quando a realidade que até então era considerada verdadeira passa a ser considerada falsa.

Tem assim um papel decisivo na descrição da ilusão, a nossa consciência, que possibilita o nosso entendimento da realidade no sentido de a considerar verdadeira ou falsa.

As ilusões podem-se dividir em dois tipos característicos: físicas e psicológicas. São físicas todas as ilusões que partem da natureza e são enviadas ao cérebro pelos nossos sentidos de uma forma deturpada. Os sentidos captam uma realidade análoga à que o cérebro regista, pois estão intrinsicamente unidos — a visão compreende todos os órgãos visuais e o cérebro — por exemplo, quando avistamos uma mancha de água numa auto-estrada num dia de calor, é isso mesmo que avistamos. É isso que os olhos vêm e o cérebro entende, se não tiver experiência do passado e conhecimento de que é o calor que produz tal efeito. Se uma pessoa não se deslocasse até próximo da mancha fazendo-a desaparecer, nunca saberia que é uma ilusão. Só a experiência e o conhecimento — consciente — definem a ilusão. Este tipo de ilusões acontece também nos animais, que podem ser percebidas conforme a experiência e a capacidade de percepção de cada animal, ou simplesmente manterem-se, por natureza. Os cães de Pavlov salivavam ao toque da campainha independentemente de lhes ser servida comida ou não, mas com várias experiências repetidas ganhavam novos hábitos. Muitos animais criam ilusões, por natureza ou instintivamente, com a finalidade de atraírem presas ou para acasalamento. Uma flor que abra só de dia devido à luz, manter-se-á aberta de noite com luz artificial. Esta luz é real para a flor, que apenas necessita dela para se manter aberta.

A ilusão só o é aquando do conhecimento de que essa não é a realidade. E se fisicamente tudo é mensurável porque tudo é exacto, e ainda assim existem ilusões porque é impossível conhecer conscientemente toda a realidade física, que dizer então das realidades psicológicas, que são originadas na cabeça de todos em geral, e na de cada um em particular.

Se alguém acredita numa coisa que não existe, vive numa ilusão, mas como acredita, essa coisa é real para essa pessoa. Só quando tomar consciência de que essa não é a realidade é que descobre ter vivido a ilusão.

As ilusões psicológicas formam-se juntamente com a formação da mentalidade. À medida que vamos tomando consciência do mundo que nos rodeia, através do registo de dados na nossa memória, vamos criando ideias, crenças, verdades e mentiras que caracterizarão a nossa personalidade. E essa será condicionada basicamente pela sociedade, pelas nossas capacidades neuropsicológicas e pelo nosso passado.

E as ilusões fazem sempre parte do passado porque só no futuro é que saberemos quanto iludidos estamos no presente. No entanto, a flor é mais bela aberta pela luz artificial, que eternamente fechada.

 

 

 

 

 

 


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Sábado, 6 de Outubro de 2007

Equilíbrio

EQUILÍBRIO

 

 

O equilíbrio é uma das principais bases da vida. Tudo na vida necessita de equilíbrio. O equilíbrio representa também a harmonia e a justiça. Repare-se na balança como símbolo da justiça. Tudo está bem quando está equilibrado e tudo está mal quando há desequilíbrio.

A existência de equilíbrio — ou desequilíbrio — implica a existência de, pelo menos, duas forças opostas. Não podemos falar de equilíbrio de um só elemento simples. Poderíamos sim, falar de forças opostas que compõem um elemento para lhe darem equilíbrio.

A vida, em todas as vertentes de que é composta e mais que pudéssemos imaginar, desde a parte mais divisível do átomo até ao imensurável universo, ou artificialmente, desde a natureza à maior criação do homem, seja ela tecnológica, artística, ideológica, religiosa, ou etc; tem sempre uma coisa e o seu oposto. E cada coisa é o complemento do seu oposto. O bem é o oposto do mal, mas um só existe porque existe o outro. A existência de uma coisa implica a existência do seu oposto. A própria existência só é considerada tendo em conta a inexistência, que é o seu oposto. O oposto de qualquer coisa é o complemento dessa coisa, e juntos formam um ciclo que vai desde os extremos à união, ou equilíbrio.

Mas o equilíbrio existe na vida não só numa coisa e no seu oposto — apenas duas forças, como base explicativa simplificada — mas essencialmente numa enorme complexidade de forças opostas e complementares. O equilíbrio existe também tendo em conta a relatividade das forças. Os opostos são os extremos que se tentam impor, mas a unidade deles é o equilíbrio que o não permite, assim, existe também equilíbrio entre o equilíbrio e a falta dele.

Vamos considerar como exemplo explicativo, a temperatura: a temperatura é composta de duas forças opostas que se complementam —  o calor e a falta dele, ou o frio e a falta dele, ou apenas o calor e o frio. Uma força implica a existência da outra. São forças opostas — onde está calor não pode estar frio e onde está frio não pode estar calor — que nos extremos são inconvenientes — muito calor ou só calor e muito frio ou só frio são inconcebíveis — e que se complementam — a mistura de calor com frio cria a temperatura ideal, agradável, necessária ou aconselhável.

Mas o equilíbrio da temperatura só é avaliado por estas duas forças se quisermos falar só e abstractamente de temperatura. Pois a complexidade do equilíbrio aumenta quando aumentam as condicionantes. Por exemplo, a temperatura — calor e frio — sempre existiu, anteriormente ao homem, foi o homem que lhe atribuiu a medida, e só o pode fazer criando outra forma de equilíbrio/oposição com a água: com zero graus, a água solidifica e aos cem graus evapora. O equilíbrio entre a temperatura e qualquer coisa só se pode considerar tendo em conta a relação entre a temperatura e essa coisa, existindo sempre um balanceamento entre as duas partes. O equilíbrio entre a temperatura e o ambiente é cerca de 18 graus centígrados; entre a temperatura e o corpo humano é cerca de 37 graus. Aqui apenas temos duas condicionantes ou duas forças ou duas variáveis, mas se considerarmos o fogo, por exemplo, já é necessária uma terceira força que vai condicionar o equilíbrio: calor (temperatura), oxigénio e combustível. Se o combustível for gasóleo e existindo oxigénio, só se alcança o fogo a uma temperatura de 70 graus; com petróleo alcança-se apenas com 38 graus; com álcool etílico bastam 13 graus; e com gasolina, mesmo a 40 graus negativos conseguimos o fogo. Diferentes combustíveis exigem diferentes temperaturas para com o mesmo oxigénio conseguirmos o mesmo efeito, o fogo.

O equilíbrio existe sempre na relação dos opostos. Os opostos são as partes que compõem a unidade, num mínimo de duas e sem limite máximo — o planeta Terra é uma unidade composta por infinitas partes em equilíbrio umas com as outras.

A água é um elemento natural, quimicamente composto, e só existe devido ao equilíbrio entre as partes que a compõem — duas partes de hidrogénio para uma de oxigénio. Se tivermos hidrogénio e oxigénio sem estarem combinados na medida certa para formarem a água, nunca obteremos água. Por seu lado, o hidrogénio e o oxigénio são elementos químicos simples, mas que precisam ter equilíbrio na sua própria estrutura atómica. Uma molécula de oxigénio é composta por dois átomos — se este se condensar e a molécula passar a ter três átomos de oxigénio, passa a ser ozono. Desde o elemento mais simples da natureza, à fórmula mais complicada, tudo tem que estar em equilíbrio consigo próprio e com tudo o que o rodeia.

Este princípio, apesar dos exemplos citados serem apenas físicos e químicos, aplica-se também ao homem em todo o seu ser.

Fisicamente, a anorexia e a bulimia são extremos doentios que causam outras doenças por desequilíbrios alimentares. A falta ou excesso de sono, de trabalho e de estudo, são exemplos de desequilíbrios que o corpo sente e alerta quando se atingem os limites. Alerta pela doença, e a pessoa é obrigada a parar. Se não parar, o equilíbrio pode tornar-se demasiado e a pessoa morre. A lei natural do equilíbrio é peremptória.

Psicologicamente, pela falta de ideais, de projectos, de actividade criativa e recreativa, ou pelo excesso de responsabilidade, de desgostos, e por toda a espécie de distúrbios psicológicos e emocionais.

Socialmente, também os desequilíbrios causam mal-estar pela pobreza, desemprego, falta de habitação, e outras necessidades elementares, ou pelo excesso de trânsito, poluição, alcoolismo e droga.

Politicamente, tem que haver equilíbrio entre os governantes e os governados, entre o poder e a oposição, entre os vários estados e entre os vários regimes. E também a história é vasta em exemplos de batalhas sangrentas devido a desequilíbrios políticos.

E, economicamente, existem os equilíbrios dos mercados, a relação de compra e venda, o valor do dinheiro e dos produtos pelo qual são trocados, a relação ganho-perda, as mais e as menos-valias, os empréstimos, os créditos, as taxas de juro, os câmbios, os índices bolsistas, as remunerações, a inflação, o poder de compra, os impostos, tudo se relaciona dentro do mais possível equilíbrio para evitar falências e enriquecimentos desmedidos.

O equilíbrio é o ideal para a vida humana e da natureza, no entanto existe em correlação com outras realidades também humanas e também naturais. Entre elas a ambição e o desejo do poder por parte do homem e a lei do mais forte por parte da natureza. Estas realidades, sempre presentes naturalmente na vida conhecida, são por um lado causa de fortes desequilíbrios, gerando as maiores guerras — sociais, políticas, económicas, militares e mesmo religiosas, raciais ou tribais — das quais nascem os maiores desequilíbrios globais, principalmente entre ricos e pobres, civilizados e terceiro-mundistas. Mas por outro lado são também motivo de crescimento civilizacional, tecnológico, científico e cultural.

Pode-se concluir que também neste aspecto há equilíbrio, tendo presente que a necessidade de construção e uso de poderosas armas foi causa de grandes descobertas médico-científicas.

Os ricos e os pobres são as duas faces da mesma moeda. Como o são o bem e o mal, o amor e o ódio, o alto e o baixo, o dentro e o fora, o forte e o frágil, o masculino e o feminino, o direito e o esquerdo, o certo e o errado, o simples e o complexo, o prazer e a dor, a realidade e a imaginação, a verdade e a mentira, o tudo e o nada, o principio e o fim, o equilíbrio e o desequilíbrio — tudo existe em relação a outra coisa e numa relação de forças. O equilíbrio entre as duas partes, ou todas as partes, será o ideal.

Sempre que algo está mal, essa anomalia deve-se a um desequilíbrio entre duas forças, que podem ser desmultiplicadas devido às possíveis diversas variáveis. Deve-se identificar qual o elemento que provoca o desequilíbrio, e o erro corrige-se aumentando a força do elemento oposto. Mas apenas podemos fazer correcções nas pequenas coisas pessoais. Ao nível global será sempre a lei da maioria, da qual nós podemos fazer parte.

E a lei do mais forte é relativa. Um homem só nada vale contra um milhão de outros homens, mas se possui uma bomba atómica!...

 


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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007

Emoções

EMOÇÕES

 

 

As emoções são exteriorizações dos sentimentos.

O ser humano é o ser mais evoluído por natureza. Possui um corpo que compreende partes exclusivamente animais e partes exclusivamente humanas. Quase todos os órgãos do corpo humano são anatomicamente análogos aos dos outros animais da sua classe. Apesar de alguns animais possuírem alguns órgãos com capacidades maiores que os humanos, estes, possuem um conjunto anatómico desenvolvido que ultrapassa todas as capacidades de todos os outros.

Resultado de milhares e milhares de anos de evolução natural, o aparelho vocal humano que produz dezenas de fonemas e o seu cérebro que os memoriza, formaram o duo ideal para a criação da racionalidade. Falar e pensar, e memorizar o que se pensa e fala, só o homem consegue.

Então, a racionalização humana criou novos valores, novas ideias e novas realidades. E essas novas realidades reforçaram o crescimento de outras. A linguagem obriga ao desenvolvimento do cérebro e vice-versa, e ambas obrigam ao desenvolvimento de todo o corpo humano. Os sentidos humanos tornaram-se os mais desenvolvidos — o apuramento do paladar, olfacto, audição, e principalmente do tacto, são muito desenvolvidos no homem, assim como a visão, nomeadamente na sua sensibilidade às cores.

Todos estes aspectos criarem novas necessidades ao ser humano, incluindo as formas de expressar, não só o que sentiam pela sua natureza animal, mas também o que sentiam pela sua capacidade de criação mental. Por essa razão, a natureza dotou o ser humano de características únicas, como a capacidade de corar porque mente, chorar porque está triste e rir porque está alegre. Ou corar, chorar ou rir pelos mais diversos motivos.

Qualquer sentimento emocional é um acumular de tensão que tem origem em tudo o que nos rodeia ou em nós próprios e vai contra a nossa capacidade de reacção ou de compreensão. As emoções são a forma de esvaziar essa tensão.

Os animais não têm compreensão, por isso não têm sentimentos, por isso não acumulam tensão emocional ou nervosa, e por isso não riem nem choram.

O choro e o riso — diferentes e iguais, porque a chorar também se ri e a rir também se chora — são as formas de expressar os sentimentos ou as emoções. São as formas de libertarmos as tensões acumuladas por sermos humanos. Se uma pessoa tem vontade de fazer alguma coisa, mas não a faz porque a consciência — a sociedade, a cultura, a religião, a lei e tudo o que é de origem humana — não permite, aí vai ser criada uma tensão emocional que pode ser expressa das mais variadas formas: com depressão, com violência, com apatia, e acompanhada normalmente com tristeza por ser uma tensão negativa. Da mesma forma, se uma pessoa é aclamada por algo que não esperava, ou se sente uma satisfação superior à imaginada, fica também sem conseguir compreender e reagir. Acumula igualmente tensão que precisa ser igualmente esvaziada pelas emoções — agora de alegria. É o regresso do corpo ao equilíbrio saudável.

As inúmeras concepções humanas causadas pela racionalização — honra, orgulho, respeito, desejo, ambição, esperança, ansiedade, saudade — são a causa das emoções. O cordeiro tem medo do lobo faminto, e foge ou morre. O homem também tem medo do lobo faminto, mas sabe que o tem, e por isso, ou se protege e perde o medo, ou não se protege e como sabe que o lobo o vai atacar, acumula ainda mais medo.

As emoções existem devido à alteração que a consciencialização humana fez da natureza. Os humanos reagem a tudo de uma forma artificial, que pode ser melhor ou pior, pois não têm medo do que é perigoso, mas do que eles pensam que é perigoso. E reagem a tudo conforme a sua concepção da realidade. Um motivo de alegria numa cultura pode ser motivo de tristeza noutra.

Os animais nada compreendem e por isso não têm sentimentos nem emoções. Nós temos sentimentos e emoções porque compreendemos umas coisas, mas não compreendemos outras. Se nós compreendêssemos tudo, também não teríamos emoções. As emoções estão intimamente ligadas ao desconhecido, ao duvidoso, ao ambíguo e ao incerto. Não existem emoções referentes àquilo que nós conhecemos ou desconhecemos totalmente. O que é totalmente consciente e totalmente inconsciente não emociona — nem se emociona.

O homem provém do animal, evolui no sentido de largar o inconsciente e atingir o consciente. Resta saber se algum dia vai ser predominantemente consciente já que não o consegue ser totalmente, porque tem um corpo natural biológico. E como no passado longínquo, o homem só passou a ser homem quando herdou a consciência, também no futuro, se o homem perdesse a inconsciência deixaria certamente de ser homem.

Porque o homem é homem enquanto for simultaneamente consciente e inconsciente e se emocionar.

 

 

 


publicado por sl às 00:31
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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007

Deus

 

DEUS

 

 

Deus não existe.

Deus é a força mais poderosa do mundo.

Acreditar ou não acreditar?!... É com esta interrogação que se iniciam todas as conversas sobre a existência de Deus. Não se pergunta se Deus existe, pergunta-se se se acredita em Deus, partindo do pressuposto que Deus existe, sendo um dado adquirido como verdade absoluta da qual ninguém ousa duvidar. E nós ou acreditamos ou não Nele!

Mas quando alguém pergunta “acreditas em Deus?!”, o que realmente quer perguntar é “acreditas que Deus existe?!”. Acreditar em Deus é dizer que Deus existe, e não acreditar em Deus é dizer que Deus não existe. E a verdade é exactamente esta. Deus é puro credo. Para quem acredita em Deus, Deus existe realmente. Para quem não acredita em Deus, Deus não existe. Para quem tem fé, Deus existe. Para quem não tem fé, Deus não existe. Deus é pura e simplesmente uma questão de fé. Deus está na cabeça das pessoas.

Deus é a força mais poderosa do mundo porque o ser humano é a coisa mais poderosa do mundo, com a sua inteligência, capacidade intelectual e personalidade. O cérebro humano é que domina o mundo e a maior parte do cérebro e dos cérebros humanos é ocupada por Deus. Quase todas as pessoas acreditam em Deus, e muitas acreditam muito em Deus. Muitas fazem Deus existir com muita força. Muitas estão dispostas a morrer e a matar por Deus. Para muitas pessoas Deus é tudo. E esta é a força de Deus, é o poder de Deus.

Deus não existe de verdade. Não existe realmente. Não existe naturalmente. Não existe fisicamente. Não existe cientificamente. Deus não existe. É impossível provar a sua existência porque é impossível provar o que não existe. Seria um paradoxo.

Mas Deus existe psicologicamente. Existe em imaginação. Existe em fé. Existe em esperança. Existe em espírito. Puro espírito.

Quem não acredita em Deus apresenta mil e uma provas da sua não existência, mas quem acredita apresenta outras mil e uma que provam a sua existência. A realidade é diferente para ambos. É tudo uma questão de fé. Ou se acredita ou não se acredita.

E entre o acreditar e o não acreditar há uma vastidão de ideias: os ateus negam simplesmente a existência de Deus — para eles Deus não existe mesmo; os cépticos não acreditam em Deus até lhes ser provado o contrário; os agnósticos não crêem nem deixam de crer, para estes, se Deus existe é coisa que nunca será provado ao ser humano porque está para além do conhecimento humano; e os gnósticos são aqueles que consideram conhecer a existência de Deus, os que sabem se, como e porque é que Deus existe, nos quais, naturalmente este texto se integra.

Na verdade Deus não existe realmente.

Na civilização humana actual, Deus é o resultado de uma evolução religiosa, cujo aparecimento surgiu nos primórdios do próprio ser humano, mas fruto deste. Foi o Homem que criou Deus e não Deus que criou o Homem.

O homem, como animal que também é, sentiu medo de tudo o que parecia mais forte que ele, e, apesar de mais inteligente que os outros animais, não encontrava explicação para certos acontecimentos naturais, então, sentiu necessidade de criar algo que o protegesse e que lhe explicasse o inexplicável, e criou Deus.

Deus uno, omnipotente e omnipresente, é fruto da imposição pela força da civilização ocidental a todas as outras civilizações. Mas todas as outras civilizações humanas, maiores ou menores, actuais ou do passado, mais ou menos evoluídas, todas elas tinham um símbolo, ou um ser religioso ou mítico em quem acreditavam.

Para quem nasce numa civilização já formada — nascemos todos — é fácil aceitar ideais de vida já criados, é cómodo e muitas vezes seria crime ousar duvidar deles. Deus é lei, e a lei é feita pelos homens. Deus é feito pelos homens.

É lógico que Deus não existe, não nos protege, não nos ajuda, não nos explica — mas, para quem acreditar, aí, tudo se altera.

 

 

 

 

 


publicado por sl às 19:13
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