Sábado, 22 de Dezembro de 2007

Fantasia

FANTASIA

 

 

Fantasia é a representação agradável da realidade e da imaginação.

Existe a realidade que é tudo o que existe. Existe a imaginação que é tudo o que imaginamos, mas que não existe. Existe a ilusão que é tudo o que não existe, mas que parece que existe. E existe a fantasia que é tudo o que existe representado.

E como é representado por nós humanos, é normalmente agradável. Agradável não só no sentido do belo, mas também no sentido do curioso. É tanto fantasia a beleza no “Nascimento de Vénus” de Botticelli, como a curiosidade na “Tentação de Santo Antão” de M. Bosch, ou “O Triunfo da Morte” de Bruegel. A fantasia é agradável porque permite o esquecimento do sofrimento natural da vida, ao sermos transportados para um mundo irreal, em que existe o entretenimento ou o aperfeiçoamento espiritual.

É fantasia tudo o que o homem cria para seu bel-prazer — toda a criação artística. A arte é algo representado que nasceu no espírito criador do artista, elevando-o na forma de se expressar aos outros e ao mundo, e é também algo que os outros sentirão como uma chamada ao seu próprio espírito, na contemplação da obra criada. A fantasia é toda a representação artística da realidade ou da imaginação. A transposição de uma paisagem para a tela é uma fantasia proveniente da realidade. Uma pintura abstracionista é usa fantasia proveniente da imaginação. Uma pintura surrealista é uma fantasia mesclada de realidade e imaginação.

A fantasia confunde-se muitas vezes com e realidade, nomeadamente através da literatura, onde existem muitas obras antigas cujas referências se perderam, desvalorizaram ou transformaram, mas sendo o seu conteúdo de tal forma influente que muitos se orientam por essas fantasias do passado para criarem autênticas realidades no presente. Por outro lado, toda a fantasia está envolta num clima misterioso e místico. Muitas vezes não se sabe como determinada obra nasceu, nem mesmo o seu criador, e esse mistério atrai também, pois coloca a arte algures entre o mundo material e o mundo espiritual, fazendo a ponte de ligação.

Apesar da fantasia ser algo que não existe realmente — o que existe é a sua representação — a influência que ela tem nas pessoas é muito significativa, pois proporciona a criado de novas realidades. O cinema e os filmes, os livros e as letras, o teatro e os actores, são tudo realidades — coisas que existem como suportes da fantasia — mas as histórias e os enredos que se representam nessas formas de expressão não existem realmente — são a pura fantasia — no entanto, as ideias e as mensagens que se passam através dessas representações são reais, e podem criar efeitos reais, tanto em quem as recebe, como em quem as emite devido ao retorno, como em todas as formas de emissão e recepção de mensagens.

A grande diferença é que a fantasia, devido à sua subtileza, permite um alargamento no campo da liberdade de criação e de expressão, que não seria possível nem permitido na sociedade humana, limitada e preconceituosa.

A fantasia tem também um papel determinante no desenvolvimento infantil. As crianças não são capazes de perceber a realidade, pois esta é demasiado complexa — até para os adultos — sendo a fantasia uma espécie de suavizador que permite que pelo menos parte da realidade seja compreendida.

Quase todas as histórias, contos e lendas infantis são mentira, mas as crianças percepcionam-nas como realidade. Para elas, todas essas histórias são verdade. E são verdade por dois motivos: por um lado são facilmente compreensíveis — são histórias simples que não exigem esforço mental porque não exigem recurso à realidade concreta; por outro lado têm sempre um fundo de verdade — transmitem um conjunto de informações que apelam à realidade — um tempo; um espaço; pessoas; animais — e por isso são facilmente aceitáveis por elas.

Mas o papel principal da fantasia nas crianças é que transmite sempre uma mensagem, uma lógica, que apesar de inserida num contexto irreal será determinante para a compreensão posterior da realidade.

O problema surge quando a criança já não é criança e continua a não distinguir a fantasia da realidade: vive no sonho, vive feliz — mas se acordar!...

 

 

 

 

 


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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Família

FAMÍLIA

 

 

A família é um conjunto de pessoas que partilham em comum alguns aspectos de intimidade. Tem como objectivo principal a organização entre adultos de forma a permitir a sobrevivência dos recém-nascidos. É uma organização natural que assegura a continuidade da espécie humana.

Mas a família é entendida das mais diversas formas.

Atribui-se a origem da família às reuniões antigas dos escravos ou criados em volta do seu chefe, dai nascer o chefe de família, e também à necessidade de organizar grupos para cultivar a terra quando os alimentos naturais escasseavam. Mas não serão estes os verdadeiros sentidos da família actual.

A família natural, análoga em todas as espécies animais, começa quando todos os seres jovens, no despertar da sua sexualidade, começam a sentir atracção pelo sexo oposto, com vista ao acasalamento. Qualquer casal, após a fase preliminar necessária para garantir correspondência quanto à disposição do corpo, pela excitação, acaba por copular. A cópula visa a concepção. Durante o período de gestação, a fêmea torna-se frágil até algum tempo após o nascimento do descendente. O macho, por sua vez, devido à afectividade que ganhou, causada pelo prazer sexual, protege-a, primeiro a ela, e depois também o recém-nascido. A desunião só acontece quando o novo ser sobrevive pelos próprios meios.

É assim com todos os animais, e com os humanos também. Mas os humanos, como são inteligentes, adaptaram a natureza às suas ideias artificiais. E da mesma forma que se alimentam não quando têm fome, mas nas horas marcadas para refeições, também não constituem família para garantir descendência mas para os mais variados fins.

A união natural — inevitável — apenas serve de base a todos os enquadramentos que estruturam a sociedade humana. A família é o primeiro e o último grau da sociedade humana, porque, por um lado, toda a sociedade tem uma componente familiar na sua estruturação, e por outro lado, todos os indivíduos pertencem a alguma família.

Assim, a família humana é importante não só para gerar descendentes, mas também para garantir segurança e entreajuda mútua, porque ao ser uma união de pessoas, faz mais força e gera mais poder. Serve também para proteger os mais desprotegidos, nomeadamente doentes e idosos, para além das crianças. Serve de base fundamental na transmissão de valores ideológicos, éticos e religiosos, pela educação. É também a base da organização social. Parte da família ou é a ela direccionada toda a sistematização política e económica, nomeadamente a concepção de direitos, liberdades e garantias. As regras da moral e ética, tradições e bons costumes, assim como as regras económicas, das heranças, impostos, consumo e propriedade de bens, estão também inter-relacionadas com a família.

Todos estes critérios levam à definição do que é uma família, onde começa e onde acaba, mas são de origem humana — artificial. A história descreve-nos muitas definições distintas da família: o chefe de família já foi a mulher; os idosos já foram abandonados para morrer; os filhos deficientes já foram assassinados; a poligamia e a poliandria já existiram; o casamento incestuoso e homossexual já existiu; o adultério masculino já foi aclamado; o casamento civil já foi proibido; o concubinato já foi admitido; etc; etc.

Todas estas variantes nas relações familiares e ainda muitas mais, já existiram e foram legais. A família apenas é o que a sociedade quiser que ela seja, apesar dessa decisão ser parcialmente inconsciente.

Apesar da família ser a grande fomentadora dos principais laços humanos, também é, por vezes, grande motivo de conflitos. O acto fundamental da construção familiar é o casamento. Qualquer pessoa ao casar passa a considerar o cônjuge, a pessoa mais importante da sua vida, sobrevalorizando-o em relação aos pais, não obstante, estes terem-na gerado e criado, e o cônjuge por vezes ser quase um desconhecido. E é desse desconhecido que vão ser gerados novos filhos e nascer nova família.

A família nasce no amor. E do amor nascem os filhos. Quando os filhos crescem, a chama do amor apaga-se. Talvez esta realidade seja a causa da elevada percentagem de infidelidade e divórcios, ainda que muitos casamentos sejam eternos e muitas famílias permaneçam unidas por outros motivos.

E o amor paternal, só os verdadeiros pais o sentem, e só eles o consideram demasiado aprazível e demasiado sublime para ser descritível.

 

 

 

 

 


publicado por sl às 00:18
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Sábado, 15 de Setembro de 2007

Educação

EDUCAÇÃO

 

 

Toda a criança normal nasce numa sociedade com valores estruturados, que englobam todos os aspectos culturais dessa sociedade. A criança, além de herdar biologicamente os genes dos progenitores, herda também os valores da sociedade em que nasce, por natureza cultural. Inconscientemente, as expressões dos pais para os seus bebés são as primeiras formas de os moldar. Os gestos, a linguagem, todos os comportamentos, usos e costumes dos pais são aprendidos pela criança devido às suas capacidades naturais de ir imitando os outros nas primeiras fases do crescimento.

A família sempre foi o palco dos primeiros ensinamentos. Ensinamentos estes que aconteciam de uma forma pouco estruturada e mais pelo prazer dos pais em verem os filhos crescerem. No entanto esta instituição tem vindo a perder terreno no mundo civilizado e vai sendo substituída pelos berçários e infantários, que vão tomando a dianteira em alguns ensinamentos até então só transmitidos na escola primária — excluir-se-ão deste desenvolvimento educacional todas as crianças que ainda actualmente não frequentam qualquer plano de educação programado, engordando a taxa de analfabetismo.

É na escola primária que são dados os primeiros passos na educação com regras e com civismo. Na escola primária ensina-se às crianças o que elas são capazes de aprender, e o que se pensa ser fundamental para servir de base ao crescimento civilizacional, cultural e social. São os sistemas educativos, compostos pelos regimes governamentais em primeiro lugar, e seguidamente pelos professores, educadores, encarregados de educação e pais, que determinam o que deve e o que não deve ser ensinado às crianças.

Até aqui, e muitas vezes mais ainda, as crianças não têm qualquer capacidade de decisão ou escolha na sua conduta educacional. Limitam-se a aprender o que os educadores ensinam, estando os educadores conscientes do que estão a ensinar e os educandos pouco conscientes do que estão a aprender.

Só entre a adolescência e a juventude é que se começa a criar um sentido vocacional mais formal que permite fazer as primeiras opções livres para o futuro, embora possam ainda ser muito apoiadas nos conselhos dos mais velhos. E, ainda que livres e conscientes todas estas opções são fortemente influenciadas por toda a aprendizagem inconsciente do passado.

Assim se conclui que todos os indivíduos são, culturalmente, fruto de um crescimento inconsciente determinado pela sociedade em que nasceram.

Se tivermos em conta que no passado poucos eram os que frequentavam o ensino oficial, sendo toda a base educacional fundamentada no saber de experiência feito e nos interesses e convicções dos mais velhos, e que os regimes educacionais fechados e de condutas de rigor extremo eram os únicos com planos curriculares, facilmente concluímos que a educação impunha limites, não só de acções, mas também de ideias, que produzia homens com pouca consciência da sua realidade.

A educação para a liberdade, para o conhecimento e para o crescimento intelectual, como realidade disponível para todos, é uma realidade recente, que só foi e é possível com o derrubar de barreiras fortemente edificadas pelas tradições, culturas, religiões, ideologias, e todos os demais arquétipos do passado.

A educação é muito importante tanto para o crescimento de uma pessoa como para o crescimento de uma sociedade ou civilização. Porque, se uma criança não for educada, ela vai crescer imitando os mais velhos que a rodeiam, em tudo o que eles têm de bom e de mau, e quando for adulta vai ser como eles — não há evolução — mas ainda que seja mais inteligente e separe o bem do mal, se não transmitir essa mensagem, a pouca contribuição para a evolução comum que poderia dar, será muito menor porque só acontecerá se os outros a imitarem, o que acontecerá casualmente, sem qualquer consciência, e esse crescimento facilmente se perderá.

Porque as mentalidades e as consciências só mudam através de gerações, em que os mais velhos vão educando os mais novos no sentido de evitar o que é errado e valorizar o que é correcto, dando preferência à educação que incentive a consciencialização o mais precocemente possível, para que cada indivíduo se possa responsabilizar dos seus actos e sofrer as suas consequências, de uma forma consistente e assumida, com compreensão e respeito pelos limites da vida, quer impostos pela natureza, quer impostos pela sociedade.

Só pela educação se podem criar sociedades em que cada pessoa viva com consciência, com carácter, com liberdade e com responsabilidade, em compreensão e em harmonia com todas as outras, e em que o respeito mútuo dos mais velhos seja a base da educação para os mais novos, para que estes possam criar uma sociedade ainda mais moderna, mais evoluída, mais inteligente, mais livre, e mais responsável.

E assim sucessivamente.

 


publicado por sl às 15:22
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