Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Justiça

 

JUSTIÇA

 

 

 

Se existem dois adultos para serem alimentados e uma galinha que vai servir de alimento, é justo que cada adulto coma metade da galinha. Se existe um adulto e uma criança, é justo que o adulto tenha direito a uma parte maior e a criança a uma parte menor.

  A justiça consiste na divisão dos bens pelos pretendentes que a eles tenham direito e nas devidas proporções. As proporções justas são as que atingem o maior nível de equilíbrio entre todas as partes.

A natureza é regida por leis absolutas que visam o equilíbrio entre todas as partes, e que são justas. No entanto, a justiça, mesmo natural é relativa. O equilíbrio justo só pode existir entre partes iguais cujos opostos se complementam, mas quando as partes são diferentes, a justiça para uma pode ser injusta para outras, apesar de todas contribuírem para o equilíbrio global da vida. Aqui, a justiça que prevalece é a das partes cujas forças sejam superiores — se a raposa tem duas lebres para comer, mas só uma é suficiente para saciar o seu apetite, a lebre que vai ser comida, se pensasse, consideraria injusto ser comida ela e não a outra, já que eram iguais; a raposa não iria deixar de comer porque morreria de fome, nem comeria as duas porque morreria empanturrada; também não comeria metade de cada uma, porque ao matar as duas ficava sem alimento para uma próxima refeição; assim, comer uma das lebres ao acaso é a maior justiça possível ainda que injusta para uma lebre; também a raposa servirá de alimento a seres vivos superiores e a lebre se alimentará de inferiores; mas a lebre nunca comerá a raposa porque na natureza tudo tem a sua ordem que é intransponível, mesmo parecendo injusta.

Poderá então concluir-se que as injustiças da natureza são inevitáveis e contribuem para o desenvolvimento da mesma, podendo assim tornarem-se justas se considerarmos a natureza no seu todo.

E com o homem, por ser filho da natureza, acontece exactamente a mesma coisa. Uma criança também é um ser humano, mas se o adulto lhe der a parte menor da galinha, aquela limita-se a comer essa parte porque, além de não ter a noção de justiça, não teria outra alternativa porque o adulto é mais forte que ela e domina-a.

A justiça é a divisão dos bens em partes justas, mas quem considera como é que as partes são justas é quem detém o poder. Quem tem mais força é quem domina e é quem determina o que é a justiça, como é quem faz as leis. E naturalmente fá-las de acordo com os seus interesses. É assim em todos os aspectos da sociedade humana, desde a economia à família, passando pela política.

Em todos os lugares onde se encontrem pelo menos duas pessoas conscientes — porque a justiça só faz sentido quando em consciência, pois não se consideram as opiniões de quem não se encontra em juízo perfeito — existem duas concepções diferentes de justiça. E prevalecerá aquela que for mais forte, com base nas capacidades de argumentação e de coacção ou em último recurso de força física.

A justiça é também uma das criações psicológicas causadas pela consciência, com influência das heranças culturais do passado, e das ideologias adoptadas, ou criadas pelos seus defensores. Está em permanente transformação evolutiva, conforme as novas realidades sociais e humanas — até ao século XIX, seria justo castigar o escravo que desobedecesse ao seu senhor, actualmente será justo punir o senhor que possua um escravo. Qualquer assembleia governativa aprova regularmente leis que determinam que certos actos e omissões passam a ser crime ou deixam de o ser.

Para além da justiça criminal, que visa defender a sociedade em geral, existem outras formas de justiça regulamentadas pelos diversos códigos — civil, comercial, eclesiástico, militar — ou não regulamentadas, mas subentendidas pela ética, moral, usos, costumes e tradições.

O sentido da justiça tem tido uma progressão que partiu do irracional, inconsciente e desumano, tornando-se cada vez mais racional, consciente e humano, podendo-se concluir que quanto mais juízo, mais justiça.

E só com justiça se viverá numa sociedade equilibrada, com o máximo possível de igualdade, dignidade, fraternidade e liberdade. Mas isso implicará responsabilidade, respeito e até alguma submissão e resignação. E este é que é o problema, porque, para alguém ganhar outrem tem de perder, e se é certo que o mundo é de todos, também é certo que todos desejam o poder sobre ele. E se a natureza nos dotou de um sentido de justiça, muito antes nos dotou também de um sentido de ambição.

Este é o nosso único mundo e nele viveremos naturalmente com justiças e injustiças, desejando a justiça ambicionada, só possível com a ambição justa.

 

 

 

 

 

 

 

 


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Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Instinto

INSTINTO

 

 

O homem tenta compreender pela sua inteligência e da forma mais racional possível tudo o que o rodeia. É assim com cada ser humano individual e é assim com o conjunto de todos os seres humanos de toda a história. Mas, o nível de capacidade de compreensão racional é limitado. Ou porque o é mesmo por natureza, ou porque o desenvolvimento ainda não é suficiente para a compreensão total ou mais elevada. Certamente a sua capacidade é limitada, mas os limites ainda não foram atingidos porque ainda se continua a evoluir. Só o futuro o dirá, mas no presente os factos são irrefutáveis, e dizem-nos que o homem ainda não compreende tudo o que o rodeia. E, apesar da subjectividade que esta afirmação pode compreender, porque se o homem sabe tudo porque tudo o que é sabível só o pode ser pelo homem, também o homem não sabe nada porque tudo o que ele sabe foi ele quem inventou, sem ninguém para além dele poder confirmar que está correcto, podendo assim estar tudo errado. E como o homem é insignificante perante a imensidão do universo, será exacto afirmar que o nível de conhecimento é menor que o nível de desconhecimento, de tudo o que existe.

O instinto é uma das coisas que o homem já sabe que existe, mas ainda não sabe porque existe. Como todas as coisas inexplicáveis começaram por ser atribuídas ao sobrenatural e passaram a ser atribuídas à natureza à medida que foram explicadas, também o instinto, apesar de ser parcialmente inexplicável é certamente natural. Ou talvez a explicação fique mesmo por aí, é assim, e natural, e basta.

Pois quando nós inadvertidamente pousamos a mão sobre o forno quente, sabemos que os sensores da pele ao sentirem o calor, enviam imediatamente uma mensagem ao cérebro, que este transforma numa ordem que faz os músculos agirem de forma a retirarem a mão do calor. Este processo é muito mais complexo quando explicado com pormenores científicos, mas a acção é tão rápida que podemos não a chegar a registar conscientemente. Sabemos que é assim, e sabemos como é com todos os pormenores, mas não sabemos porque é que é assim. É a natureza. E talvez a explicação mais plausível seja a regra de causa-efeito, cuja complexidade causa a acção, que por ser por natureza ínfima, não chega a ser compreensível conscientemente, e quando esmiuçada, acaba por se perder no nada. Porque o todo é mais do que a soma das partes, e o conhecimento das partes é insuficiente para explicar o todo.

Tudo o que acontece por instinto é tudo o que acontece por natureza, sem ser pensado. E como só o homem é que pensa — e nem sempre — então, tudo o que acontece para além do que é conscientemente planeado é instintivo. Mas, apesar dos movimentos cósmicos, atmosféricos, meteorológicos, florestais, aquáticos e de muitos outros movimentos minerais, vegetais e até animais e humanos, serem naturais, não significa que sejam instintivos. O sangue que corre nas veias, os pulmões que se dilatam e contraem, ou o cabelo que cresce, são movimentos que acontecem por natureza, mas que não podemos considerar instintivos, porque não os podemos controlar.

Assim, é instintivo todo o movimento natural que acontece inconscientemente, mas que é susceptível de poder acontecer conscientemente. Tudo o que acontece impensavelmente, mas que se considera que podia ser pensado. E como só o homem pensa, só ele pratica actos ou tem atitudes e comportamentos que são instintivos. E é ele que atribui aos animais as suas características instintivas, por serem os animais os seres vivos mais aproximados ao homem, e também dotados de inteligências inferiores, mais ou menos evoluídas conforme a sua espécie.

O instinto existe então em oposição à consciência. Só sabemos que não pensamos quando sabemos que podíamos ter pensado. Se não tivéssemos consciência nunca saberíamos que erramos. A consciência é também o suporte dos problemas psicológicos. Quando andamos com algum desequilíbrio psicológico, por preocupações, ansiedades, desejos, saudades, paixões, ódios ou remorsos em excesso, ficamos com a capacidade de pensar bloqueada, e o sangue “quente” que nos invade a mente leva-nos a praticar actos que só os outros ou nós mais tarde consideramos instintivos. No momento, como os animais, fazemos as coisas porque fazemos, naturalmente, com determinadas causas e efeitos, mas sem qualquer tipo de entendimento, compreensão, pensamento ou consciência.

Pelo meio fica tudo o que não é totalmente natural, nem totalmente consciente, e se mistura em doses de natureza e de consciência, que nos levam aos meandros da subjectividade, da diversidade e da reflexão.

 

 

 


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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Informação

 

INFORMAÇÃO

 

 

Entende-se por informação qualquer conjunto de dados registados numa memória, que serão interpretados por alguém.

É informação o conjunto dos nossos conhecimentos e recordações, alojadas na nossa memória, que reside no nosso cérebro. É informação todo o conteúdo de um livro e de todos os livros, jornais, revistas e documentos de todas as bibliotecas. É informação tudo o que está gravado em qualquer material desde os mais primitivos aos mais evoluídos: desde os fósseis, pinturas rupestres e rumas; passando pelos monumentos pré-históricos e seculares, pergaminhos, trajes e armas; por todas as expressões artísticas — esculturas, quadros em relevo, pintura, arquitectura, música, canções e teatro — e mais recentemente pela fotografia, pelos discos de vinil e fitas magnéticas de audio, também pelo cinema e vídeo, e pelos actuais discos de leitura “lazer” que registam informação das mais diversas formas; até às bandas magnéticas e micro-chips electrónicos em cartões que suportam muita informação em muito pouco material. Tudo é informação.

A informação em si é uma coisa passiva e inerte, mas a sua implicação no que lhe está inerente torna-a de uma importância extraordinária. A informação é o propulsor da evolução humana porque tudo o que caracteriza a evolução humana está em correlação com tudo o que caracteriza a informação.

Para existir informação é necessário existir matéria que a suporte; é necessário existir linguagem que a enrede; é necessário existir energia que a reproduza; e é necessário existir inteligência que a compreenda, porque, toda a informação é artificial e existe de e para o homem. Por analogia, a natureza tem a sua informação genética e biológica que se auto-reproduz. Também a informação humana caracteriza-se principalmente pelo facto de poder ser reproduzida — de nada servia gravar um disco que nunca pudesse ser ouvido ou escrever um livro que nunca pudesse ser lido.

O facto da informação poder ser reproduzida é que é a chave para o desenvolvimento humano. Se alguém pratica um acto e pode depois ver como o praticou, corrigirá possíveis erros e irá, no futuro, praticar o mesmo acto com mais perfeição. Entra também aqui o facto de o homem ser o único ser com consciência dos seus actos. Subentende-se assim o que a experiência proporcionará em milhares de anos. Repare-se ainda no crescimento cada vez mais galopante dos últimos anos em que a era da informação se tornou uma realidade. Um adolescente de hoje com um computador em casa ligado à internet tem acesso a mais informação que todos os habitantes do planeta há cem anos.

A informação é muito importante porque a sua reprodutibilidade transforma-a atemporal. Só com informação se consegue analisar um acontecimento do passado ou prever um acontecimento futuro. E como a transmissão da informação, além de poder acontecer de uma pessoa para ela própria, pode também acontecer de uma pessoa para muitas outras. É assim geradora de opiniões, conceitos, juízos e valores psicológicos — o romantismo do século XIX só existiu porque alguns autores no início desse século o fomentaram.

As novas tecnologias da informação, através da informática e audiovisual, encurtaram as distâncias no mundo, transformando todo o planeta numa “aldeia global” em que todos têm acesso a tudo em todo o lado — todos os que têm acesso às tecnologias. Mas, repare-se que este encurtamento é psicológico e artificial, como toda a informação é psicológica e artificial, criada pelo homem — se falhar a tecnologia, Nova Yorque fica do outro lado do oceano a milhares de quilómetros em relação a Lisboa, e apesar dos meios de transporte serem evoluídos, nunca alcançarão a velocidade da transmissão de informação que é instantânea.

A era da informação caracteriza-se também pela existência de inteligência artificial, só possível devido a grandes memórias artificiais usadas por automatismos próprios e com determinadas energias.

Também a inteligência humana consiste na capacidade de uso da informação que cada um tem na sua memória.

Um computador pode ter registados na sua memória todos os livros de uma biblioteca, mas isso de nada servirá se não tiver um programa que os ordene, procure e edite. Os programas informáticos são também informação memorizada com o fim de trabalhar outra informação.

Talvez ninguém imagine a quantidade de “bits” e “bytes” que seriam necessários para suportar toda a memória de recordações, instruções, conceitos, desejos, medos e tudo o mais que um ser humano compreende: “saber que o dia ‘x’ é um de tantos que tem tal mês entre outros doze do ano tal depois de Cristo, porque se contam assim os anos após o acerto do calendário pelo movimento do planeta em relação ao sol que é uma estrela porque... e foi nesse dia que ele nasceu; ou saber que o sapato preto diz bem com o fato azul porque esta é a cor do céu que se vê da janela do escritório para onde tem que se dirigir e causar boa impressão se não se perder em conversas fúteis e chegar atrasado porque... e tem que o calçar no pé”.

Tudo o que o homem sabe é informação. Tudo o mais que existe é natureza. Tudo o que faz conscientemente é porque está informado. Tudo o que faz inconscientemente é pura natureza. Quanta mais informação o homem tiver, mais consciente será.

 

 

 

 

 

 


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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Inconsciente

 

INCONSCIENTE

 

 

 

 

Entende-se por inconsciente toda a actividade existente no nosso cérebro que está fora do nosso domínio racional.

 

Tudo aquilo que nós fazemos sem nos apercebermos que estamos a fazer, tal como respirar, ver, ouvir, tactear, cheirar, saborear, dormir, sonhar, etc; e todos os sentimentos físicos e emocionais como sentir dor, sentir frio e calor; sentir fome, sede e sono; sentir cansaço, comichão e arrepios; sentir admiração, medo e repugnância; corar, transpirar, tremer, suspirar, bocejar e chorar; sentir prazer e ódio; sentir gosto, desejo, saudade e compaixão; sentir amor; sentir constrangimento, arrependimento e orgulho; sentir excitação e alegria, depressão e tristeza; tudo isto e muito mais são reacções produzidas no nosso corpo devido a ordens dadas pelo nosso cérebro inconscientemente, embora posteriormente possamos ter consciência disso.

Os sentidos podem ser usados por nós conscientemente ou inconscientemente — podemos procurar uma coisa para a ver ou podemos ver uma coisa que nos desperta interesse sem a termos procurado — mas os sentimentos, sensações ou emoções são reacções originadas inconscientemente. É o inconsciente existente no cérebro que determina o limite máximo de temperatura que o corpo pode receber, e ao atingir esse limite “dispara um alarme” que avisa a consciência que se tem que evitar o calor. Assim como para todos os limites do corpo. Se não obedecermos conscientemente às ordens vindas do cérebro — produzidas do inconsciente para o consciente — acabamos por obedecer inconscientemente e inconscientes. O nosso inconsciente domina o nosso consciente e o consciente tem que respeitar as ordens vindas do inconsciente. Se o inconsciente nos diz “não podes mais”, e nós conscientemente dizemos “ainda posso mais”, poderemos ainda mais certamente, porque o inconsciente avisa-nos com uma margem de segurança, mas se continuarmos a insistir, o inconsciente continua-nos a avisar, e, ou paramos enquanto é tempo de recuperar ou atingimos os limites e ficamos inconscientes, ou podemos até morrer.

O inconsciente humano é formado por duas grandes vertentes sentimentais. Existem os sentimentos físicos que são memorizados no inconsciente através dos sentidos e que provêm da natureza, do homem como animal, irracionalmente e inconscientemente — como a dor, a fome, o frio — análogos a todos os outros animais, e existem os sentimentos humanos, também memorizados no inconsciente, e também através dos sentidos, mas estes passaram primeiro pelo consciente ou consciência. Os sentimentos humanos não são inatos como os físicos, mas pelo contrário, aprendem-se. Aprendem-se pela educação (cultura/religião) e valorizam-se ou não na consciência. Conforme se valorizarem na consciência, é também assim que ficam memorizados no inconsciente. E será conforme esses valores que o nosso inconsciente nos vai alertar. No entanto o nosso inconsciente regista tudo, e se nós agora pensarmos de uma forma oposta à que pensávamos no passado, em relação a determinado assunto, se o inconsciente tiver que nos enviar alguma mensagem relacionada com esse assunto, tanto pode corresponder ao que nós agora pensamos como opor-se. E uma mensagem oposta ao nosso consciente provocará conflito [dissonância cognitiva] — se eu não quero chorar e sei que não devo chorar perante determinada situação mas não consigo deixar de o fazer, significa que o inconsciente está a dominar.

Nós devemos respeitar o inconsciente, pois ele é poderosíssimo e não o devemos desafiar, pois ele vencerá sempre. É-nos muito útil na nossa protecção e equilíbrio pessoal, mas nós apenas devemos dar-lhe valor no que respeita aos avisos que ele nos faz. Devemos valorizar mais a consciência.

O nosso consciente, ao contrário do inconsciente, é tudo a que temos acesso pelo cérebro, em perfeito estado de raciocínio, vigilantes e alertas. Quanto mais perfeita, forte e segura, for a nossa consciência, mais estaremos conscientes, e logo, menos possibilidades damos ao inconsciente de intervir.

O inconsciente é importante porque nos defende dos perigos e nos guarda toda a informação do nosso passado. Tem uma capacidade infinita se pensarmos que cada segundo o nosso cérebro recebe dezenas de estímulos ou mensagens, permanentemente, sendo a maior parte delas armazenadas directamente na memória inconsciente, sem nos apercebermos delas.

Mas a nossa vida de humanos, racionais, e conscientes do que somos, tem que ser vivida com consciência, raciocínio, sabedoria, inteligência e saúde. Se nós não temos essa segurança que nos vem da consciência, deixamos caminho aberto para o inconsciente.

Teorias dizem que o nosso cérebro funciona noventa e cinco por cento inconscientemente e apenas cinco por cento conscientemente. Nós vivemos racionalmente com essa pequena percentagem. Se estivermos inseguros, deprimidos, doentes, ou em qualquer estado de consciência alterada, então o inconsciente apodera-se dela e manifesta-se, das mais diversa formas. E se não recuperarmos a consciência viveremos inconscientes, com uma personalidade alterada e demente.

O inconsciente é irracional, os animais também o têm. O consciente é racional, só os humanos têm consciência daquilo que são. É na racionalidade e consciência que nos diferenciamos dos animais, mas por muito racionais que sejamos, o nosso inconsciente será sempre maior que o nosso consciente, porque antes de nós pensarmos, já sentimos, e antes de nós sermos humanos, somos animais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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Sábado, 19 de Janeiro de 2008

Filosofia

FILOSOFIA

 

 

Ciência que estuda o conhecimento humano.

Quem somos?! De onde vimos?! Para onde vamos?! Porque existimos?!... A filosofia tenta responder a estas e muitas outras questões que o ser humano põe a si próprio. E põe a si próprio porque o seu conhecimento já concluiu que neste momento não existe qualquer ser mais inteligente que ele. Todo o conhecimento que o homem possui não lhe foi transmitido por qualquer outro ser superior, mas foi ele próprio que o foi descobrindo lentamente com a sua experiência de vida, num processo de evolução lenta e progressiva.

Os primeiros seres humanos com inteligência existiram há centenas de milhares de anos. Entre eles e nós existiu sempre uma continuidade vital pelas linhas da descendência que foi transmitindo a vida biológica pela herança genética natural, e a vida cultural e psicológica pela herança do conhecimento — naturalmente ambas correlacionadas. Sabendo que a diferença etária média entre gerações é de cerca de uma dezena de anos, concluímos que existiram milhares de gerações entre eles e nós, formando uma árvore genealógica infinita.

A experiência da vida, no contacto com a realidade, ensina-nos a reagir para sobreviver. Com inteligência podemos transmitir essa experiência aos descendentes. Um pai ensina o que sabe ao filho. Este, por sua vez, vai ensinar ao seu filho o que o pai lhe ensinou, acrescentado do que aprendeu por experiência própria. E assim sucessivamente.

O conhecimento é transmitido mais aperfeiçoado quantas mais forem as gerações directamente em conexão. Em toda a evolução humana, quanto mais recente for a geração, maior será a sua inteligência e conhecimento da vida, embora casualmente isso possa não acontecer.

As teorias do conhecimento místicas e religiosas, por surgirem antes das teorias científicas, não poderão ser mais correctas que estas. No mundo do conhecimento, independentemente das nossas ideologias e convicções, a ciência caminha na dianteira.

A verdadeira filosofia não é a filosofia dos arquétipos do passado, nem a filosofia do conhecimento pelo conhecimento — como se ensina muito nas escolas e universidades — mas a filosofia do conhecimento pela utilidade prática e de crescimento humano, tendo em conta, naturalmente, todo o conhecimento do passado, mas coadjuvado com os conhecimentos do presente, cada vez mais eloquentes.

E o verdadeiro filósofo não é o que conhece a filosofia, mas o que vive de acordo com as suas ideias... que poderão ser futuristas ou retrógradas. No entanto, o futuro é sempre próximo e o passado pode ser longínquo. E o retrocesso é antinatural.

 

 

 

 

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Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Fama

FAMA

 

 

A fama é o conhecimento que os outros têm de nós.

Todos vivemos em sociedade e vivemos numa sociedade consciente porque somos civilizados e sabemos que existimos entre outros. Todos temos relacionamentos sócio-culturais com outros, na família, na escola, no trabalho, na igreja, no desporto, na rua, nos transportes, nas festas e em todos os lugares públicos que todos podem frequentar ou em todos os lugares particulares frequentados por alguns.

Temos ainda relacionamentos sociais sem contactos físicos quando dos nossos espaços reservados comunicamos com os outros pelos meios que a tecnologia nos permite — carta, telefone, fax e e-mail. Conhecem-se melhor duas pessoas que comunicam frequentemente por escrito ou telefone entre dois continentes e que nunca se encontraram, do que duas pessoas que se cruzam diariamente na mesma rua, mas que nunca se falaram.

Mas a fama vai mais além porque não exige que o conhecimento seja recíproco. Para uma pessoa ser famosa basta que os outros tenham conhecimento dela independentemente dela ter ou não conhecimento deles. Aliás, quanto maior for a fama menor será a reciprocidade, porque, quantas mais pessoas conhecerem uma, menor será a probabilidade desta conhecer as primeiras.

A fama pode ser boa ou má. É boa quando o motivo que tornou a pessoa famosa é socialmente útil, culturalmente enriquecedora e moralmente aceite, e é má quando acontece o oposto.

Pode também ser voluntária ou involuntária. É voluntária quando é a própria pessoa que conscientemente deseja ser conhecida e age no sentido de se dar a conhecer. E é involuntária quando a autoria de algo invulgar, ou acontecimento particular, desencadeia uma acção de divulgação que ninguém consegue controlar.

A fama, como tudo na vida, tem vantagens e desvantagens. O reconhecimento público de alguém é motivo de orgulho, honra e glória e até auto-realização e poder, se esse alguém goza de boa fama. Mas poderá ser o oposto se goza de má fama. No entanto, na fama, estão sempre em jogo os critérios dos valores das pessoas famosas contra os das pessoas que lhes atribuíram a fama. A fama pode ter uma evolução progressiva, brusca ou até póstuma, mas sempre que acontece com pessoas vivas, limita-lhes a liberdade individual por se tornarem figuras públicas. Uma pessoa famosa pode por um lado fazer mais o que quer porque tem poder, mas por outro não pode fazer tanto o que quer porque está permanentemente a ser observada. A fama projecta-nos na sociedade, mas limita-nos a liberdade.

Os meios de comunicação social, cada vez mais influentes, são os principais geradores de fama, por transformarem públicos os aspectos particulares das pessoas.

Como o excesso de fama seria a falta de individualidade, e o excesso de individualidade seria a falta de contactos sociais, e como todos necessitamos simultaneamente de individualidade e de sociabilidade, cada um terá que encontrar a dose certa de cada parte para ter a fama que deseja, não esquecendo que a vida não é só o que nós queremos, mas também o que os outros querem, e o que a natureza permite.

 

 

 

 


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Domingo, 18 de Novembro de 2007

Evolução

 

EVOLUÇÃO

 

 

Falar de evolução no sentido abstracto do termo significa falar de evolução humana. O Homem é um ser em constante evolução. Desde que se conhece e até onde se conhece — caminhando em direcção ao passado — sempre existiu evoluindo, no sentido em que ele próprio se considera evoluir.

Apesar de alguns indícios indicarem a existência de civilizações evoluídas no passado, no conhecimento científico actual, esses indícios não são considerados verdadeiros, perdendo-se assim o conhecimento do passado nos meandros do esquecimento, embora direccionado para a involução até à própria natureza, cada vez mais no sentido bruto.

Segundo as teorias mais consensuais do mundo científico, tudo existe na natureza, representado por átomos e em duas formas: matéria e energia. Como ambas se transformam uma na outra, então uma e a outra são a mesma.

Os átomos — e tudo o que os compreende — todos juntos formam tudo o que existe, desde a maior inactividade à maior actividade. Uma rocha é uma composição de matéria permanentemente inactiva, e um coração é uma composição de matéria permanentemente activa — sob o ponto de vista humano.

Assim, dentro dos limites do conhecimento — humano — porque não conhecemos a verdadeira origem do universo nem a sua evolução, se é que existem, pois todas as afirmações a isto referentes são teorias não comprovadas, ainda que lógicas — toda a evolução segue no sentido da maior simplicidade, na composição atómica, para a maior complexidade, dessa composição.

Se colocarmos num recipiente areia, água e azeite e agitarmos tudo, obteremos uma mistura homogénea. Se deixarmos de agitar, os três elementos separam-se. Também se imagina que no início dos tempos toda a composição da vida se encontrava igualmente misturada numa massa homogénea, que, com o passar dos tempos e com a estabilidade cósmica, cada vez mais os elementos foram-se diferenciando do todo, agrupando por partes, e reunindo essas partes em doses complexas que originaram a vida.

No sentido inverso, e imaginando para melhor compreensão, se reuníssemos um elefante, uma árvore, um automóvel, e uma viga de betão armado, e ralássemos tudo o mais possível, obteríamos uma pasta com peso, densidade, humidade, pressão, temperatura, cor e outras características específicas. Ninguém conseguiria localizar e extrair dessa pasta o sangue ou a pele do elefante, a madeira ou o fruto da árvore, a gasolina ou o vidro do automóvel, e o cimento ou o ferro da viga, mas tudo estava lá.

A separação das partículas elementares da matéria e a sua reorganização, são o resultado de muitos milhões de anos de estabilidade e de reunião de condições de evolução, começando por serem criadas as matérias inorgânicas e depois as matérias orgânicas que deram origem à vida. Os minerais, vegetais, animais e por fim os humanos, são todos provenientes dessa massa inicial, e existem desde as formas mais simples às mais complexas.

A evolução é a criação de coisas novas com base nas anteriores. Tudo existe na natureza desde o princípio ou desde sempre e é apenas transformado para maior complexização,

A evolução da vida na natureza, vegetal e animal, precede a evolução humana, mas ambas seguem os mesmos trajectos, até porque a evolução humana também é natural. Os seres vivos evoluem conforme a teoria da evolução natural das espécies, em que o ser mais forte vence sempre, tornando-se o gerador de descendência.

O homem é o ser vivo mais evoluído porque possuí o sistema mais complexo de organização celular. Todos os seres vivos são organizações de células. As células são a mais elementar matéria viva. São diversificadas conforme a sua estrutura molecular formada pela composição atómica. Os átomos — matéria ou energia — que formam as moléculas que formam o sistema nervoso do corpo humano, são a mais evoluída estrutura de matéria viva natural. Por isso criaram o pós-material: o espiritual.

O espiritual nasceu com a linguagem e a consciência, e toda a evolução artificial nasceu também daí. A evolução humana é originada na sua inteligência. Com ela, o homem domesticou animais, cultivou plantas, criou sociedades civilizadas, dominou muitos obstáculos naturais, e começou a conhecer-se a si próprio e ao lugar que ocupa na natureza. Cada nova geração é mais evoluída que a anterior porque acumula os ensinamentos precedentes com a experiência própria.

A evolução artística, económica, social, tecnológica e científica, é idêntica à evolução natural. A opinião do mais forte é a que prevalece. Mas o mais forte pode não ser o mais inteligente, e por isso toda a criação humana é de uma artificialidade de segurança relativa. A evolução humana não é totalmente consciente. Evoluímos na direcção que a natureza nos permite e que queremos, mas não sabemos porque queremos, porque ninguém controla nem explica a evolução.

E se a natureza é de uma diversificação imensa, que criou infinitas formas de vida, não sabemos se a sua própria evolução e principalmente se a nossa evolução humana, é a única forma de evolução ou se é uma de muitas variantes possíveis, porque tudo o que nós – humanos — sabemos, aprendemos pelos nossos próprios meios — ninguém mais inteligente nos ensinou nada — e podemos estar totalmente errados.

Enquanto não acontecer nenhuma catástrofe a nível planetário, e a estabilidade natural e a vida se mantiverem, continuaremos a evoluir, e poderemos um dia saber porquê — ou não.

 

 


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Sábado, 6 de Outubro de 2007

Equilíbrio

EQUILÍBRIO

 

 

O equilíbrio é uma das principais bases da vida. Tudo na vida necessita de equilíbrio. O equilíbrio representa também a harmonia e a justiça. Repare-se na balança como símbolo da justiça. Tudo está bem quando está equilibrado e tudo está mal quando há desequilíbrio.

A existência de equilíbrio — ou desequilíbrio — implica a existência de, pelo menos, duas forças opostas. Não podemos falar de equilíbrio de um só elemento simples. Poderíamos sim, falar de forças opostas que compõem um elemento para lhe darem equilíbrio.

A vida, em todas as vertentes de que é composta e mais que pudéssemos imaginar, desde a parte mais divisível do átomo até ao imensurável universo, ou artificialmente, desde a natureza à maior criação do homem, seja ela tecnológica, artística, ideológica, religiosa, ou etc; tem sempre uma coisa e o seu oposto. E cada coisa é o complemento do seu oposto. O bem é o oposto do mal, mas um só existe porque existe o outro. A existência de uma coisa implica a existência do seu oposto. A própria existência só é considerada tendo em conta a inexistência, que é o seu oposto. O oposto de qualquer coisa é o complemento dessa coisa, e juntos formam um ciclo que vai desde os extremos à união, ou equilíbrio.

Mas o equilíbrio existe na vida não só numa coisa e no seu oposto — apenas duas forças, como base explicativa simplificada — mas essencialmente numa enorme complexidade de forças opostas e complementares. O equilíbrio existe também tendo em conta a relatividade das forças. Os opostos são os extremos que se tentam impor, mas a unidade deles é o equilíbrio que o não permite, assim, existe também equilíbrio entre o equilíbrio e a falta dele.

Vamos considerar como exemplo explicativo, a temperatura: a temperatura é composta de duas forças opostas que se complementam —  o calor e a falta dele, ou o frio e a falta dele, ou apenas o calor e o frio. Uma força implica a existência da outra. São forças opostas — onde está calor não pode estar frio e onde está frio não pode estar calor — que nos extremos são inconvenientes — muito calor ou só calor e muito frio ou só frio são inconcebíveis — e que se complementam — a mistura de calor com frio cria a temperatura ideal, agradável, necessária ou aconselhável.

Mas o equilíbrio da temperatura só é avaliado por estas duas forças se quisermos falar só e abstractamente de temperatura. Pois a complexidade do equilíbrio aumenta quando aumentam as condicionantes. Por exemplo, a temperatura — calor e frio — sempre existiu, anteriormente ao homem, foi o homem que lhe atribuiu a medida, e só o pode fazer criando outra forma de equilíbrio/oposição com a água: com zero graus, a água solidifica e aos cem graus evapora. O equilíbrio entre a temperatura e qualquer coisa só se pode considerar tendo em conta a relação entre a temperatura e essa coisa, existindo sempre um balanceamento entre as duas partes. O equilíbrio entre a temperatura e o ambiente é cerca de 18 graus centígrados; entre a temperatura e o corpo humano é cerca de 37 graus. Aqui apenas temos duas condicionantes ou duas forças ou duas variáveis, mas se considerarmos o fogo, por exemplo, já é necessária uma terceira força que vai condicionar o equilíbrio: calor (temperatura), oxigénio e combustível. Se o combustível for gasóleo e existindo oxigénio, só se alcança o fogo a uma temperatura de 70 graus; com petróleo alcança-se apenas com 38 graus; com álcool etílico bastam 13 graus; e com gasolina, mesmo a 40 graus negativos conseguimos o fogo. Diferentes combustíveis exigem diferentes temperaturas para com o mesmo oxigénio conseguirmos o mesmo efeito, o fogo.

O equilíbrio existe sempre na relação dos opostos. Os opostos são as partes que compõem a unidade, num mínimo de duas e sem limite máximo — o planeta Terra é uma unidade composta por infinitas partes em equilíbrio umas com as outras.

A água é um elemento natural, quimicamente composto, e só existe devido ao equilíbrio entre as partes que a compõem — duas partes de hidrogénio para uma de oxigénio. Se tivermos hidrogénio e oxigénio sem estarem combinados na medida certa para formarem a água, nunca obteremos água. Por seu lado, o hidrogénio e o oxigénio são elementos químicos simples, mas que precisam ter equilíbrio na sua própria estrutura atómica. Uma molécula de oxigénio é composta por dois átomos — se este se condensar e a molécula passar a ter três átomos de oxigénio, passa a ser ozono. Desde o elemento mais simples da natureza, à fórmula mais complicada, tudo tem que estar em equilíbrio consigo próprio e com tudo o que o rodeia.

Este princípio, apesar dos exemplos citados serem apenas físicos e químicos, aplica-se também ao homem em todo o seu ser.

Fisicamente, a anorexia e a bulimia são extremos doentios que causam outras doenças por desequilíbrios alimentares. A falta ou excesso de sono, de trabalho e de estudo, são exemplos de desequilíbrios que o corpo sente e alerta quando se atingem os limites. Alerta pela doença, e a pessoa é obrigada a parar. Se não parar, o equilíbrio pode tornar-se demasiado e a pessoa morre. A lei natural do equilíbrio é peremptória.

Psicologicamente, pela falta de ideais, de projectos, de actividade criativa e recreativa, ou pelo excesso de responsabilidade, de desgostos, e por toda a espécie de distúrbios psicológicos e emocionais.

Socialmente, também os desequilíbrios causam mal-estar pela pobreza, desemprego, falta de habitação, e outras necessidades elementares, ou pelo excesso de trânsito, poluição, alcoolismo e droga.

Politicamente, tem que haver equilíbrio entre os governantes e os governados, entre o poder e a oposição, entre os vários estados e entre os vários regimes. E também a história é vasta em exemplos de batalhas sangrentas devido a desequilíbrios políticos.

E, economicamente, existem os equilíbrios dos mercados, a relação de compra e venda, o valor do dinheiro e dos produtos pelo qual são trocados, a relação ganho-perda, as mais e as menos-valias, os empréstimos, os créditos, as taxas de juro, os câmbios, os índices bolsistas, as remunerações, a inflação, o poder de compra, os impostos, tudo se relaciona dentro do mais possível equilíbrio para evitar falências e enriquecimentos desmedidos.

O equilíbrio é o ideal para a vida humana e da natureza, no entanto existe em correlação com outras realidades também humanas e também naturais. Entre elas a ambição e o desejo do poder por parte do homem e a lei do mais forte por parte da natureza. Estas realidades, sempre presentes naturalmente na vida conhecida, são por um lado causa de fortes desequilíbrios, gerando as maiores guerras — sociais, políticas, económicas, militares e mesmo religiosas, raciais ou tribais — das quais nascem os maiores desequilíbrios globais, principalmente entre ricos e pobres, civilizados e terceiro-mundistas. Mas por outro lado são também motivo de crescimento civilizacional, tecnológico, científico e cultural.

Pode-se concluir que também neste aspecto há equilíbrio, tendo presente que a necessidade de construção e uso de poderosas armas foi causa de grandes descobertas médico-científicas.

Os ricos e os pobres são as duas faces da mesma moeda. Como o são o bem e o mal, o amor e o ódio, o alto e o baixo, o dentro e o fora, o forte e o frágil, o masculino e o feminino, o direito e o esquerdo, o certo e o errado, o simples e o complexo, o prazer e a dor, a realidade e a imaginação, a verdade e a mentira, o tudo e o nada, o principio e o fim, o equilíbrio e o desequilíbrio — tudo existe em relação a outra coisa e numa relação de forças. O equilíbrio entre as duas partes, ou todas as partes, será o ideal.

Sempre que algo está mal, essa anomalia deve-se a um desequilíbrio entre duas forças, que podem ser desmultiplicadas devido às possíveis diversas variáveis. Deve-se identificar qual o elemento que provoca o desequilíbrio, e o erro corrige-se aumentando a força do elemento oposto. Mas apenas podemos fazer correcções nas pequenas coisas pessoais. Ao nível global será sempre a lei da maioria, da qual nós podemos fazer parte.

E a lei do mais forte é relativa. Um homem só nada vale contra um milhão de outros homens, mas se possui uma bomba atómica!...

 


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Sábado, 4 de Agosto de 2007

Destino

DESTINO

 

 

O destino pode-se entender de duas formas. Neste texto vamos pôr de parte o destino concreto e racional, ou seja, aquele local para onde sabemos que caminhamos, e vamos apenas referir-nos ao destino desconhecido — a sorte ou o fado — que nós guiamos apesar de considerarmos que é ele que nos guia.

As estrelas traçaram no destino a esperança que este texto transforme o triste fado do passado numa vida cheia de sorte no futuro. E isto só acontecerá para quem é supersticioso e acredita no destino, deixando de acreditar nele após a sua compreensão.

Pois de facto, este destino não existe. O destino previamente demarcado por alguém ou por alguma coisa para determinar a orientação da vida de alguém é pura ficção. Ninguém tem um destino ou um fado previamente determinado. Todas as atribuições ao destino nesse sentido são pura superstição ou ignorância. O destino não existe como realidade.

Todos nós temos um passado, que existe desde que nascemos até agora. Temos um presente que é o momento que estamos a viver agora — e que já é passado — porque estas já são outras palavras, e o nosso presente agora é este, aqui, nesta palavra, que vai correndo como o movimento dos olhos e a recepção no cérebro. Só este é presente. Tudo o que está para trás é passado e o que está para a frente é futuro. Tudo o que está escrito a partir daqui é futuro. O próximo parágrafo é futuro.

Mas deixa de ser futuro, e passa a ser presente enquanto que o parágrafo anterior passou a ser passado. Se fosse possível, no presente, saber qual o destino futuro, não haveria necessidade de alcançar o futuro, pois poderia antecipar-se ou adiar-se a sua vivência. Mas não é possível, e daí a sua necessidade de o viver. No entanto, é no presente que se decide, parcialmente e perante as mais variadas circunstâncias, o que vai ser o futuro. Existem coisas que somos obrigados a seguir, perante as leis da sociedade e da natureza, sem hipóteses de escolha — são as leis da vida e não destino — e existem coisas que nós podemos escolher livremente, por opção consciente — se houvesse destino não teríamos qualquer hipótese de escolha.

Seguidamente vai ser apresentado um pequeno teste que prova que o destino não está traçado, que somos nós que o vamos traçando e que nem tudo depende de nós. Chama-se a atenção para que este teste seja realizado uma única vez, seguindo-se cada passo correctamente, pois uma vez realizado não faz sentido a sua repetição.

Pede-se ao leitor para que escolha um dos seguintes números: 4, 14, 24, 34, 134, 234 e 1234. Imagine que o número que escolheu é o seu número da sorte. Se houvesse destino, e o leitor fosse um leitor com sorte, confirmaria de seguida o seu número, ou se fosse um leitor com azar não o confirmaria. No entanto, essa confirmação vai ser o leitor que vai ser levado a faze-la, e apesar de estar consciente que as suas decisões confirmarão ou não a sua sorte, não terá consciência de como isso acontecerá, e será da seguinte forma:

Conserve na sua memória, ou escreva num papel, o número que escolheu para não se esquecer qual foi, e de seguida vai escolher uma das seguintes letras, A, B, C e D, que correspondem aos quatro seguintes parágrafos, e vai continuar a sua leitura no parágrafo que escolheu (se escolheu o A continue no parágrafo A, se escolheu o B avance para o parágrafo B, se escolheu o C avance para C, e se escolheu o D avance para D) a partir de agora.

Parágrafo A: Se este foi o parágrafo que escolheu em primeiro lugar deve memorizar o algarismo 1 (um); e de seguida escolher um dos outros três parágrafos e continuar a leitura nele (se escolheu o B continue em B, se foi o C avance para C, e se foi o D avance para D).

Parágrafo B: Se este foi o parágrafo que escolheu deve memorizar o algarismo 2 (dois); escolher um dos outros dois parágrafos e continuar a leitura nele (se escolheu o C continue no parágrafo C e se escolheu o D avance para o parágrafo D).

Parágrafo C: Se este foi o parágrafo que escolheu deve memorizar o algarismo 3 (três); e como só tem mais um parágrafo, não tem qualquer hipótese de escolha, terá que continuar a leitura no parágrafo D.

Parágrafo D: Memorize o algarismo 4 (quatro), e continue a leitura.

Recorde agora todos os passos que escolheu e quais os algarismos que foi convidado a memorizar colocando-os na ordem da memorização. Com eles formará um número, que confirma, ou não, o número previamente escolhido. Por exemplo, se havia escolhido o número 4 e escolheu o parágrafo D confirmou a sua escolha.

Se houvesse destino bastaria ter escolhido o algarismo 4 e não haveria necessidade de o confirmar. A selecção dos parágrafos, da mesma forma que pode ter confirmado a primeira escolha também a pode ter desconfirmado. Na primeira escolha apenas terá havido espontaneidade, mas na segunda poderá já ter havido planeamento. Na vida somos também obrigados a tomar opções espontâneas, e a tomar decisões planeadas. Com ambas vamos traçando o nosso destino, que não existe à priori, mas que se vai formulando posteriormente. Somos levados a fazer muitas coisas que não compreendemos. Mas tudo tem explicação apesar de nós não a conhecermos. A ordem foi criada passo a passo. É o resultado de várias decisões que foram tomadas em cada momento. Ao escolher cada parágrafo, optando por um e rejeitando os outros, ou existia um motivo pessoal ou era mero acaso. Não era o destino que estava em jogo, mas a consciência e a liberdade de optar num momento exacto — optar bem ou mal — conforme os nossos desejos e o que as circunstâncias impõem. Ao escolher o primeiro parágrafo, como existiam quatro, em cada quatro hipóteses escolheria o que escolheu. Ao escolher o segundo, em cada três hipóteses escolheria o que escolheu. Ao escolher o terceiro, em cada duas vezes escolheria o que escolheu e deixava o outro para quarto sem qualquer hipótese de escolha.

Na vida, a cada momento, vamos optando e escolhendo um dos muitos caminhos que se nos apresentam, ou seguindo os caminhos que nos são impostos sem qualquer liberdade de escolha. Cada momento presente existe circundado de mais ou menos liberdade — assim como mais ou menos perdição — e é em cada momento presente que nós optamos ou não, trilhando a nossa vida, e deixando um rasto ao qual chamamos destino, mas que é apenas passado, fruto das nossas decisões. E é também em cada decisão de cada momento que podemos também influenciar todo o nosso futuro.

Saberemos melhor para onde se desloca um caracol se conhecermos o seu rasto. O nosso futuro prevê-se tendo em conta o passado e principalmente analisando as decisões do presente.

Se houvesse destino previamente marcado não haveria necessidade de nos preocuparmos com a vida, nem de lutarmos pelos nossos objectivos, nem de trabalharmos para crescermos. Pois se um homem nascesse predestinado a ser médico, não necessitaria de estudar porque seria médico pela força do destino, e se nascesse predestinado a não ser médico, ainda que muito estudasse, nunca o alcançaria — o que não é compreensível a qualquer raciocínio lógico.

A única possibilidade de alguém influenciar o nosso destino – futuro — está no facto de poder influenciar as nossas decisões ou decidir por nós. Só quem não tem capacidade mental, carácter ou responsabilidade, prefere que sejam os outros a decidirem por eles. E o seu destino é o que eles quiserem.

Quando alguém morre num acidente de automóvel por excesso de velocidade e se atribui a causa ao destino, seria mais racional atribuir a causa ao acto consciente de decidir carregar no pedal de aceleração.

Uma pessoa racional tem consciência de que a sua vida é feita de passado, presente e futuro — só irracionalmente se concebe a ideia de destino predeterminado.

 

 

 

 

 


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Domingo, 3 de Junho de 2007

Ciência

CIÊNCIA

 

 

“Conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios certos” — esta frase, adaptada, define o muito e o pouco que a ciência é.

Princípios certos são as manifestações que existem na natureza de forma abundante, repetitiva ou constante, que permitem ao homem a sua observação, registo, catalogação e outras formas de obtenção de dados que possibilitam o conhecimento de resultados de qualquer acção antes da sua existência real.

Para uma coisa existir cientificamente, essa coisa tem que ser observada várias vezes por várias pessoas capazes de a estudar exaustivamente para obterem o maior número de dados possíveis sobre todas as suas características, e por fim chegarem a um consenso sobre a sua realidade e a classificarem sobre todos os aspectos possíveis atribuindo-lhe um nome, e descrevendo todas as conclusões que a vão caracterizar como realidade existente cientificamente dai para o futuro.

A ciência nasceu na aurora da civilização humana, de uma forma instintiva e inconsciente, a par do nascimento da religião e do misticismo, pela constante observação da natureza, durante uma longa sequência de gerações que evoluiu até aos nossos dias.

O homem primitivo começou por observar a natureza e descobriu coisas maravilhosas. Descobriu que umas coisas são mais pesadas e outras são mais leves; descobriu que umas são mais altas e outras mais baixas; descobriu que se partir uma coisa, fica com duas ou mais; descobriu que se essa coisa for uniforme e a partir a meio fica com duas iguais e metade mais pequenas que a primeira — e para que não tivesse que transportar o tronco mais comprido, e logo mais pesado, quando bastava o tronco mais curto e mais leve, ou para não ter que transportar diversos troncos e ter que os colocar sobre o riacho, para escolher o ideal para colocar sobre o riacho que desejava atravessar, sentiu necessidade de medir o riacho para procurar o tronco com a medida exacta. A invenção da medida do riacho para depois comparar com a medida dos troncos encontrados, foi o grande passo científico, pois permitiu saber qual o tronco ideal antes de o colocar.

E assim nasceu a ciência. Estuda-se na natureza a possibilidade de inventar medidas sobre ela, e uma vez inventadas, usam-se essas medidas como guia para o futuro.

A ciência nasceu instintivamente pela observação de factos naturais testáveis e mensuráveis, a par da religião que nasceu instintivamente pela observação de todos os factos naturais, inclusivamente não testáveis e incomensuráveis. A evolução da ciência na forma de cada vez mais medir e testar a natureza, e logo de a compreender, tendeu para a contestação, oposição e até negação da própria religião, acabando actualmente por inverter essa tendência ao dedicar-se ao estudo científico da própria religião, numa tentativa de a “medir”, ou de medir o seu efeito no homem.

Iniciando-se a grande jornada científica no campo das ciências exactas — lógica, matemática, física, astronomia, geografia, biologia — evoluindo para as ciências aplicadas — tecnologia, engenharia, medicina — continuando a evolução no capo das ciências económicas, sociais e políticas — história, direito, sociologia — e cada vez mais no campo das ciências humanas — filosofia, psicologia — a ciência evoluiu em interdependência com a religião devido ao grande peso da religião no passado, cuja influência na pesquisa científica era sempre um facto, favorável ou desfavorável conforme a aceitação ou negação dos resultados, de acordo com os interesses da própria religião.

Tudo existe na natureza anteriormente ao homem. Todas as matérias, todos os movimentos e todas as energias já existiam quando o homem, com a sua inteligência, as começou a observar. A sua observação inteligente originou a possibilidade e a necessidade da criação de medidas. A possibilidade deve-se à constância de determinadas características — uma coisa com tamanho constante permite inventar medidas de comprimento (era impossível inventar o “metro” numa matéria elástica). Todas as medidas foram inventadas pelo homem devido à constância de determinadas características, de determinada matéria ou energia. A necessidade de criação de medidas deve-se ao facto de só com medidas ser possível comparar, para melhor escolher. Também só com medidas se pode teorizar uma coisa, para melhor a estudar e compreender. Além disso, sem medidas é impossível existir vida social e racional. As medidas são as referências pelas quais se orienta o homem civilizado: é impossível marcar um encontro sem uma data, uma hora, e sem um local; é impossível encomendar um artigo sem dizer qual; é impossível fazer uma obra sem projecto; é impossível fazer um telefonema sem marcar um número — todo o acto racional requer referências teóricas.

Qualquer medida é inventada por qualquer pessoa de forma a identificar qualquer coisa para que possa ser comparada consigo própria ou com outra. Uma medida uma vez obtida/inventada por alguém é dada ao conhecimento e consideração dos outros que a vão aceitar ou reprovar conforme a sua utilidade. Todas as medidas são inventadas por alguém e são aceites pela maioria para bem dessa maioria. Todas as medidas são aceites quando a sua organização é lógica, constante e infinita, ou completa e aplicável, sem deixar qualquer margem de dúvidas. E todas as medidas são valores elementares teóricos criados a partir da observação da natureza, com o objectivo de a racionalizar e compreender, para depois melhor a poder transformar e dominar.

A matemática e a álgebra são a base de toda a ciência, porque toda a ciência funciona com medidas e todas as medidas são representadas com números e letras. Os próprios números e letras não existem na natureza, foi o homem que os inventou, mas aplicam-se a tudo porque tudo o que o que a ciência envolve se traduz teoricamente por números e letras. E esta teorização é criada pelo homem a partir da natureza.

Todas as matérias, todas as energias, todas as formas geométricas, todas as cores, todos os sons, todas as radiações, todos os movimentos, todas as velocidades, todas as pressões, todas as densidades, e todas as forças electromagnéticas, gravitacionais, caloríficas, atómicas e nucleares, assim como as correlações existentes entre todas estas partes, já existiam na natureza antes do homem as descobrir, estudar, medir e classificar como medidas cientificamente existentes. E as medidas de comprimento, superfície, volume, massa, tempo, frequência, velocidade, aceleração, força, energia, potência, intensidade, resistência, temperatura, radiação, e etc; apenas foram os modelos inventados que possibilitaram essa classificação com realidades cientificamente provadas.

As medidas científicas partem de uma unidade padrão — grama, litro, watt, metro, hertz, bit, grau — e estendem-se em múltiplos e submúltiplos, multiplicando-se e desmultiplicando-se de mais infinito a menos infinito, abrangendo toda a realidade, cada uma no campo que mede. São generalizadas por imposição ou conveniência e de acordo com a maior perfeição na tradução da existência natural, para maior compreensão racional e científica — muitas sociedades do passado guiaram-se por calendários muito diferentes do actual calendário gregoriano, acabando este por se generalizar no mundo ocidental devido à sua maior perfeição em relação aos movimentos naturais de rotação e translação da terra. No entanto, se for descoberta/inventada outra forma de medir o tempo, ainda mais perfeita, esta se extinguirá. Acontece isto com todas as formas de medir a natureza, mas algumas são de tal forma lógicas, que são tidas como arquétipos — dois mais dois são quatro em todo o mundo, mas existem várias formas de linguagem, como várias formas de numeração e certamente várias formas de cálculo.

As descobertas científicas acontecem algumas vezes por mero acaso, e normalmente após aprofundados estudos. Cada nova descoberta é influenciada pelas anteriores e vai influenciar as posteriores, como que num ciclo evolutivo multiplicativo. A história da evolução científica relata-nos longos períodos no passado para a aceitação de uma nova verdade científica, tendo a grande maioria das descobertas acontecido nos séculos mais recentes. Actualmente, nos muitos laboratórios industriais e das universidades espalhadas por todo o mundo são permanentemente feitas novas descobertas científicas.

O conhecido método científico define como funciona a ciência. A formulação de questões só é possível quando temos dúvidas e quando nos interrogamos. A elaboração de hipóteses só é possível quando temos matéria para observarmos e nos dedicamos a isso. A verificação das hipóteses só é possível quando existem medidas previamente estabelecidas e aplicáveis, ou constância de características que permitem a criação de medidas novas ou ocasionais para que todas as variáveis conhecidas sejam controladas. E a obtenção de resultados e formulação de conclusões só é possível quando os três passos anteriores são concluídos de forma clara, inequívoca, indubitável e repetível.

Assim, sempre que não temos dúvidas e não nos interrogamos, sempre que não temos matéria para observar, sempre que não temos medidas nem as podemos criar, e sempre que as conclusões são obscuras, duvidosas, e não é possível repetir o estudo para que se possa replicar qualquer coisa, essa coisa não existe cientificamente.

E é aqui que encontramos os limites da ciência. Porque tudo o que foi provado cientificamente, já existia antes de o ser. E tudo o que existe e não está provado cientificamente, pode não existir realmente ou pode não existir até ser provado pela ciência. E todos sabemos que existem muitas coisas concretas que a ciência não explica: ainda não é possível prever exactamente o estado do tempo; ainda não é possível prever sismos: ainda não é possível conhecer o código genético completo de uma pessoa; ainda não se conhecem as verdadeiras causas da homossexualidade; ainda não se descobriram vacinas para o cancro e para a sida; ainda desconhecemos a finalidade dos sonhos; ainda sabemos pouco sobre o funcionamento e capacidade do cérebro humano; ainda não sabemos se existem extraterrestres; ainda não sabemos de onde vimos nem para onde vamos — isto são só alguns dos inúmeros exemplos que provam a nossa ignorância científica perante a vida.

Estes são exemplos que a ciência não clarifica, mas procura clarificar e admite a sua ignorância. No entanto existem outros que a ciência nega categoricamente, mas que são realidades absolutas para muitas pessoas, tais como as crenças populares e as superstições, as medicinas alternativas e os fenómenos parapsicológicos, as seitas religiosas e os rituais culturais, a fé e Deus.

Só o futuro dirá se a ciência se vai impor negando todas estas realidades e originando um mundo completamente compreensível e racionalizado, ou se todas estas realidades irão influenciar a ciência de forma a tornar possível a sua medição e aprovação científica. Só o futuro dirá se Deus vai deixar de existir ou se a ciência o vai provar cientificamente.

Provavelmente não acontecerá uma coisa nem outra. A evolução do conhecimento científico acaba por aceitar a teoria da relatividade e a física quântica, em que uma nova descoberta ou um novo dado pode influenciar toda a percepção do passado, deitando por terra as conceptualizações cientificamente testadas — repare-se que a nave espacial “Challenger” possuía a mais elevada tecnologia, e era testada pelos mais proficientes especialistas e, no entanto, tudo se perdeu. Por outro lado, cada vez mais nas universidades proliferam cursos relacionados com as ciências sociais, humanas e religiosas.

É que o homem é um ser natural e criou a ciência a partir da sua natureza. E por muito que entre em contradição negando parte de si mesmo, a verdade é que acaba por voltar à sua natureza. O homem é um todo e a ciência é apenas parte dele.

A honra, o orgulho, o respeito, a dor, o amor, a paixão, a alegria, a tristeza, o desejo, a ambição, a fama, a vaidade, o luto, a saudade, a vontade, a angustia, o medo, o ódio, a inveja, o desespero, a fé, e muitos outros sentimentos e valores humanos, não se podem medir numa escala objectiva científica e isso não os torna inexistentes. Da mesma forma que a altura, a raça, o sexo, a cor dos olhos, a forma dos cabelos, a estatura, o grupo sanguíneo, o código genético, o nome, a idade, o estado civil, a profissão, a religião, o número do cartão de identidade, o número fiscal, o número de eleitor, e muitos outros números e escalas objectivas de identificação provadas cientificamente, por si só, não chegam para concluir a existência real de um ser humano.

Tudo o que existe concreta e objectivamente, e cientificamente testado, é importante para o desenvolvimento humano, e para que o homem se compreenda a si próprio e tudo o que o rodeia. No entanto, por mais evoluída que esteja a ciência, o seu impacto no ser humano nunca será superior a metade da sua globalidade, porque o homem é uma unidade dualística, de corpo e alma, físico e espiritual.

E toda a criação científica, tecnológica e artificial, foi originada a partir da natureza, não ultrapassou os limites impostos pela natureza, e apenas criou condições de adaptabilidade, segurança, bem-estar, prazer e relativo domínio do homem em relação à própria natureza, mas nunca eliminando ou substituindo princípios naturais básicos para a sobrevivência humana, como as necessidades biológicas.

A ciência apenas permitiu ao homem que se distanciasse dos outros animais possibilitando-lhe uma vida com autoconhecimento, autocontrolo e dignidade. É sempre uma possibilidade — mas nem sempre uma realidade.

 

 

 

 


publicado por sl às 03:34
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