Segunda-feira, 10 de Março de 2008

História

HISTÓRIA

 

 

Factos do passado. Tudo o que aconteceu no passado até ao presente é história. Desde o tempo mais longínquo até ao mais recente. Desde o espaço mais afastado até ao mais próximo. A cada momento que passa e em cada lugar que algo acontece, faz-se história, desde sempre e até sempre.

A história é o conjunto de tudo o que existiu no passado em todos os aspectos. É a história conhecida e narrada, e é também a história desconhecida.

A história real é uma coisa, o nosso conhecimento dela é outra completamente diferente. É impossível, e desnecessário, conhecer toda a história passada. O nosso conhecimento da história é um conhecimento diminuto, quase insignificante, perante toda a história real existente no passado. Diminuto porque nós não temos capacidade para memorizar tão elevada quantidade de dados — nem nós, seres humanos com cérebro e memória individual, nem nós todos juntos, e nem nós, por razões evolutivas, juntamente com todas as bibliotecas, museus e monumentos de todo o mundo.

Se fosse possível considerar todos os seres humanos, todas as bibliotecas, museus e monumentos, todas as cidades e aldeias, toda a fauna e flora, todo o planeta, e mesmo todo o universo, nem assim obteríamos conhecimento de toda a história, e muito simplesmente porque muitas coisas que já existiram, deixaram de existir sem que reste qualquer prova ou qualquer registo da sua existência.

Por outro lado, além do nosso conhecimento da história ser mínimo, ainda por cima é deturpado. Nós nunca sabemos a história verdadeira, apenas sabemos versões da história. E essas versões podem relatar a realidade exacta, mas também podem ser totalmente falsas.

Qualquer referência à história tem sempre presente o factor tempo. A história é a narração presente de factos passados, ou será a narração futura de factos presentes. E esta transposição temporal deturpa os factos.

Quando presenciamos um acontecimento, registamos esse acontecimento na nossa memória, conforme for o nosso ponto de vista. Cada pessoa tem uma idealização da realidade diferente das outras. Cada pessoa vai descrever o acontecimento conforme a sua realidade. Outra pessoa que receber essa descrição, idealiza o acontecimento de outra forma diferente, e vai-o transmitir ainda mais deturpado. E assim sucessivamente. Se não existirem provas concretas para clarificar como foi realmente o acontecimento, nunca mais se saberá como foi exactamente a realidade.

Se todos sabemos como são deturpadas as descrições de factos actuais, por pessoas vivas, que os presenciaram, imaginemos quanta deturpação haverá na descrição de factos do passado, dos quais os registos são muitas vezes incompreensíveis — o Coliseu de Roma, pelas suas ruínas, permite-nos aproximadamente concluir para que fim foi construído, para além de existirem outros registos que nos dão essa informação, mas, por falta de informação, aos círculos de Stonehenge já foram atribuídas as mais diversas finalidades.

Qualquer história parte de um facto e é idealizada pelo observador que a vai transmitir da forma que ele considera mais correcta. Assim, qualquer narração histórica, não é a narração do facto histórico, mas sim a narração do que o historiador idealizou em relação a esse facto. Não se transmite o que aconteceu, mas o que se considera que aconteceu. E toda a descrição que temos de todo o passado do mundo, apenas é a descrição do que os historiadores consideraram como a história passada do mundo.

Quem faz a história são todos os presentes nela — a história natural é feita pela natureza; a história da ciência é feita pelos cientistas; a história da política é feita pelos políticos; a história da arte é feita pelos artistas; a história de uma civilização é feita por essa civilização; a história humana é feita por todos os seres humanos — mas quem conta a história não são todos os intervenientes nela. São apenas os intervenientes mais poderosos. E é por eles que a descrição histórica é feita — quando duas árvores nascem juntas, a que se desenvolver mais rapidamente irá aniquilar a outra, e só a primeira se reproduzirá; no futuro será impossível saber que ali existiu outra árvore. E todos sabemos que os poderosos contam a história da forma mais conveniente para eles. Por essa razão, quando existem grandes alterações nos regimes políticos se reescreve a história. E são conhecidos momentos do passado em que foram incendiadas bibliotecas e se destruíram monumentos propositadamente para se eliminarem provas do passado que não eram convenientes naquele momento.

Cada vez mais os historiadores estão conscientes desta realidade, e tentam descrever a história cada vez mais imparcialmente. Mas a história é o que é, e essa característica faz parte dela. Apenas é possível repor a história de forma mais factual se existirem registos que permitam o apuramento da verdade. E esse trabalho é fatigante e maçador, pois é necessário andar embrenhado em bibliotecas e arquivos, com livros antigos e dificilmente decifráveis, comparar todos os dados com pormenores de museus, monumentos, ruas, ruínas e demais vestígios, acabando essa pesquisa por se tornar inútil e exequível. Inútil porque a vida é o presente. Exequível porque não possuímos toda a informação; a que possuímos é já demasiada para ser assimilada; e não existe consistência na mesma.

Se se pretender repor a verdade histórica recente, é fácil porque ainda são muitos os vestígios que provam os factos, mas recuando no tempo, rapidamente se perdem as referências do que se encontra. E atribui-se determinado facto a determinada civilização ou cultura, sempre por aproximação. Será certamente difícil provar cientificamente que determinadas marcas fossilizadas em rochas são ossadas de dinossauros em detrimento de curiosas formações rochosas, árvores antigas, ou quedas de meteoritos, por exemplo.

As estátuas encontradas na Ilha de Páscoa, as ruínas Maias, e certos artefactos metálicos de produção sofisticada encontrados em antigos templos coreanos, são provas de existência de civilizações antigas, mas que não são suficientes para se conhecerem essas civilizações. Durante toda a história humana, muitas civilizações terão existido que nasceram, evoluíram e desapareceram, sem que delas possam restar vestígios, tal como os seres humanos. Pois antes de nós nascermos, viveram outras pessoas que nós nunca conhecemos, outras morreram quando éramos crianças, outras nasceram e vivem quando nós, outras vimo-las nascer, e, quando nós morrermos ficarão pessoas conhecidas, e nascerão outras ou já viverão, que nós não chegaremos a conhecer. Com as civilizações acontece o mesmo, mas numa escala mais alargada. E possivelmente, toda a unidade humana, conjunto de todas as civilizações, desde que nasceu a primeira até à extinção da última, poderá também ser como uma pessoa, embora numa escala fora do nosso alcance.

A história humana, que depende da história da vida, que depende da história da terra, que depende de outras histórias superiores, é composta por muitas histórias inferiores, que são as histórias das civilizações, as histórias dos impérios, as histórias das sociedades, as histórias das religiões, as histórias das culturas, as histórias das nações... e, numa complexa descendência, passando pelas histórias da linguagem e da escrita, da arte, do comércio, da agricultura; pelas histórias da política, da economia, da indústria, da ciência e da medicina; pelas histórias militares, das guerras, das conquistas e dos descobrimentos; pelas histórias das cidades, das regiões, das universidades e das igrejas; pelas histórias da literatura, da música, do teatro e do cinema; pelas histórias da alta tecnologia, da informação, dos direitos humanos e da paz... até às histórias das nossas famílias e é história de cada um de nós, que é a mais importante, porque é a única que estamos a fazer e só nós a fazemos.

A história humana é o conjunto de todas estas histórias, daí a dificuldade no nosso entendimento dela. Nunca a conseguiríamos conhecer toda, ainda que ela fosse cognoscível. E a maior parte já se perdeu, existindo apenas fragmentos de história recente quando comparados com a história do homem, mas extremamente antigos quando comparados com a história individual de cada um.

A história humana, ainda que narrada nas mais diversas narrativas, está em permanente mudança, com alterações mais suaves ou mais bruscas causadas pelas mais diversas leis, forças ou motivos, de ordem humana ou natural. Qualquer existência significativa num momento, pode deixar de o ser no momento seguinte — vulcões, terramotos, tempestades, incêndios, guerras, epidemias, acidentes, e etc; destroem cidades e povos inteiros em pouco tempo, alterando para sempre o percurso da história, percurso este que tende a evoluir desde que não lhe seja cortada a continuidade. E note-se que para existir história é necessário existir evolução ou involução. Qualquer coisa que permaneça imutável não produz história durante esse estado.

Assim, a actual civilização ocidental moderna, que faz história cada vez mais rapidamente e cada vez mais diversificadamente, é a civilização que herdou do passado a continuidade histórica, e é a civilização que escreverá a história futura, até que lhe seja cortada a continuidade.

 

 

 

 

 

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Sábado, 9 de Junho de 2007

Civilização

CIVILIZAÇÃO

 

 

Civilização é um estado social relativamente organizado e estruturado, composto de um elevado número de indivíduos que se relacionam interagindo.

Todas as civilizações são humanas porque consistem, para além da garantia da sobrevivência natural da humanidade, numa estrutura organizada de vida em sociedade consciente, e não apenas instintiva, ainda que o seu nível de desenvolvimento seja pobre.

As primeiras civilizações surgiram quando o homem, após o uso dos primeiros utensílios e o domínio do fogo, e após a criação da linguagem, deixou de ser nómada e tornou-se sedentário, dedicando-se à criação de animais e à agricultura.

A linguagem e a escrita, a religião e o culto aos mortos, o desenvolvimento económico e tecnológico, e o desenvolvimento artístico, cultural e científico, são as características principais de uma civilização.

Todas as civilizações fazem parte da história humana. Todas nasceram naturalmente e pela influência humana e existiram ou existem sedeadas em alguma parte da geografia terrestre. E todas tiveram ou têm uma evolução, uma história particular e um fim.

Cada civilização humana existe como cada pessoa — nasce com heranças das anteriores, tem um crescimento, um auge e um envelhecimento, e deixa de existir deixando heranças às posteriores. E em cada nova civilização, como em cada nova pessoa, é dado um passo no crescimento humano.

As características de uma civilização, devido às heranças de civilizações anteriores, devido à localização geográfica, e devido à capacidade intelectual do seu povo, tornam-na mais ou menos expansiva — uma civilização com tradições guerreiras e exploradoras crescerá e submeterá as outras ao seu domínio absorvendo-as ou aniquilando-as. Por serem dependentes do ambiente natural, poderão ser também extintas naturalmente. Muitas civilizações do passado ficaram perdidas para sempre na história, como muitas pessoas são insignificantes perante a sua civilização.

Toda a história humana é feita de civilizações sucessivas formando um continuo diversificado, onde pelo meio umas ficam pelo caminho, outras convergem ou divergem em relação ao sentido principal da história global, não sendo possível provar se o homem teve uma origem comum, espalhando-se por toda a Terra, ou se teve várias origens geográficas que acabaram por se unirem devido ao desenvolvimento.

O mundo actual é composto por várias civilizações. Existem ainda pequenas civilizações primitivas em alguns pontos do globo, nomeadamente em África, na América Latina e na Ásia e Oceania. Algumas civilizações orientais e Árabes têm também uma existência de grande consistência e poder. Mas a civilização que domina é a civilização ocidental — uma civilização originária da velha Europa, mas que cresceu diversificando-se em todos os níveis, sendo constituída por várias linguagens, várias religiões e até várias etnias ou raças, mas que cresce efusivamente devido à sua grande característica: o capitalismo.

Toda a história refere os movimentos civilizacionais no sentido da conquista de poder. A civilização ocidental movimentou-se pela conquista do espaço geográfico para a obtenção de poder económico. O capitalismo vai invadindo suavemente todas as sociedades. A seguir-se esta tendência, a evolução deparará com uma situação totalmente inédita: pela primeira vez na história conhecida, uma só civilização ocupará todo o espaço geográfico terrestre. Resta saber se após a conversão dos últimos resistentes ao capitalismo, se o mundo vai entrar em retrocesso, se vão ser criadas novas formas de poder, se o poder capitalista se vai manter com conquistas e exploração fora do planeta, ou ainda, se vai acontecer qualquer coisa que ninguém é capaz de imaginar.

 

 

 

 


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Sábado, 19 de Maio de 2007

Cepticismo

CEPTICISMO

 

 

Existem duas formas de uma pessoa considerar que uma coisa é verdade ou é mentira: ou a analisa para confirmar a sua veracidade ou não veracidade, ou simplesmente a aceita ou nega sem qualquer análise prévia.

Tudo na vida pode ser verdade e pode ser mentira. É verdade quando alguém afirma convictamente que é verdade e é mentira quando alguém afirma convictamente que é mentira. A diferença existe entre o que é realmente verdade ou mentira, e o que é verdade ou mentira por convicção. A realidade é tudo o que existe independentemente do nosso conhecimento ou consentimento. A convicção é tudo o que nós consideramos que existe sem necessidade de provas.

Se todos nós fossemos inteligentes de forma a conhecermos tudo de todo o mundo que nos rodeia, e só considerássemos verdade ou mentira, tudo e qualquer coisa, após experiência comprovada ou inequívoca, o mundo seria totalmente diferente. Seria um mundo exclusivamente racional e científico. Um mundo extraordinariamente humano.

Mas esse mundo não passa de uma utopia, e por várias razoes. Ainda existem muitas coisas que não são conhecidas ou que não se explicam cientificamente, pois nem os maiores cientistas conseguem explicar ou desvendar, por não serem avaliáveis por falta de conhecimentos ou de consenso, negando-as simplesmente. E também porque não só os cientistas são donos da verdade. Nem os cientistas nem a ciência actual.

Por outro lado, todos nós antes de sermos racionais e inteligentes, somos irracionais e estúpidos — primeiro temos medo do escuro e só depois é que entendemos que não passa de falta de luz. A racionalidade e a inteligência são fruto da aprendizagem.

E por fim, a civilização actual, como todas as civilizações, está alicerçada em valores de grande rigidez, e que apesar de não serem racionais, são racionalizados, ou seja, consideramos que não devia ser assim, mas já que é, tentamos compreender, aceitar, fomentar, e até viver esses valores, porque muitos são agradáveis, como a paixão que é irracional, mas é a mais cantada.

Existe mais uma razão: o homem é ainda demasiado agarrado aos valores materiais porque são esses que dão poder. E o homem vive numa busca contínua de poder — sobre os outros. Mas note-se que do poder obtido pela posse de terras e uso de exércitos para as manter, evoluiu-se para a posse de dinheiro e uso de negociações. Caminhamos no sentido do “material” para o “simbólico ou espiritual”.

A história humana ensina-nos que evolução partiu da irracionalidade para cada vez maior racionalidade. Mas a realidade pura é bem mais irracional. É dessa realidade, dessa confusão de valores, que opõe a razão ao mito, que opõe o sagrado ao profano, que opõe o moral ao legal, que opõe o possível ao fictício, é dela que nasce a nossa verdade e a nossa mentira. E para que os nossos valores não sejam falsos, como os castelos de areia que se desfazem na onda mais forte, deveríamos questionar tudo o que nos ensinaram e reconsiderar só o que a nossa experiência nos provar ser verdade, com a maior inteligência possível.

E tudo o que aprendemos, deveríamos aprender até à compreensão total, sem restarem dúvidas para classificarmos como verdade ou como mentira. De tudo deveríamos ser cépticos. Não confirmar nem desmentir até termos provas reais. E compreender que a nossa verdade pode não ser a verdade dos outros.

Ninguém deveria acreditar no que está escrito neste texto como em todos os textos, pelo simples facto de estar escrito, mas porque a sua experiência pessoal e consciente o confirma ou não. E com a maior inteligência possível, porque — um estúpido não sabe que é estúpido porque não é inteligente, mas um inteligente sabe que é inteligente, e se quiser, sabe ser estúpido da forma mais inteligente.

 

 

 


publicado por sl às 01:33
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