Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Justiça

 

JUSTIÇA

 

 

 

Se existem dois adultos para serem alimentados e uma galinha que vai servir de alimento, é justo que cada adulto coma metade da galinha. Se existe um adulto e uma criança, é justo que o adulto tenha direito a uma parte maior e a criança a uma parte menor.

  A justiça consiste na divisão dos bens pelos pretendentes que a eles tenham direito e nas devidas proporções. As proporções justas são as que atingem o maior nível de equilíbrio entre todas as partes.

A natureza é regida por leis absolutas que visam o equilíbrio entre todas as partes, e que são justas. No entanto, a justiça, mesmo natural é relativa. O equilíbrio justo só pode existir entre partes iguais cujos opostos se complementam, mas quando as partes são diferentes, a justiça para uma pode ser injusta para outras, apesar de todas contribuírem para o equilíbrio global da vida. Aqui, a justiça que prevalece é a das partes cujas forças sejam superiores — se a raposa tem duas lebres para comer, mas só uma é suficiente para saciar o seu apetite, a lebre que vai ser comida, se pensasse, consideraria injusto ser comida ela e não a outra, já que eram iguais; a raposa não iria deixar de comer porque morreria de fome, nem comeria as duas porque morreria empanturrada; também não comeria metade de cada uma, porque ao matar as duas ficava sem alimento para uma próxima refeição; assim, comer uma das lebres ao acaso é a maior justiça possível ainda que injusta para uma lebre; também a raposa servirá de alimento a seres vivos superiores e a lebre se alimentará de inferiores; mas a lebre nunca comerá a raposa porque na natureza tudo tem a sua ordem que é intransponível, mesmo parecendo injusta.

Poderá então concluir-se que as injustiças da natureza são inevitáveis e contribuem para o desenvolvimento da mesma, podendo assim tornarem-se justas se considerarmos a natureza no seu todo.

E com o homem, por ser filho da natureza, acontece exactamente a mesma coisa. Uma criança também é um ser humano, mas se o adulto lhe der a parte menor da galinha, aquela limita-se a comer essa parte porque, além de não ter a noção de justiça, não teria outra alternativa porque o adulto é mais forte que ela e domina-a.

A justiça é a divisão dos bens em partes justas, mas quem considera como é que as partes são justas é quem detém o poder. Quem tem mais força é quem domina e é quem determina o que é a justiça, como é quem faz as leis. E naturalmente fá-las de acordo com os seus interesses. É assim em todos os aspectos da sociedade humana, desde a economia à família, passando pela política.

Em todos os lugares onde se encontrem pelo menos duas pessoas conscientes — porque a justiça só faz sentido quando em consciência, pois não se consideram as opiniões de quem não se encontra em juízo perfeito — existem duas concepções diferentes de justiça. E prevalecerá aquela que for mais forte, com base nas capacidades de argumentação e de coacção ou em último recurso de força física.

A justiça é também uma das criações psicológicas causadas pela consciência, com influência das heranças culturais do passado, e das ideologias adoptadas, ou criadas pelos seus defensores. Está em permanente transformação evolutiva, conforme as novas realidades sociais e humanas — até ao século XIX, seria justo castigar o escravo que desobedecesse ao seu senhor, actualmente será justo punir o senhor que possua um escravo. Qualquer assembleia governativa aprova regularmente leis que determinam que certos actos e omissões passam a ser crime ou deixam de o ser.

Para além da justiça criminal, que visa defender a sociedade em geral, existem outras formas de justiça regulamentadas pelos diversos códigos — civil, comercial, eclesiástico, militar — ou não regulamentadas, mas subentendidas pela ética, moral, usos, costumes e tradições.

O sentido da justiça tem tido uma progressão que partiu do irracional, inconsciente e desumano, tornando-se cada vez mais racional, consciente e humano, podendo-se concluir que quanto mais juízo, mais justiça.

E só com justiça se viverá numa sociedade equilibrada, com o máximo possível de igualdade, dignidade, fraternidade e liberdade. Mas isso implicará responsabilidade, respeito e até alguma submissão e resignação. E este é que é o problema, porque, para alguém ganhar outrem tem de perder, e se é certo que o mundo é de todos, também é certo que todos desejam o poder sobre ele. E se a natureza nos dotou de um sentido de justiça, muito antes nos dotou também de um sentido de ambição.

Este é o nosso único mundo e nele viveremos naturalmente com justiças e injustiças, desejando a justiça ambicionada, só possível com a ambição justa.

 

 

 

 

 

 

 

 


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Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Inteligência

INTELIGÊNCIA

 

 

 

A inteligência é a nossa capacidade de resolver problemas, de ultrapassar obstáculos e de enfrentar situações embaraçosas. Mas só fazendo-o com dignidade, com personalidade e com nível, e não de qualquer modo, isso seria esperteza. A inteligência requer qualidade, distinção, carácter e respeitabilidade.

A inteligência confunde-se muitas vezes com a erudição e com a intelectualidade, porque uma pessoa para ser verdadeiramente inteligente tem que ser erudita e intelectual, mas não o pode ser em demasia, pois a grande base caracterizadora da inteligência é o conhecimento e a sabedoria aliados à capacidade da sua aplicação prática. Saber tudo e conhecer tudo mas nada fazer, não é verdadeira inteligência.

Existem vários testes e teorias que pretendem medir a inteligência, mas na verdade, a inteligência é muito difícil de medir porque abrange demasiadas e complexas áreas.

Por um lado temos a teoria e a prática. Apenas teoria será demasiada intelectualidade e apenas prática será demasiada esperteza. Embora uma implique a outra, é por vezes grande o desfasamento existente entre ambas. Assim, o mais inteligente é aquele que consegue um nível mais elevado de harmonia entre a teoria e a prática.

Por outro lado temos a especialização e a globalidade. Saber tudo de uma coisa é ser inteligente apenas nessa área, mas a vida é demasiado vasta e nós temos necessidade de compreender diversas áreas em simultâneo. E como saber tudo de todas as coisas é completamente impossível, até porque o suporte da nossa inteligência é o nosso cérebro, e apesar de não imaginarmos qual seja a sua capacidade, sabemos que é limitada, sendo também limitada a nossa capacidade de inteligência. Assim, aqui, o mais inteligente é o que consegue um nível mais elevado de harmonia entre a especialização e a globalidade. Note-se que o nível mais elevado de harmonia não é o mais elevado nível médio. Para melhor exemplificação imaginemos a classificação de dois indivíduos em três áreas numa escala de zero a dez valores: o indivíduo A sabe quase tudo de medicina (nove valores), nada de mecânica (zero valores), e nada de culinária, totalizando nove valores; o indivíduo B compreende dois valores de medicina, dois de mecânica e dois de culinária, totalizando seis valores; assim, o individuo A atinge um maior nível médio, de três valores, contra dois do individuo B, mas o individuo B é o mais inteligente porque ao saber um pouco de tudo está mais capacitado para a vida. A especialização é importante para a vida social e colectiva, enquanto que a globalidade é importante para a vida individual. Este é apenas um exemplo virtual da melhor forma de medir a inteligência.

A inteligência é suportada fisicamente pelo cérebro com duas condicionantes, uma biológica e outra cultural. Biologicamente nós somos mais ou menos inteligentes conforme seja o nosso cérebro em termos de perfeição natural — hereditariedade e genética, saúde, doença ou acidentes são factores determinantes. Culturalmente somos mais ou menos inteligentes conforme soubermos usar o cérebro. E aqui é determinante o meio económico-social em que nascemos porque será dos princípios educacionais e culturais que recebemos no início da nossa actividade cerebral que formalizaremos as nossas primeiras ideias, concretizações e planeamentos, mesmo para a utilização do próprio cérebro.

A verdadeira inteligência é a capacidade de organização de informação no próprio cérebro — cada um no seu — com a finalidade de produzir actividade.

A simples introdução de dados desorganizados apenas serve para ocupar memória. Saber muitas coisas que não servem para nada não é inteligência. Inteligência é: isto serve para aquilo, porque... — lógica, compreensão, raciocínio, determinação, firmeza, juízo, sabedoria, organização, programação — como nos computadores.

O nosso cérebro funciona como um computador, e a nossa inteligência apenas é um vastíssimo conjunto de programas, que nós introduzimos nele, ou outros introduzem por nós, e assim, quanto mais perfeitos, completos e abrangentes forem esses programas mais inteligentes seremos.

 

 

 

 

 


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Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Instinto

INSTINTO

 

 

O homem tenta compreender pela sua inteligência e da forma mais racional possível tudo o que o rodeia. É assim com cada ser humano individual e é assim com o conjunto de todos os seres humanos de toda a história. Mas, o nível de capacidade de compreensão racional é limitado. Ou porque o é mesmo por natureza, ou porque o desenvolvimento ainda não é suficiente para a compreensão total ou mais elevada. Certamente a sua capacidade é limitada, mas os limites ainda não foram atingidos porque ainda se continua a evoluir. Só o futuro o dirá, mas no presente os factos são irrefutáveis, e dizem-nos que o homem ainda não compreende tudo o que o rodeia. E, apesar da subjectividade que esta afirmação pode compreender, porque se o homem sabe tudo porque tudo o que é sabível só o pode ser pelo homem, também o homem não sabe nada porque tudo o que ele sabe foi ele quem inventou, sem ninguém para além dele poder confirmar que está correcto, podendo assim estar tudo errado. E como o homem é insignificante perante a imensidão do universo, será exacto afirmar que o nível de conhecimento é menor que o nível de desconhecimento, de tudo o que existe.

O instinto é uma das coisas que o homem já sabe que existe, mas ainda não sabe porque existe. Como todas as coisas inexplicáveis começaram por ser atribuídas ao sobrenatural e passaram a ser atribuídas à natureza à medida que foram explicadas, também o instinto, apesar de ser parcialmente inexplicável é certamente natural. Ou talvez a explicação fique mesmo por aí, é assim, e natural, e basta.

Pois quando nós inadvertidamente pousamos a mão sobre o forno quente, sabemos que os sensores da pele ao sentirem o calor, enviam imediatamente uma mensagem ao cérebro, que este transforma numa ordem que faz os músculos agirem de forma a retirarem a mão do calor. Este processo é muito mais complexo quando explicado com pormenores científicos, mas a acção é tão rápida que podemos não a chegar a registar conscientemente. Sabemos que é assim, e sabemos como é com todos os pormenores, mas não sabemos porque é que é assim. É a natureza. E talvez a explicação mais plausível seja a regra de causa-efeito, cuja complexidade causa a acção, que por ser por natureza ínfima, não chega a ser compreensível conscientemente, e quando esmiuçada, acaba por se perder no nada. Porque o todo é mais do que a soma das partes, e o conhecimento das partes é insuficiente para explicar o todo.

Tudo o que acontece por instinto é tudo o que acontece por natureza, sem ser pensado. E como só o homem é que pensa — e nem sempre — então, tudo o que acontece para além do que é conscientemente planeado é instintivo. Mas, apesar dos movimentos cósmicos, atmosféricos, meteorológicos, florestais, aquáticos e de muitos outros movimentos minerais, vegetais e até animais e humanos, serem naturais, não significa que sejam instintivos. O sangue que corre nas veias, os pulmões que se dilatam e contraem, ou o cabelo que cresce, são movimentos que acontecem por natureza, mas que não podemos considerar instintivos, porque não os podemos controlar.

Assim, é instintivo todo o movimento natural que acontece inconscientemente, mas que é susceptível de poder acontecer conscientemente. Tudo o que acontece impensavelmente, mas que se considera que podia ser pensado. E como só o homem pensa, só ele pratica actos ou tem atitudes e comportamentos que são instintivos. E é ele que atribui aos animais as suas características instintivas, por serem os animais os seres vivos mais aproximados ao homem, e também dotados de inteligências inferiores, mais ou menos evoluídas conforme a sua espécie.

O instinto existe então em oposição à consciência. Só sabemos que não pensamos quando sabemos que podíamos ter pensado. Se não tivéssemos consciência nunca saberíamos que erramos. A consciência é também o suporte dos problemas psicológicos. Quando andamos com algum desequilíbrio psicológico, por preocupações, ansiedades, desejos, saudades, paixões, ódios ou remorsos em excesso, ficamos com a capacidade de pensar bloqueada, e o sangue “quente” que nos invade a mente leva-nos a praticar actos que só os outros ou nós mais tarde consideramos instintivos. No momento, como os animais, fazemos as coisas porque fazemos, naturalmente, com determinadas causas e efeitos, mas sem qualquer tipo de entendimento, compreensão, pensamento ou consciência.

Pelo meio fica tudo o que não é totalmente natural, nem totalmente consciente, e se mistura em doses de natureza e de consciência, que nos levam aos meandros da subjectividade, da diversidade e da reflexão.

 

 

 


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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Informação

 

INFORMAÇÃO

 

 

Entende-se por informação qualquer conjunto de dados registados numa memória, que serão interpretados por alguém.

É informação o conjunto dos nossos conhecimentos e recordações, alojadas na nossa memória, que reside no nosso cérebro. É informação todo o conteúdo de um livro e de todos os livros, jornais, revistas e documentos de todas as bibliotecas. É informação tudo o que está gravado em qualquer material desde os mais primitivos aos mais evoluídos: desde os fósseis, pinturas rupestres e rumas; passando pelos monumentos pré-históricos e seculares, pergaminhos, trajes e armas; por todas as expressões artísticas — esculturas, quadros em relevo, pintura, arquitectura, música, canções e teatro — e mais recentemente pela fotografia, pelos discos de vinil e fitas magnéticas de audio, também pelo cinema e vídeo, e pelos actuais discos de leitura “lazer” que registam informação das mais diversas formas; até às bandas magnéticas e micro-chips electrónicos em cartões que suportam muita informação em muito pouco material. Tudo é informação.

A informação em si é uma coisa passiva e inerte, mas a sua implicação no que lhe está inerente torna-a de uma importância extraordinária. A informação é o propulsor da evolução humana porque tudo o que caracteriza a evolução humana está em correlação com tudo o que caracteriza a informação.

Para existir informação é necessário existir matéria que a suporte; é necessário existir linguagem que a enrede; é necessário existir energia que a reproduza; e é necessário existir inteligência que a compreenda, porque, toda a informação é artificial e existe de e para o homem. Por analogia, a natureza tem a sua informação genética e biológica que se auto-reproduz. Também a informação humana caracteriza-se principalmente pelo facto de poder ser reproduzida — de nada servia gravar um disco que nunca pudesse ser ouvido ou escrever um livro que nunca pudesse ser lido.

O facto da informação poder ser reproduzida é que é a chave para o desenvolvimento humano. Se alguém pratica um acto e pode depois ver como o praticou, corrigirá possíveis erros e irá, no futuro, praticar o mesmo acto com mais perfeição. Entra também aqui o facto de o homem ser o único ser com consciência dos seus actos. Subentende-se assim o que a experiência proporcionará em milhares de anos. Repare-se ainda no crescimento cada vez mais galopante dos últimos anos em que a era da informação se tornou uma realidade. Um adolescente de hoje com um computador em casa ligado à internet tem acesso a mais informação que todos os habitantes do planeta há cem anos.

A informação é muito importante porque a sua reprodutibilidade transforma-a atemporal. Só com informação se consegue analisar um acontecimento do passado ou prever um acontecimento futuro. E como a transmissão da informação, além de poder acontecer de uma pessoa para ela própria, pode também acontecer de uma pessoa para muitas outras. É assim geradora de opiniões, conceitos, juízos e valores psicológicos — o romantismo do século XIX só existiu porque alguns autores no início desse século o fomentaram.

As novas tecnologias da informação, através da informática e audiovisual, encurtaram as distâncias no mundo, transformando todo o planeta numa “aldeia global” em que todos têm acesso a tudo em todo o lado — todos os que têm acesso às tecnologias. Mas, repare-se que este encurtamento é psicológico e artificial, como toda a informação é psicológica e artificial, criada pelo homem — se falhar a tecnologia, Nova Yorque fica do outro lado do oceano a milhares de quilómetros em relação a Lisboa, e apesar dos meios de transporte serem evoluídos, nunca alcançarão a velocidade da transmissão de informação que é instantânea.

A era da informação caracteriza-se também pela existência de inteligência artificial, só possível devido a grandes memórias artificiais usadas por automatismos próprios e com determinadas energias.

Também a inteligência humana consiste na capacidade de uso da informação que cada um tem na sua memória.

Um computador pode ter registados na sua memória todos os livros de uma biblioteca, mas isso de nada servirá se não tiver um programa que os ordene, procure e edite. Os programas informáticos são também informação memorizada com o fim de trabalhar outra informação.

Talvez ninguém imagine a quantidade de “bits” e “bytes” que seriam necessários para suportar toda a memória de recordações, instruções, conceitos, desejos, medos e tudo o mais que um ser humano compreende: “saber que o dia ‘x’ é um de tantos que tem tal mês entre outros doze do ano tal depois de Cristo, porque se contam assim os anos após o acerto do calendário pelo movimento do planeta em relação ao sol que é uma estrela porque... e foi nesse dia que ele nasceu; ou saber que o sapato preto diz bem com o fato azul porque esta é a cor do céu que se vê da janela do escritório para onde tem que se dirigir e causar boa impressão se não se perder em conversas fúteis e chegar atrasado porque... e tem que o calçar no pé”.

Tudo o que o homem sabe é informação. Tudo o mais que existe é natureza. Tudo o que faz conscientemente é porque está informado. Tudo o que faz inconscientemente é pura natureza. Quanta mais informação o homem tiver, mais consciente será.

 

 

 

 

 

 


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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Inconsciente

 

INCONSCIENTE

 

 

 

 

Entende-se por inconsciente toda a actividade existente no nosso cérebro que está fora do nosso domínio racional.

 

Tudo aquilo que nós fazemos sem nos apercebermos que estamos a fazer, tal como respirar, ver, ouvir, tactear, cheirar, saborear, dormir, sonhar, etc; e todos os sentimentos físicos e emocionais como sentir dor, sentir frio e calor; sentir fome, sede e sono; sentir cansaço, comichão e arrepios; sentir admiração, medo e repugnância; corar, transpirar, tremer, suspirar, bocejar e chorar; sentir prazer e ódio; sentir gosto, desejo, saudade e compaixão; sentir amor; sentir constrangimento, arrependimento e orgulho; sentir excitação e alegria, depressão e tristeza; tudo isto e muito mais são reacções produzidas no nosso corpo devido a ordens dadas pelo nosso cérebro inconscientemente, embora posteriormente possamos ter consciência disso.

Os sentidos podem ser usados por nós conscientemente ou inconscientemente — podemos procurar uma coisa para a ver ou podemos ver uma coisa que nos desperta interesse sem a termos procurado — mas os sentimentos, sensações ou emoções são reacções originadas inconscientemente. É o inconsciente existente no cérebro que determina o limite máximo de temperatura que o corpo pode receber, e ao atingir esse limite “dispara um alarme” que avisa a consciência que se tem que evitar o calor. Assim como para todos os limites do corpo. Se não obedecermos conscientemente às ordens vindas do cérebro — produzidas do inconsciente para o consciente — acabamos por obedecer inconscientemente e inconscientes. O nosso inconsciente domina o nosso consciente e o consciente tem que respeitar as ordens vindas do inconsciente. Se o inconsciente nos diz “não podes mais”, e nós conscientemente dizemos “ainda posso mais”, poderemos ainda mais certamente, porque o inconsciente avisa-nos com uma margem de segurança, mas se continuarmos a insistir, o inconsciente continua-nos a avisar, e, ou paramos enquanto é tempo de recuperar ou atingimos os limites e ficamos inconscientes, ou podemos até morrer.

O inconsciente humano é formado por duas grandes vertentes sentimentais. Existem os sentimentos físicos que são memorizados no inconsciente através dos sentidos e que provêm da natureza, do homem como animal, irracionalmente e inconscientemente — como a dor, a fome, o frio — análogos a todos os outros animais, e existem os sentimentos humanos, também memorizados no inconsciente, e também através dos sentidos, mas estes passaram primeiro pelo consciente ou consciência. Os sentimentos humanos não são inatos como os físicos, mas pelo contrário, aprendem-se. Aprendem-se pela educação (cultura/religião) e valorizam-se ou não na consciência. Conforme se valorizarem na consciência, é também assim que ficam memorizados no inconsciente. E será conforme esses valores que o nosso inconsciente nos vai alertar. No entanto o nosso inconsciente regista tudo, e se nós agora pensarmos de uma forma oposta à que pensávamos no passado, em relação a determinado assunto, se o inconsciente tiver que nos enviar alguma mensagem relacionada com esse assunto, tanto pode corresponder ao que nós agora pensamos como opor-se. E uma mensagem oposta ao nosso consciente provocará conflito [dissonância cognitiva] — se eu não quero chorar e sei que não devo chorar perante determinada situação mas não consigo deixar de o fazer, significa que o inconsciente está a dominar.

Nós devemos respeitar o inconsciente, pois ele é poderosíssimo e não o devemos desafiar, pois ele vencerá sempre. É-nos muito útil na nossa protecção e equilíbrio pessoal, mas nós apenas devemos dar-lhe valor no que respeita aos avisos que ele nos faz. Devemos valorizar mais a consciência.

O nosso consciente, ao contrário do inconsciente, é tudo a que temos acesso pelo cérebro, em perfeito estado de raciocínio, vigilantes e alertas. Quanto mais perfeita, forte e segura, for a nossa consciência, mais estaremos conscientes, e logo, menos possibilidades damos ao inconsciente de intervir.

O inconsciente é importante porque nos defende dos perigos e nos guarda toda a informação do nosso passado. Tem uma capacidade infinita se pensarmos que cada segundo o nosso cérebro recebe dezenas de estímulos ou mensagens, permanentemente, sendo a maior parte delas armazenadas directamente na memória inconsciente, sem nos apercebermos delas.

Mas a nossa vida de humanos, racionais, e conscientes do que somos, tem que ser vivida com consciência, raciocínio, sabedoria, inteligência e saúde. Se nós não temos essa segurança que nos vem da consciência, deixamos caminho aberto para o inconsciente.

Teorias dizem que o nosso cérebro funciona noventa e cinco por cento inconscientemente e apenas cinco por cento conscientemente. Nós vivemos racionalmente com essa pequena percentagem. Se estivermos inseguros, deprimidos, doentes, ou em qualquer estado de consciência alterada, então o inconsciente apodera-se dela e manifesta-se, das mais diversa formas. E se não recuperarmos a consciência viveremos inconscientes, com uma personalidade alterada e demente.

O inconsciente é irracional, os animais também o têm. O consciente é racional, só os humanos têm consciência daquilo que são. É na racionalidade e consciência que nos diferenciamos dos animais, mas por muito racionais que sejamos, o nosso inconsciente será sempre maior que o nosso consciente, porque antes de nós pensarmos, já sentimos, e antes de nós sermos humanos, somos animais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Homem

HOMEM

 

 

O     Homem e o princípio e o fim de tudo. Tudo o que existe, existe de e para o Homem. O Homem é a essência, a referência e o modelo ao qual tudo se compara, do qual tudo parte, e para o qual tudo converge. É a causa e o efeito de tudo.

O     Homem existe num espaço e num tempo determinado, mas sem saber exactamente qual. Todo o conhecimento que o Homem adquiriu partiu de si próprio para o exterior. As faculdades naturais que o Homem possui permitem-lhe estar no nível mais elevado de inteligência compreensiva, sobre tudo o que já atingiu. Recuando e avançando no tempo e no espaço até aos limites atingidos, o Homem nunca encontrou outro ser de inteligência igual ou superior. Também nunca recebeu provas concretas de que foi encontrado por outro ser de inteligência igual ou superior. Assim, o Homem sabe que existe muito mais tempo e muito mais espaço para além do que ele conhece, mas porque ele o descobriu, com estudos, com técnicas e com imaginação. Tudo partiu dele próprio, numa evolução de milhares de anos para atingir o nível actual de conhecimentos. A tendência evolucionista aponta para cada vez mais descobertas e mais conhecimento, sendo, no entanto, cada nova descoberta é um salto no desconhecido, e o desconhecido tanto pode ser a sua glória como a sua infâmia.

O     homem é um ser natural. Existe na natureza como todos os outros seres. A natureza é composta por átomos de diversos elementos. A aglomeração de átomos de cada elemento e a composição conjunta dos átomos de diversos elementos criaram uma unidade composta por duas forças — a matéria e a energia. Tudo na natureza e matéria ou energia. A reunião da matéria e da energia em determinadas proporções complexas e desconhecidas originou a vida. A vida é matéria orgânica. Matéria que se alimenta ou serve de alimento, e que nasce, cresce, reproduz-se e morre. Esta matéria tem como base outra matéria em estado mais bruto — a meteria inorgânica, nomeadamente os minerais. A matéria orgânica divide-se em vegetal e animal. O reino animal, por si, também se divide em classes, desde a mais simples à organicamente mais complexa. Toda esta transformação parte da matéria inorgânica bruta, aumentando de complexidade em cada grau até atingir o grau mais elevado. À estruturação dos átomos é a causa desta evolução, desde a matéria inorgânica mineral, passando pele matéria orgânica vegetal e animas até ao homem. O homem apenas é a organização de matéria orgânica conhecida mais complexa. Com órgãos mais difíceis de concretizar, nomeadamente o seu cérebro. Todo este processo de complexização e evolução natural demorou milhões de anos e só foi possível devido à estabilidade relativa do planeta Terra.

Mas para o homem, quando terminou esta evolução natural orgânica, iniciou-se uma outra evolução, a evolução do seu cérebro, que não deixa de ser a continuação da evolução anterior, mas entrando-se agora numa nova etapa. O cérebro começou-se a desenvolver superiormente em relação aos outros animais quando o homem iniciou a linguagem devido à particularidade natural de produzir e memorizar os mais diversos sons. Com o início da fala e da linguagem o homem entrou num novo mundo. O mundo da simbologia, que foi fortemente impulsionado pela invenção da escrita.

Pela linguagem o homem atribuiu nome a si próprio e a tudo a que o rodeava, e principalmente conseguiu criar ideias  e fórmulas verbais de comunicação. Nasceu a arte, nasceu a cultura, nasceu a religião, nasceu a sociedade humana e tudo o que nos distingue dos outros animais. A criação de ideias e fórmulas, pela linguística, retórica e matemática, ao dar ao homem a capacidade e necessidade de raciocinar, obrigou também a que o próprio cérebro se desenvolvesse, como que num ciclo vicioso, uma vez que é o órgão das funções racionais.

A racionalidade que nos distanciou dos outros animais deve-se à capacidade de memorização de ideias  e subjectivas e não apenas de instintos. Esta memorização enorme é também a responsável pela nossa consciencialização. O homem é o único animal que sabe que existe. É o único que atribui um nome a si próprio, aos outros e a tudo.

A evolução racional humana – que começou com a linguagem, passando pela matemática, a lógica, a química, a física, a geometria, a astronomia, a medicina, e mais recentemente a electrónica e a informática, sempre a par de uma evolução mais lúdica no campo das artes e da cultura, com a religião, a filosofia, a música, o desporto, a literatura, o teatro, e mais recentemente a comunicação social, o cinema e a realidade virtual – foi a causadora de toda a provação, explicação e teorização de tudo o que existe.

Tudo existe a partir do homem porque foi o homem que descobriu tudo, que deu o nome a tudo, que teorizou tudo. Não existe nada que não tenha sido o homem a dar o nome, a explicar e a inventar.

E tudo existe para o homem porque é o único ser com capacidade intelectual, que a natureza dotou de faculdades superiores de inteligência, consciencialização, raciocínio e comunicação, fazendo dele um ser dominante de todos os outros seres vivos e de parte da própria natureza.

O crescimento racional só foi possível devido à longa continuidade de vida humana. Um homem só – indivíduo – apenas é um ser vivo com características e necessidades básicas e de sobrevivência, iguais a todos os outros seres vivos. É gerado naturalmente pelos progenitores e protegidos por eles nos primeiros anos de vida, tem necessidades fisiológicas, de segurança e bem-estar iguais a todos os outros animais, e morre como os outros animais.

Mas recebe uma herança dupla. Recebe uma herança genética ou biológica como os outros seres vivos, que lhe dá uma fisionomia própria, e recebe uma herança cultural de base linguística que lhe atribui faculdades psicológicas. Esta herança dupla é aperfeiçoada devido à estabilidade natural — cósmica ou atómica — e é depois transmitida aos descendentes de uma forma ainda mais aperfeiçoada. Se uma pessoa viver preocupada com problemas não consegue produzir uma obra tão perfeita como outra que tem tempo para pensar no que faz. Da mesma forma, se o planeta Terra for constantemente bombardeado por meteoritos, ou houverem mudanças bruscas de temperatura, terramotos ou vulcões, deixa de haver estabilidade, e ao não haver estabilidade não há continuidade, e logo, não há evolução.

A evolução depende da continuidade e da estabilidade na ordem natural das espécies, mas muito mais na racionalidade, porque a racionalidade surge no auge da evolução das espécies — no cérebro humano — e evolui muito mais rapidamente. Se um homem nasce numa sociedade primitiva transmite aos descendentes o pouco — tudo — que sabe, mas se nasce numa sociedade evoluída tem uma herança cultural recheada de conhecimentos, e transmite aos descendentes ainda mais conhecimentos, porque foi mais um a pensar.

Se a continuidade for cortada por qualquer razão — catástrofe natural — como aconteceu aos dinossauros e a Pompeia; guerras de aniquilação total de sociedades — como aconteceu com os índios americanos; suicídio colectivo — como aconteceu com os Maias; ou falta de descendência — como aconteceu na ilha de Páscoa — perde-se também a evolução, nomeadamente cultural. Por outro lado, tal como na teoria da evolução natural das espécies, também na evolução cultural, a civilização mais forte acaba por subverter ou subjugar todas as outras civilizações.

O      homem actual vive numa era civilizacional dominante caracterizada pela tecnologia, electrónica e informação. Esta civilização — dita ocidental — é o produto da longa continuidade e domínio sobre outras civilizações, umas extintas, outras actuais. O percurso a seguir é impossível de determinar. A evolução continuará se se mantiver a estabilidade relativa actual, mas nada garante que esta se mantenha. Subitamente pode acontecer uma enorme catástrofe natural, ou pode o homem a provocar — consciente ou inconscientemente — pois possui tecnologia (armas) para isso. Teorias sobre a “atlântida” apontam para hipóteses análogas. A civilização ocidental é dominante de todas as outras civilizações existentes actualmente devido ao seu poder superior, que lhe é dado principalmente pelas armas e domínio da natureza. A tecnologia actual permite ao homem dominar parte da própria natureza, e tenderá a dominar sempre cada vez mais. Mas nunca saberá se há limites e quais serão, logo, não irá parar até ser a própria natureza a revoltar-se. Pois a natureza é feita com uma determinada composição (atómica), não toda conhecida, e o homem ao mexer nessa composição pode provocar reacções imprevisíveis que o poderão atingir fatalmente. Porque na tecnologia ninguém está a comandar porque ninguém tem capacidade para comandar.

O      homem civilizado, moderno e inteligente não existe. O que existe é um conjunto de homens, cada um com o seu cérebro real que recebeu uma herança cultural e científica superior à maioria, e que pode aperfeiçoar e usar primeiro para interesses pessoais e depois para interesses comuns, mas que se não transmitir essa herança e aperfeiçoamento aos outros, nomeadamente descendentes ou discípulos, através de qualquer linguagem — falada, escrita, informatizada, etc.. — quando esse homem e esse cérebro morrer, toda essa herança desaparecerá.

O      Homem é o conjunto de todos os homens — e naturalmente mulheres e crianças. É o conjunto de todos os cérebros humanos vivos, juntamente com toda a informação acumulada durante a evolução civilizacional, e registada em suportes físicos mortos — em livros e documentos em arquivos e bibliotecas, em museus e monumentos, e em registos magnéticos e outros nas mais diversas instituições. Mas toda esta informação “morta” de nada serve se não houverem cérebros vivos que a possam entender e usar, como os cérebros vivos sem esta informação não poderiam produzir aperfeiçoamento nem evolução devido à sua limitada capacidade.

De facto, cada ser humano vive realmente muito pouco tempo de vida, e a possibilidade que tem de contribuir para a evolução é insignificante, apenas acontecendo casual e esporadicamente.

Porque a primeira terça parte da vida é ocupada a aprender as coisas essenciais à vida em sociedade, e não há capacidade de entender assuntos complexos, até porque o cérebro e todo o corpo estão ainda em desenvolvimento, pois nascem do nada. No último terço de vida, o corpo e o cérebro entram em decadência, começando a perder faculdades, para voltar ao nada. Assim, além da vida humana ser temporalmente insignificante em relação a uma evolução civilizacional, ainda se reduz para apenas um terço dessa vida, a posse das principais faculdades activas, nomeadamente intelectuais.

Considera-se ser humano, actualmente, todo o ser bípede, erecto, mamífero, com poucos pelos, com linguagem articulada e capacidade de raciocínio, independentemente da idade, sexo, raça, ou deficiência. Mas épocas e civilizações houveram em que as crianças, os negros, os deficientes, os idosos, e as mulheres, não eram considerados seres humanos.

Cada ser humano vive em média setenta anos: comparados com os milhares das civilizações e os milhões da vida, são uma insignificância. Cada ser humano é apenas um: comparado com os outros seis milhões de seres humanos actualmente vivos é outra insignificância, para não compararmos com os que já viveram no passado.

Estas comparações reduzem-nos a “nada”. E este “nada” que nós somos é que serve para traduzir a nossa incompreensão perante muitos factos da vida. É que serve para explicar a nossa evolução aleatória, a nossa estupefacção perante a novidade, o nosso medo perante o desconhecido, a nossa contemplação perante o belo, o nosso prazer perante o agradável, a nossa angústia perante a incerteza, a nossa alegria perante a vitória, o nosso desejo perante a descoberta, o nosso orgulho perante o sucesso, e o nosso sofrimento perante a dor.

Mas cada ser humano é também uno e único, com uma vida, uma história, uma ascendência e uma descendência, com sonhos, desejos e projectos, com um passado em recordação e um futuro em esperança. E como só se vive uma vez, essa e a única que conta para cada um.

E se nós somos pequenos porque não sabemos de onde vimos, para onde vamos, porque estamos aqui, porque somos assim, se estamos sós, e se algum dia vamos saber responder a estas e outras interrogações, ou se as devemos colocar ou não!... Também somos muito grandes porque sabemos quem somos, sabemos o que somos, sabemos como somos, sabemos onde estamos, sabemos como estamos, e principalmente, sabemos o que queremos, porque, o que nós quisermos, se a natureza permitir, é para lá que caminharemos.

 

 

 

 

 

 

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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Família

FAMÍLIA

 

 

A família é um conjunto de pessoas que partilham em comum alguns aspectos de intimidade. Tem como objectivo principal a organização entre adultos de forma a permitir a sobrevivência dos recém-nascidos. É uma organização natural que assegura a continuidade da espécie humana.

Mas a família é entendida das mais diversas formas.

Atribui-se a origem da família às reuniões antigas dos escravos ou criados em volta do seu chefe, dai nascer o chefe de família, e também à necessidade de organizar grupos para cultivar a terra quando os alimentos naturais escasseavam. Mas não serão estes os verdadeiros sentidos da família actual.

A família natural, análoga em todas as espécies animais, começa quando todos os seres jovens, no despertar da sua sexualidade, começam a sentir atracção pelo sexo oposto, com vista ao acasalamento. Qualquer casal, após a fase preliminar necessária para garantir correspondência quanto à disposição do corpo, pela excitação, acaba por copular. A cópula visa a concepção. Durante o período de gestação, a fêmea torna-se frágil até algum tempo após o nascimento do descendente. O macho, por sua vez, devido à afectividade que ganhou, causada pelo prazer sexual, protege-a, primeiro a ela, e depois também o recém-nascido. A desunião só acontece quando o novo ser sobrevive pelos próprios meios.

É assim com todos os animais, e com os humanos também. Mas os humanos, como são inteligentes, adaptaram a natureza às suas ideias artificiais. E da mesma forma que se alimentam não quando têm fome, mas nas horas marcadas para refeições, também não constituem família para garantir descendência mas para os mais variados fins.

A união natural — inevitável — apenas serve de base a todos os enquadramentos que estruturam a sociedade humana. A família é o primeiro e o último grau da sociedade humana, porque, por um lado, toda a sociedade tem uma componente familiar na sua estruturação, e por outro lado, todos os indivíduos pertencem a alguma família.

Assim, a família humana é importante não só para gerar descendentes, mas também para garantir segurança e entreajuda mútua, porque ao ser uma união de pessoas, faz mais força e gera mais poder. Serve também para proteger os mais desprotegidos, nomeadamente doentes e idosos, para além das crianças. Serve de base fundamental na transmissão de valores ideológicos, éticos e religiosos, pela educação. É também a base da organização social. Parte da família ou é a ela direccionada toda a sistematização política e económica, nomeadamente a concepção de direitos, liberdades e garantias. As regras da moral e ética, tradições e bons costumes, assim como as regras económicas, das heranças, impostos, consumo e propriedade de bens, estão também inter-relacionadas com a família.

Todos estes critérios levam à definição do que é uma família, onde começa e onde acaba, mas são de origem humana — artificial. A história descreve-nos muitas definições distintas da família: o chefe de família já foi a mulher; os idosos já foram abandonados para morrer; os filhos deficientes já foram assassinados; a poligamia e a poliandria já existiram; o casamento incestuoso e homossexual já existiu; o adultério masculino já foi aclamado; o casamento civil já foi proibido; o concubinato já foi admitido; etc; etc.

Todas estas variantes nas relações familiares e ainda muitas mais, já existiram e foram legais. A família apenas é o que a sociedade quiser que ela seja, apesar dessa decisão ser parcialmente inconsciente.

Apesar da família ser a grande fomentadora dos principais laços humanos, também é, por vezes, grande motivo de conflitos. O acto fundamental da construção familiar é o casamento. Qualquer pessoa ao casar passa a considerar o cônjuge, a pessoa mais importante da sua vida, sobrevalorizando-o em relação aos pais, não obstante, estes terem-na gerado e criado, e o cônjuge por vezes ser quase um desconhecido. E é desse desconhecido que vão ser gerados novos filhos e nascer nova família.

A família nasce no amor. E do amor nascem os filhos. Quando os filhos crescem, a chama do amor apaga-se. Talvez esta realidade seja a causa da elevada percentagem de infidelidade e divórcios, ainda que muitos casamentos sejam eternos e muitas famílias permaneçam unidas por outros motivos.

E o amor paternal, só os verdadeiros pais o sentem, e só eles o consideram demasiado aprazível e demasiado sublime para ser descritível.

 

 

 

 

 


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Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Fama

FAMA

 

 

A fama é o conhecimento que os outros têm de nós.

Todos vivemos em sociedade e vivemos numa sociedade consciente porque somos civilizados e sabemos que existimos entre outros. Todos temos relacionamentos sócio-culturais com outros, na família, na escola, no trabalho, na igreja, no desporto, na rua, nos transportes, nas festas e em todos os lugares públicos que todos podem frequentar ou em todos os lugares particulares frequentados por alguns.

Temos ainda relacionamentos sociais sem contactos físicos quando dos nossos espaços reservados comunicamos com os outros pelos meios que a tecnologia nos permite — carta, telefone, fax e e-mail. Conhecem-se melhor duas pessoas que comunicam frequentemente por escrito ou telefone entre dois continentes e que nunca se encontraram, do que duas pessoas que se cruzam diariamente na mesma rua, mas que nunca se falaram.

Mas a fama vai mais além porque não exige que o conhecimento seja recíproco. Para uma pessoa ser famosa basta que os outros tenham conhecimento dela independentemente dela ter ou não conhecimento deles. Aliás, quanto maior for a fama menor será a reciprocidade, porque, quantas mais pessoas conhecerem uma, menor será a probabilidade desta conhecer as primeiras.

A fama pode ser boa ou má. É boa quando o motivo que tornou a pessoa famosa é socialmente útil, culturalmente enriquecedora e moralmente aceite, e é má quando acontece o oposto.

Pode também ser voluntária ou involuntária. É voluntária quando é a própria pessoa que conscientemente deseja ser conhecida e age no sentido de se dar a conhecer. E é involuntária quando a autoria de algo invulgar, ou acontecimento particular, desencadeia uma acção de divulgação que ninguém consegue controlar.

A fama, como tudo na vida, tem vantagens e desvantagens. O reconhecimento público de alguém é motivo de orgulho, honra e glória e até auto-realização e poder, se esse alguém goza de boa fama. Mas poderá ser o oposto se goza de má fama. No entanto, na fama, estão sempre em jogo os critérios dos valores das pessoas famosas contra os das pessoas que lhes atribuíram a fama. A fama pode ter uma evolução progressiva, brusca ou até póstuma, mas sempre que acontece com pessoas vivas, limita-lhes a liberdade individual por se tornarem figuras públicas. Uma pessoa famosa pode por um lado fazer mais o que quer porque tem poder, mas por outro não pode fazer tanto o que quer porque está permanentemente a ser observada. A fama projecta-nos na sociedade, mas limita-nos a liberdade.

Os meios de comunicação social, cada vez mais influentes, são os principais geradores de fama, por transformarem públicos os aspectos particulares das pessoas.

Como o excesso de fama seria a falta de individualidade, e o excesso de individualidade seria a falta de contactos sociais, e como todos necessitamos simultaneamente de individualidade e de sociabilidade, cada um terá que encontrar a dose certa de cada parte para ter a fama que deseja, não esquecendo que a vida não é só o que nós queremos, mas também o que os outros querem, e o que a natureza permite.

 

 

 

 


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Sábado, 1 de Dezembro de 2007

Existência

EXISTÊNCIA

 

 

Para existir é necessário ser ou estar.

Para a sua melhor compreensão, a existência pode-se dividir em duas partes distintas — o homem e a natureza — que são totalmente diferentes, mas que uma sem a outra não permitiam a existência da própria existência.

A natureza, seguindo leis próprias não totalmente conhecidas, originou tudo o que existe. Tudo o que existe tem origem na natureza. Assim, o cosmos, as estrelas, os cometas, os planetas, os oceanos, as montanhas, os desertos, as plantas, os animais, e etc; tudo nasceu da natureza, e são ela própria. Mas tudo existe sem saber que existe!

E foi então que no topo da existência, a natureza fez também nascer o homem. Nasceu o homem, não como animal mamífero, erecto, com cabeça, tronco e membros, mas como ser pensante, inteligente, e que raciocina devido às faculdades naturais de falar, recordar e imaginar.

E foi o homem que no topo da existência, tomou consciência de que existia ele e tudo o que o rodeava. E foi essa consciencialização que tornou tudo existente apesar de já tudo existir.

Assim, para uma coisa existir, é necessário que essa coisa exista e que o homem saiba que ela existe. Uma árvore já era árvore antes do homem a conhecer, mas foi este que lhe atribuiu o nome e descreveu as características. Quase tudo existe anteriormente ao homem, mas só este tem consciência dessa existência. E com a sua consciência, além de tudo teorizar, ou transformar em palavras tudo o que existe, de forma a provar essa existência, o homem criou ainda novas formas de existência: a existência espiritual ou extramaterial.

Tudo o que existe sob a forma espiritual, psicológica, mística ou ideológica, nasceu da mente humana, e tem o cérebro como base. Desta forma, tudo o que não é material é dele dependente. Toda a existência é originada na natureza material. O espírito humano só existe porque existe o cérebro, como a energia só existe porque existe a matéria.

Mas o conhecimento da existência de tudo só é possível com a existência da própria     consciência.     Sem            consciência — característica exclusivamente humana — não seria possível admitir a existência.

Pode-se então concluir que existem três formas de existência: existe a realidade natural, que é a verdade originada na própria natureza, independentemente do conhecimento humano dela ou não; existe a racionalização, que é a verdade natural de que o homem tem consciência, e que com a sua inteligência catalogou; e existe a criação humana, que é a verdade que o homem considera existir, independentemente da existência de provas. Resumindo, existe o que existe, existe o que o homem sabe que existe, e existe o que o homem pensa que existe.

Toda a existência nasce na natureza, mas só é concretizada após o reconhecimento humano. O homem é um tradutor da realidade natural, mas como não a conhece totalmente, traduz a parte desconhecida da forma como a imagina. E o conhecimento da realidade natural só existe através do homem. Por isso, tudo o que o homem diz é verdade, porque ninguém o pode desmentir. Será ele próprio a ter que mudar de ideias, crescendo, porque, pior que mudar de ideias é não as ter.

A existência é só uma e só existe sendo afirmada. Mas são muitas as formas de a afirmar.

 

 

 


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Domingo, 18 de Novembro de 2007

Evolução

 

EVOLUÇÃO

 

 

Falar de evolução no sentido abstracto do termo significa falar de evolução humana. O Homem é um ser em constante evolução. Desde que se conhece e até onde se conhece — caminhando em direcção ao passado — sempre existiu evoluindo, no sentido em que ele próprio se considera evoluir.

Apesar de alguns indícios indicarem a existência de civilizações evoluídas no passado, no conhecimento científico actual, esses indícios não são considerados verdadeiros, perdendo-se assim o conhecimento do passado nos meandros do esquecimento, embora direccionado para a involução até à própria natureza, cada vez mais no sentido bruto.

Segundo as teorias mais consensuais do mundo científico, tudo existe na natureza, representado por átomos e em duas formas: matéria e energia. Como ambas se transformam uma na outra, então uma e a outra são a mesma.

Os átomos — e tudo o que os compreende — todos juntos formam tudo o que existe, desde a maior inactividade à maior actividade. Uma rocha é uma composição de matéria permanentemente inactiva, e um coração é uma composição de matéria permanentemente activa — sob o ponto de vista humano.

Assim, dentro dos limites do conhecimento — humano — porque não conhecemos a verdadeira origem do universo nem a sua evolução, se é que existem, pois todas as afirmações a isto referentes são teorias não comprovadas, ainda que lógicas — toda a evolução segue no sentido da maior simplicidade, na composição atómica, para a maior complexidade, dessa composição.

Se colocarmos num recipiente areia, água e azeite e agitarmos tudo, obteremos uma mistura homogénea. Se deixarmos de agitar, os três elementos separam-se. Também se imagina que no início dos tempos toda a composição da vida se encontrava igualmente misturada numa massa homogénea, que, com o passar dos tempos e com a estabilidade cósmica, cada vez mais os elementos foram-se diferenciando do todo, agrupando por partes, e reunindo essas partes em doses complexas que originaram a vida.

No sentido inverso, e imaginando para melhor compreensão, se reuníssemos um elefante, uma árvore, um automóvel, e uma viga de betão armado, e ralássemos tudo o mais possível, obteríamos uma pasta com peso, densidade, humidade, pressão, temperatura, cor e outras características específicas. Ninguém conseguiria localizar e extrair dessa pasta o sangue ou a pele do elefante, a madeira ou o fruto da árvore, a gasolina ou o vidro do automóvel, e o cimento ou o ferro da viga, mas tudo estava lá.

A separação das partículas elementares da matéria e a sua reorganização, são o resultado de muitos milhões de anos de estabilidade e de reunião de condições de evolução, começando por serem criadas as matérias inorgânicas e depois as matérias orgânicas que deram origem à vida. Os minerais, vegetais, animais e por fim os humanos, são todos provenientes dessa massa inicial, e existem desde as formas mais simples às mais complexas.

A evolução é a criação de coisas novas com base nas anteriores. Tudo existe na natureza desde o princípio ou desde sempre e é apenas transformado para maior complexização,

A evolução da vida na natureza, vegetal e animal, precede a evolução humana, mas ambas seguem os mesmos trajectos, até porque a evolução humana também é natural. Os seres vivos evoluem conforme a teoria da evolução natural das espécies, em que o ser mais forte vence sempre, tornando-se o gerador de descendência.

O homem é o ser vivo mais evoluído porque possuí o sistema mais complexo de organização celular. Todos os seres vivos são organizações de células. As células são a mais elementar matéria viva. São diversificadas conforme a sua estrutura molecular formada pela composição atómica. Os átomos — matéria ou energia — que formam as moléculas que formam o sistema nervoso do corpo humano, são a mais evoluída estrutura de matéria viva natural. Por isso criaram o pós-material: o espiritual.

O espiritual nasceu com a linguagem e a consciência, e toda a evolução artificial nasceu também daí. A evolução humana é originada na sua inteligência. Com ela, o homem domesticou animais, cultivou plantas, criou sociedades civilizadas, dominou muitos obstáculos naturais, e começou a conhecer-se a si próprio e ao lugar que ocupa na natureza. Cada nova geração é mais evoluída que a anterior porque acumula os ensinamentos precedentes com a experiência própria.

A evolução artística, económica, social, tecnológica e científica, é idêntica à evolução natural. A opinião do mais forte é a que prevalece. Mas o mais forte pode não ser o mais inteligente, e por isso toda a criação humana é de uma artificialidade de segurança relativa. A evolução humana não é totalmente consciente. Evoluímos na direcção que a natureza nos permite e que queremos, mas não sabemos porque queremos, porque ninguém controla nem explica a evolução.

E se a natureza é de uma diversificação imensa, que criou infinitas formas de vida, não sabemos se a sua própria evolução e principalmente se a nossa evolução humana, é a única forma de evolução ou se é uma de muitas variantes possíveis, porque tudo o que nós – humanos — sabemos, aprendemos pelos nossos próprios meios — ninguém mais inteligente nos ensinou nada — e podemos estar totalmente errados.

Enquanto não acontecer nenhuma catástrofe a nível planetário, e a estabilidade natural e a vida se mantiverem, continuaremos a evoluir, e poderemos um dia saber porquê — ou não.

 

 


publicado por sl às 01:11
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