Domingo, 12 de Outubro de 2008

Imaginação

 

IMAGINAÇÃO

 

 

A imaginação é uma capacidade intelectual existente no homem, que consiste em seleccionar partes de registos existentes na memória, e de as reunir e organizar de forma a criar uma nova existência.

Para existir imaginação é necessário primeiro observar — através dos sentidos —, depois memorizar o que se observou — registar organizadamente —, depois dividir por partes as coisas memorizadas, e por fim reunir as partes numa nova organização para obter uma nova criação.

Todo este processo da imaginação é um processo mental, que pode ser parcialmente inconsciente — quando registamos informação sem qualquer controle consciente que mais tarde usamos de uma forma consciente ao recorrermos à memória —, e pode ser quase só consciente — quando estudamos para aprender e criamos como resultado da aprendizagem.

A memória é um conjunto infinito de dados que são registados por dois processos: ou muita informação inconsciente e aleatória, ou pouca informação consciente e estruturada. Imaginar é construir a partir da memória — por exemplo: se uma pessoa vê uma gaivota, um automóvel, e um moinho de vento, fica com estes três elementos registados na memória, e pode retirar em sonhos (desde que posteriormente se recorde deles) ou em pensamentos; as asas e o modelo do corpo da gaivota, as rodas e o motor do automóvel, e se o vento produz movimento na hélice do moinho, também a hélice do moinho produzirá movimento no vento, ou movimento no próprio moinho, e reestruturando estas partes poderá imaginar um avião. — Toda a imaginação funciona assim. Quantos mais elementos estiverem registados na memória e quanto mais forem trabalhados, maior será a imaginação.

A imaginação consiste em pegar em pedaços de informação da memória, e trazê-los à consciência para serem trabalhados. Estes procedimentos mentais são exclusivos do homem porque só o homem tem um cérebro desenvolvido para permitir tal possibilidade.

Assim, imaginar não é criar a partir do nada, mas criar a partir da memória, que como existe apenas mentalmente não pode ser visível nem mensurável, mas a sua existência é a base de todas as faculdades exclusivamente humanas, como a consciência, a inteligência, a criatividade e a imaginação.

A imaginação é um dos motores da evolução humana e está presente em todos os passos evolutivos. Sem imaginação apenas se observava e gravava a observação, e nada se construía a partir dela, artificialmente. Apenas existiria a evolução da vida natural, animal e vegetal. Com a imaginação é possível criar coisas novas a partir das existentes. A natureza comporta tudo e tudo cria de uma forma complexa e desconhecida para o homem, que por um lado é divinamente admirável — repare-se nas belas flores — e por outro lado é terrivelmente catastrófica — repare-se nas epidemias, tempestades e terramotos. A beleza e o terror das forças naturais atribuídas por convicção ao sobrenatural e ao acaso pertencem ao desconhecimento humano. O homem, com a sua imaginação, conseguiu criar um novo mundo — artificial. Esse mundo artificial está suspenso na natureza. A imaginação é ilimitada mas a sua concretização é limitada pela natureza. O valor da imaginação só é significativo quando pode ser aplicado na prática. Para ser aplicado tem que ser testado, e se as leis da natureza não permitirem essa aplicação, a coisa imaginada não passa daí -pode-se imaginar uma casa suspensa no ar, mas a natureza não permite a sua construção. A evolução, que a imaginação originou e direcciona, só seguirá até onde a natureza permitir. A natureza impõe limites, mas esses limites são constantemente alargados devido à criatividade humana, como se existisse uma luta entre a mãe-natureza que domina e o filho-homem que quer dominar.

O mundo artificial que a imaginação criou, partindo primeiro só da própria natureza, e depois partindo já da artificialidade, é um mundo que embora dentro dos limites naturais é totalmente diferente do natural.

A imaginação possibilitou a compreensão do mundo natural, primeiro religiosamente e depois racionalmente. Possibilitou a ascensão do homem, por conseguir melhor protecção e domínio perante os outros seres vivos. Possibilitou que o homem deixasse de ser apenas animal e passasse a ser Homem, com valores superiores de respeitabilidade, sabedoria e cultura. E possibilitou que tivesse uma vida com dignidade e espiritualidade.

Mas esse mundo artificial, produto da imaginação, é um mundo frágil. Frágil porque o homem quando imagina nunca pode prever as consequências da realização dessa imaginação, e pode chocar com os limites da própria natureza, ou da anterior artificialidade e originar acidentes. Porque ninguém conduz o homem no caminho da evolução. É ele que se autodirecciona com base na experiência do passado. E se com imaginação construiu coisas admiráveis que não existiam naturalmente — os transportes, por exemplo — também construiu coisas terrivelmente destruidoras.

A imaginação é assim uma criação da natureza no homem, para facultar a evolução do mesmo, dando seguimento à própria evolução natural. É controlada pela natureza não sendo possível ao homem conhecer esses limites aplicativos, apesar de ser ilimitada conceptualmente.

E o mais importante não é imaginar, mas criar com imaginação.

 

 

 


publicado por sl às 01:39
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Sábado, 22 de Dezembro de 2007

Fantasia

FANTASIA

 

 

Fantasia é a representação agradável da realidade e da imaginação.

Existe a realidade que é tudo o que existe. Existe a imaginação que é tudo o que imaginamos, mas que não existe. Existe a ilusão que é tudo o que não existe, mas que parece que existe. E existe a fantasia que é tudo o que existe representado.

E como é representado por nós humanos, é normalmente agradável. Agradável não só no sentido do belo, mas também no sentido do curioso. É tanto fantasia a beleza no “Nascimento de Vénus” de Botticelli, como a curiosidade na “Tentação de Santo Antão” de M. Bosch, ou “O Triunfo da Morte” de Bruegel. A fantasia é agradável porque permite o esquecimento do sofrimento natural da vida, ao sermos transportados para um mundo irreal, em que existe o entretenimento ou o aperfeiçoamento espiritual.

É fantasia tudo o que o homem cria para seu bel-prazer — toda a criação artística. A arte é algo representado que nasceu no espírito criador do artista, elevando-o na forma de se expressar aos outros e ao mundo, e é também algo que os outros sentirão como uma chamada ao seu próprio espírito, na contemplação da obra criada. A fantasia é toda a representação artística da realidade ou da imaginação. A transposição de uma paisagem para a tela é uma fantasia proveniente da realidade. Uma pintura abstracionista é usa fantasia proveniente da imaginação. Uma pintura surrealista é uma fantasia mesclada de realidade e imaginação.

A fantasia confunde-se muitas vezes com e realidade, nomeadamente através da literatura, onde existem muitas obras antigas cujas referências se perderam, desvalorizaram ou transformaram, mas sendo o seu conteúdo de tal forma influente que muitos se orientam por essas fantasias do passado para criarem autênticas realidades no presente. Por outro lado, toda a fantasia está envolta num clima misterioso e místico. Muitas vezes não se sabe como determinada obra nasceu, nem mesmo o seu criador, e esse mistério atrai também, pois coloca a arte algures entre o mundo material e o mundo espiritual, fazendo a ponte de ligação.

Apesar da fantasia ser algo que não existe realmente — o que existe é a sua representação — a influência que ela tem nas pessoas é muito significativa, pois proporciona a criado de novas realidades. O cinema e os filmes, os livros e as letras, o teatro e os actores, são tudo realidades — coisas que existem como suportes da fantasia — mas as histórias e os enredos que se representam nessas formas de expressão não existem realmente — são a pura fantasia — no entanto, as ideias e as mensagens que se passam através dessas representações são reais, e podem criar efeitos reais, tanto em quem as recebe, como em quem as emite devido ao retorno, como em todas as formas de emissão e recepção de mensagens.

A grande diferença é que a fantasia, devido à sua subtileza, permite um alargamento no campo da liberdade de criação e de expressão, que não seria possível nem permitido na sociedade humana, limitada e preconceituosa.

A fantasia tem também um papel determinante no desenvolvimento infantil. As crianças não são capazes de perceber a realidade, pois esta é demasiado complexa — até para os adultos — sendo a fantasia uma espécie de suavizador que permite que pelo menos parte da realidade seja compreendida.

Quase todas as histórias, contos e lendas infantis são mentira, mas as crianças percepcionam-nas como realidade. Para elas, todas essas histórias são verdade. E são verdade por dois motivos: por um lado são facilmente compreensíveis — são histórias simples que não exigem esforço mental porque não exigem recurso à realidade concreta; por outro lado têm sempre um fundo de verdade — transmitem um conjunto de informações que apelam à realidade — um tempo; um espaço; pessoas; animais — e por isso são facilmente aceitáveis por elas.

Mas o papel principal da fantasia nas crianças é que transmite sempre uma mensagem, uma lógica, que apesar de inserida num contexto irreal será determinante para a compreensão posterior da realidade.

O problema surge quando a criança já não é criança e continua a não distinguir a fantasia da realidade: vive no sonho, vive feliz — mas se acordar!...

 

 

 

 

 


publicado por sl às 02:13
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Terça-feira, 13 de Novembro de 2007

Eternidade

ETERNIDADE

 

 

Considera-se eterno tudo o que não tem princípio nem fim. Se não tem principio, não tem origem, não nasceu, não foi criado nem inventado. E se não tem fim, não tem destino, não morre, não se extingue e não desaparece. Logo, se não tem uma nem outra coisa, também não pode ter existência. E não existe.

A eternidade realmente não existe. Não existe porque tudo tem princípio e fim. Ainda que o princípio e o fim, sejam indefiníveis por se perderem no infinito, ou que sejam quase simultâneos, eles existem, e a própria existência existe entre eles.

Tudo existe entre um princípio e um fim. Podem ser eternamente – humanamente — desconhecidos, mas existem. A existência de alguma coisa prova a existência do seu princípio e do seu fim. A não existência de principio e de fim prova a inexistência da coisa.

A eternidade, ou tudo o que não teve princípio e é igualmente infinito, apenas existe psicologicamente, em termos de lógica científica necessária ao abstraccionismo da racionalidade.

Se dividirmos dez por três, obteremos um número infinito (3,333...). A divisão deste número vai até à eternidade, não tem fim, mas é impraticável. A sua aplicação prática ou é arredondada ou perde-se para sempre, que é o mesmo que lhe atribuir um fim.

Na vida como na matemática, a eternidade só existe teoricamente. É uma impossibilidade prática real. Quando alguém diz que alguma coisa existe eternamente ou para sempre, está-se a referir a uma eternidade relativa. Existe até um fim indeterminado ou existe para sempre enquanto outra coisa existir, depois acaba também.

A eternidade é também usada pela religião de forma a dar um sentido à vida que é finita, tornando-a infinita em planos espirituais. Neste aspecto poderia dizer-se que a eternidade existe, por ser puramente espiritual. Mas o espírito só existe porque existe um corpo. Se o corpo morre, o espírito deixa de existir, e a eternidade com ele.

A eternidade só existe em imaginação. Tudo o que é eterno não existe real e naturalmente, porque tudo o que existe real e naturalmente tem fim, como teve princípio.

 

 

 


publicado por sl às 18:45
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