Sábado, 25 de Setembro de 2010

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Domingo, 8 de Novembro de 2009

Liberdade

LIBERDADE

 

 

 

Espaço dentro do qual nos movimentamos regulados por opções pessoais, voluntárias e conscientes.

A liberdade é uma produção da consciência humana — um animal pode estar livre ou em cativeiro mas não sabe disso, e pode expressar sinais que nós consideramos de satisfação ou de depressão, mas apenas são reacções naturais dele. É produção da consciência porque só conscientemente sabemos se somos livres ou não e até onde. Os escravos do passado nunca tiveram consciência se algum dia poderiam ser homens livres.

A liberdade é como um balão imaginário, no centro do qual nos encontramos a flutuar. Entre nós e as paredes do balão existe um espaço que é o nosso espaço de liberdade. Podemos partir do centro em todas os sentidos e direcções. Mas esse balão é de uma forma completamente irregular, porque é constituída pelos os limites da nossa liberdade. Cada pessoa teria assim um balão com uma forma diferente, porque a totalidade dos limites, quer físicos, quer psicológicos, é diferente para cada um, apesar de existirem limites que são iguais para todos.

A liberdade de cada um é o espaço entre si e os seus limites, e existem muitos tipos de limites. Existem limites perfeitamente definidos (por exemplo, velocidades máximas de circulação automóvel). Existem limites permanentemente indefinidos (por exemplo, quantidade de horas de sol nos primeiros dias de praia). Existem limites em constante crescimento (idade individual), decrescimento (distância entre o atleta e a sua meta) e mutação (estado do tempo). Existem limites com bruscos aumentos e reduções (saldos bancários). Existem limites que surgem e desaparecem (doenças e incapacidades temporárias) e limites permanentes (calendário). Existem limites desconhecidos (universo). Existem limites moldáveis (comportamento). E existem limites infinitos (divisão de uma unidade por três), como existe uma infinidade de limites...

Todos estes limites formam as paredes do nosso balão, que podemos observar nos diversos planos — planos fixos, planos que se aproximam e se afastam de nós, planos vibratórios, planos que nos atraem ou que nos repelem, planos que facilmente ultrapassamos, planos impossíveis de quebrar, planos inatingíveis, planos imperceptíveis e planos infinitos. Todos são o nosso limite em relação a qualquer coisa. A nossa liberdade existe entre nós e eles. Do lado de fora do balão encontram-se os outros e a natureza.

As barreiras que a natureza nos impõe colidem com as nossas capacidades naturais. Neste aspecto somos todos aproximadamente iguais, ainda que muito diferentes. Mas as barreiras que os outros nos impõem são as que colidem com a nossa vontade, e é nestas que reside o grande paradoxo da liberdade.

Porque a nossa liberdade começa onde acaba a liberdade dos outros e vice-versa. Assim, a nossa vontade – interior — tem que ser suficientemente forte para dominar os outros — no exterior — para que seja maior o nosso espaço de liberdade. Mas, por outro lado, essa vontade é originada pelo que recebemos dos outros, que são como nós, simplesmente, nós somos “um” e os outros são “todos”. Desta forma, se todos permitirem a liberdade a cada um, existe liberdade — ainda que condicionada — para todos, mas se todos quiserem mais liberdade que os outros, e como a maior liberdade de uns é a menor liberdade de outros, então os que obterão mais liberdade serão os que tiverem mais força para reduzirem a liberdade dos outros.

A liberdade é um espaço imaginário de todos. Mas só a alcança quem a consegue conquistar com inteligência. As pessoas que conquistam liberdade com a aniquilação dos ideais dos outros têm uma liberdade falsa, pois precisam de manter os outros afastados forçosamente, e a qualquer momento a força inverte-se a acaba a liberdade. A verdadeira liberdade existe com respeito mútuo, em democracia — a vontade de todos ou da maior parte — com inteligência e com sabedoria.

A liberdade é de certa forma uma utopia. Por um lado, todos ou a maior parte não são inteligentes nem sábios, e o respeito que uns deviam ter pelos outros para que fosse o mesmo que os outros tivessem pelos primeiros, é dúbio. A maioria escolhe o que pensa ser correcto, mas que raramente é. Por outro lado, devido à natural ambição, evolução e crescimento humano, tecnológico e populacional, cada vez mais, o espaço que é de todos é menos de cada um, porque é limitado.

A liberdade é um produto recente da história humana. No passado uns eram totalmente livres, reis e senhores enquanto que outros não tinham liberdade, sendo escravos e servos. Actualmente ninguém é totalmente livre e ninguém é totalmente escravo, mas todos somos livres e escravos em parte. A outrora muita liberdade de alguns transformou-se na actual alguma liberdade para todos.

Mas nem todos sabem ser homens livres. Porque a liberdade quando verdadeira exige mais que a servidão. O homem livre tem que saber que é livre e que os outros também são; tem que respeitar; tem que escolher; tem que pensar e tem que tomar decisões correctas, enquanto que o homem que não é livre tem quem faça isso por ele — e isto é mais cómodo.

O homem que tem liberdade, mas não sabe ser livre, sente-se perdido. A liberdade gera a perdição quando não existe sabedoria. O homem que é livre para escolher um de dois caminhos, mas não sabe qual escolher sente-se perdido. E pode ter que escolher um entre muitos caminhos.

Os limites da nossa liberdade são também as nossas referências. É pelos vários planos do balão que sabemos de onde e até onde podemos ir dentro do nosso espaço de liberdade. A liberdade é a nossa maior conquista, mas o seu excesso é a nossa perdição. Dentro de uma cela não podemos passar para além das grades, mas isolados num deserto infinito não tomaremos qualquer rumo.

A liberdade ideal consiste no equilíbrio entre a prisão e a perdição — nem demasiado presos nem demasiado perdidos. Os nossos limites e as nossas referências são os outros. A liberdade é um produto da sociedade civilizada e racional. Sem civismo não há liberdade.

Existem vários tipos de liberdade, cada um com diferentes limites. Existe a liberdade natural (o que a natureza permite que façamos) e a liberdade social nos seus diversos aspectos (civil, penal, militar, política, religiosa, profissional, comercial, familiar, desportiva, afectiva...) estando reunidas em cada indivíduo e formando uma espécie de liberdade individual, que é o estatuto que cada um alcança perante os outros e que lhe permite determinadas atitudes e comportamentos. Devemos saber o espaço que temos em cada uma, isto é, até onde devemos e podemos ir, em cada situação concreta, sem que isso interfira na liberdade dos outros desrespeitando-os,

O espaço cedido pela natureza, apesar de nem sempre ser definido é inviolável, pois o próprio corpo reage impedindo-nos de ultrapassarmos os limites. Mas o espaço cedido pela civilização só conscientemente é compreensível. As leis, códigos ou regras que nos são impostos pelos outros, de acordo ou não com a nossa opinião, podem ou não, ser violáveis. Sendo violáveis devemos saber até que ponto nos convém violar essas leis — esses limites de liberdade — porque qualquer violação, qualquer passagem para além da nossa liberdade em termos individuais ou colectivos, pode trazer consequências negativas graves. Temos que ter consciência se compensa pisar o risco — se é preferível viajar em excesso de velocidade ou chegar atrasado. Se o limite é imposto pela sociedade de forma regrada, podemos até saber o que nos poderá acontecer. Mas se o limite não é regrado, ou é individual, e o ultrapassamos entrando no espaço de liberdade do outro, esse outro pode ter reacções inesperadas, violentas e perigosas.

A liberdade tem que existir de parte a parte, e começa com o conhecimento dos deveres e dos direitos, passando obviamente pelo respeito mútuo. Perante o desconhecimento apenas podemos agir correndo riscos, ou com respeito e cautela, mas podemos assim não usufruir de todos os direitos e liberdade que temos.

A declaração dos direitos humanos foi um grande passo para a garantia da liberdade individual. Apesar de muitas vezes violada — porque o mundo actual é diversificado evolutivamente — a consagração dos direitos fundamentais de pensamento, consciência, opinião e expressão, garantiu a homem, a liberdade naquilo em que o espaço é infinito.

A liberdade de pensamento é infinita e ilimitada. Os limites do pensamento e da imaginação nunca colidirão com os limites de outrem. É como se existisse no nosso balão que limita a liberdade, um buraco ou um túnel, em que nós por muito que andássemos nele, nunca atingiríamos o fim e nunca nos cruzaríamos com ninguém. É a nossa maior liberdade. Dela nunca devemos abdicar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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Sábado, 13 de Junho de 2009

Lei

LEI

 

 

 

Uma lei é um conjunto de regras criadas pelas pessoas que compõem uma entidade e que visa estabelecer ordem nas relações entre as mesmas e a entidade.

O principal objectivo de uma lei é delimitar o espaço de liberdade que cada pessoa possui em relação a determinada organização social, cuja finalidade é garantir o respeito pela liberdade alheia de forma a que se possa viver socialmente.

Todas as leis existem em sociedade e são criadas e aplicadas por todos, pela maioria, ou pelos detentores do poder, conforme a política de organização social.

Se uma sociedade é democratizada cria as leis conforme os desejos da maioria, defendendo os direitos e exigindo o cumprimento dos deveres dessa maioria em igualdade de circunstâncias. Os criadores e defensores das leis serão os próprios aplicadores e cumpridores. Se a estrutura social não é democratizada, independentemente do regime por que se defina, serão os detentores do poder que criarão as leis e as imporão aos restantes membros da sociedade, independentemente da sua concordância ou não.

A organização civilizacional humana sempre funcionou por leis, independentemente da sua justiça, funcionalidade e racionalidade.

Uma lei justa, racional e funcional, que defenda a igualdade e o respeito pela diferença, só pode existir numa sociedade liberal, civilizada e livre, onde o voto da maioria é possível, realizado e respeitado,

Uma lei tanto pode existir como um código, conjunto de normas ou regras por que se estabelece um simples grupo de pessoas, com poucos estatutos objectivos para defender os interesses dos associados de uma forma colectiva, como pode existir numa associação ou empresa, ou ainda num estado ou numa nação para proteger os cidadãos, e pode ser universal, defendendo os direitos humanos, a natureza e a vida. Qualquer lei existe em função do número de pessoas que a ela se submetem ou por ela são submetidas — quanto maior o número mais abrangente é a lei. E todas as leis existem em hierarquia nunca se sobrepondo umas às outras, embora ocasionalmente possam haver colisões que em igualdade de poder devem respeitar-se mutuamente.

Todas as leis, excepto as naturais, são criadas por alguém, ainda que inconscientemente e colectivamente. Quando são aprovadas democraticamente, logo, pela maioria, serão as melhores possíveis no momento, pois possibilitarão a vida em sociedade e em liberdade e igualdade. Ainda que uma minoria esteja mais correcta, ao lhe ser dada aprovação, será maior o risco, pois só se saberá se estava correcta após a aplicação da lei, e se estiver errada, o preço a pagar pelo erro poderá ser elevado. Se for a maioria a estabelecer as regras, será a maioria a defende-las, a cumpri-las e principalmente a responsabilizar-se por elas. Só com a aprovação da maioria haverá estabilidade social, e só com estabilidade haverá crescimento.

A lei implica cumprimento e responsabilidade, mas esse cumprimento e responsabilidade devem ser livres e não impostos. Ou seja, da mesma forma que alguém deve ser livre para não cumprir a lei, também deve ser responsável para assumir as consequências desse não cumprimento, porque a lei quando existe é para ser cumprida e é para o bem de todos. No entanto, como é feita e aplicada por humanos, e os humanos não são seres perfeitos, pode, tanto a criação como a aplicação, estarem viciadas. E caberá a cada um defender-se tanto em nome da lei, como defender-se da própria lei. Naturalmente será uma questão de forças, mas é assim em tudo na vida.

Todos as leis, códigos, e normas de um estado de direito visam delimitar em igualdade cada cidadão de forma a que não interfira no espaço de outro, para que todos vivam em respeito mútuo, respeitando também as diferenças.

Cada código — civil, penal, comercial, criminal, da estrada, dos direitos humanos — determina objectivamente as limitações impostas e as condenações respectivas para cada infracção. Todos somos livres para cumprir ou deixar de cumprir as obrigações impostas, mas devemos saber até que ponto avançar e se compensa transgredir. Da mesma forma que devemos conhecer os nossos direitos.

Uma lei democrática define os direitos e os deveres de todos os cidadãos. Só com leis se vive em democracia e só democraticamente se organiza a vida em sociedade humana, equilibrando com a maior justiça possível, todos os desejos, vontades, necessidades e ambições, com as respectivas satisfações e realizações.

Só os humanos têm leis, porque só as sociedades humanas são artificiais, onde impera não a lei do mais forte por natureza, mas a lei do mais forte por justiça — ou por outra qualquer razão menos justa.

 

 

 

 

 

 


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Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Justiça

 

JUSTIÇA

 

 

 

Se existem dois adultos para serem alimentados e uma galinha que vai servir de alimento, é justo que cada adulto coma metade da galinha. Se existe um adulto e uma criança, é justo que o adulto tenha direito a uma parte maior e a criança a uma parte menor.

  A justiça consiste na divisão dos bens pelos pretendentes que a eles tenham direito e nas devidas proporções. As proporções justas são as que atingem o maior nível de equilíbrio entre todas as partes.

A natureza é regida por leis absolutas que visam o equilíbrio entre todas as partes, e que são justas. No entanto, a justiça, mesmo natural é relativa. O equilíbrio justo só pode existir entre partes iguais cujos opostos se complementam, mas quando as partes são diferentes, a justiça para uma pode ser injusta para outras, apesar de todas contribuírem para o equilíbrio global da vida. Aqui, a justiça que prevalece é a das partes cujas forças sejam superiores — se a raposa tem duas lebres para comer, mas só uma é suficiente para saciar o seu apetite, a lebre que vai ser comida, se pensasse, consideraria injusto ser comida ela e não a outra, já que eram iguais; a raposa não iria deixar de comer porque morreria de fome, nem comeria as duas porque morreria empanturrada; também não comeria metade de cada uma, porque ao matar as duas ficava sem alimento para uma próxima refeição; assim, comer uma das lebres ao acaso é a maior justiça possível ainda que injusta para uma lebre; também a raposa servirá de alimento a seres vivos superiores e a lebre se alimentará de inferiores; mas a lebre nunca comerá a raposa porque na natureza tudo tem a sua ordem que é intransponível, mesmo parecendo injusta.

Poderá então concluir-se que as injustiças da natureza são inevitáveis e contribuem para o desenvolvimento da mesma, podendo assim tornarem-se justas se considerarmos a natureza no seu todo.

E com o homem, por ser filho da natureza, acontece exactamente a mesma coisa. Uma criança também é um ser humano, mas se o adulto lhe der a parte menor da galinha, aquela limita-se a comer essa parte porque, além de não ter a noção de justiça, não teria outra alternativa porque o adulto é mais forte que ela e domina-a.

A justiça é a divisão dos bens em partes justas, mas quem considera como é que as partes são justas é quem detém o poder. Quem tem mais força é quem domina e é quem determina o que é a justiça, como é quem faz as leis. E naturalmente fá-las de acordo com os seus interesses. É assim em todos os aspectos da sociedade humana, desde a economia à família, passando pela política.

Em todos os lugares onde se encontrem pelo menos duas pessoas conscientes — porque a justiça só faz sentido quando em consciência, pois não se consideram as opiniões de quem não se encontra em juízo perfeito — existem duas concepções diferentes de justiça. E prevalecerá aquela que for mais forte, com base nas capacidades de argumentação e de coacção ou em último recurso de força física.

A justiça é também uma das criações psicológicas causadas pela consciência, com influência das heranças culturais do passado, e das ideologias adoptadas, ou criadas pelos seus defensores. Está em permanente transformação evolutiva, conforme as novas realidades sociais e humanas — até ao século XIX, seria justo castigar o escravo que desobedecesse ao seu senhor, actualmente será justo punir o senhor que possua um escravo. Qualquer assembleia governativa aprova regularmente leis que determinam que certos actos e omissões passam a ser crime ou deixam de o ser.

Para além da justiça criminal, que visa defender a sociedade em geral, existem outras formas de justiça regulamentadas pelos diversos códigos — civil, comercial, eclesiástico, militar — ou não regulamentadas, mas subentendidas pela ética, moral, usos, costumes e tradições.

O sentido da justiça tem tido uma progressão que partiu do irracional, inconsciente e desumano, tornando-se cada vez mais racional, consciente e humano, podendo-se concluir que quanto mais juízo, mais justiça.

E só com justiça se viverá numa sociedade equilibrada, com o máximo possível de igualdade, dignidade, fraternidade e liberdade. Mas isso implicará responsabilidade, respeito e até alguma submissão e resignação. E este é que é o problema, porque, para alguém ganhar outrem tem de perder, e se é certo que o mundo é de todos, também é certo que todos desejam o poder sobre ele. E se a natureza nos dotou de um sentido de justiça, muito antes nos dotou também de um sentido de ambição.

Este é o nosso único mundo e nele viveremos naturalmente com justiças e injustiças, desejando a justiça ambicionada, só possível com a ambição justa.

 

 

 

 

 

 

 

 


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Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Inteligência

INTELIGÊNCIA

 

 

 

A inteligência é a nossa capacidade de resolver problemas, de ultrapassar obstáculos e de enfrentar situações embaraçosas. Mas só fazendo-o com dignidade, com personalidade e com nível, e não de qualquer modo, isso seria esperteza. A inteligência requer qualidade, distinção, carácter e respeitabilidade.

A inteligência confunde-se muitas vezes com a erudição e com a intelectualidade, porque uma pessoa para ser verdadeiramente inteligente tem que ser erudita e intelectual, mas não o pode ser em demasia, pois a grande base caracterizadora da inteligência é o conhecimento e a sabedoria aliados à capacidade da sua aplicação prática. Saber tudo e conhecer tudo mas nada fazer, não é verdadeira inteligência.

Existem vários testes e teorias que pretendem medir a inteligência, mas na verdade, a inteligência é muito difícil de medir porque abrange demasiadas e complexas áreas.

Por um lado temos a teoria e a prática. Apenas teoria será demasiada intelectualidade e apenas prática será demasiada esperteza. Embora uma implique a outra, é por vezes grande o desfasamento existente entre ambas. Assim, o mais inteligente é aquele que consegue um nível mais elevado de harmonia entre a teoria e a prática.

Por outro lado temos a especialização e a globalidade. Saber tudo de uma coisa é ser inteligente apenas nessa área, mas a vida é demasiado vasta e nós temos necessidade de compreender diversas áreas em simultâneo. E como saber tudo de todas as coisas é completamente impossível, até porque o suporte da nossa inteligência é o nosso cérebro, e apesar de não imaginarmos qual seja a sua capacidade, sabemos que é limitada, sendo também limitada a nossa capacidade de inteligência. Assim, aqui, o mais inteligente é o que consegue um nível mais elevado de harmonia entre a especialização e a globalidade. Note-se que o nível mais elevado de harmonia não é o mais elevado nível médio. Para melhor exemplificação imaginemos a classificação de dois indivíduos em três áreas numa escala de zero a dez valores: o indivíduo A sabe quase tudo de medicina (nove valores), nada de mecânica (zero valores), e nada de culinária, totalizando nove valores; o indivíduo B compreende dois valores de medicina, dois de mecânica e dois de culinária, totalizando seis valores; assim, o individuo A atinge um maior nível médio, de três valores, contra dois do individuo B, mas o individuo B é o mais inteligente porque ao saber um pouco de tudo está mais capacitado para a vida. A especialização é importante para a vida social e colectiva, enquanto que a globalidade é importante para a vida individual. Este é apenas um exemplo virtual da melhor forma de medir a inteligência.

A inteligência é suportada fisicamente pelo cérebro com duas condicionantes, uma biológica e outra cultural. Biologicamente nós somos mais ou menos inteligentes conforme seja o nosso cérebro em termos de perfeição natural — hereditariedade e genética, saúde, doença ou acidentes são factores determinantes. Culturalmente somos mais ou menos inteligentes conforme soubermos usar o cérebro. E aqui é determinante o meio económico-social em que nascemos porque será dos princípios educacionais e culturais que recebemos no início da nossa actividade cerebral que formalizaremos as nossas primeiras ideias, concretizações e planeamentos, mesmo para a utilização do próprio cérebro.

A verdadeira inteligência é a capacidade de organização de informação no próprio cérebro — cada um no seu — com a finalidade de produzir actividade.

A simples introdução de dados desorganizados apenas serve para ocupar memória. Saber muitas coisas que não servem para nada não é inteligência. Inteligência é: isto serve para aquilo, porque... — lógica, compreensão, raciocínio, determinação, firmeza, juízo, sabedoria, organização, programação — como nos computadores.

O nosso cérebro funciona como um computador, e a nossa inteligência apenas é um vastíssimo conjunto de programas, que nós introduzimos nele, ou outros introduzem por nós, e assim, quanto mais perfeitos, completos e abrangentes forem esses programas mais inteligentes seremos.

 

 

 

 

 


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Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Instinto

INSTINTO

 

 

O homem tenta compreender pela sua inteligência e da forma mais racional possível tudo o que o rodeia. É assim com cada ser humano individual e é assim com o conjunto de todos os seres humanos de toda a história. Mas, o nível de capacidade de compreensão racional é limitado. Ou porque o é mesmo por natureza, ou porque o desenvolvimento ainda não é suficiente para a compreensão total ou mais elevada. Certamente a sua capacidade é limitada, mas os limites ainda não foram atingidos porque ainda se continua a evoluir. Só o futuro o dirá, mas no presente os factos são irrefutáveis, e dizem-nos que o homem ainda não compreende tudo o que o rodeia. E, apesar da subjectividade que esta afirmação pode compreender, porque se o homem sabe tudo porque tudo o que é sabível só o pode ser pelo homem, também o homem não sabe nada porque tudo o que ele sabe foi ele quem inventou, sem ninguém para além dele poder confirmar que está correcto, podendo assim estar tudo errado. E como o homem é insignificante perante a imensidão do universo, será exacto afirmar que o nível de conhecimento é menor que o nível de desconhecimento, de tudo o que existe.

O instinto é uma das coisas que o homem já sabe que existe, mas ainda não sabe porque existe. Como todas as coisas inexplicáveis começaram por ser atribuídas ao sobrenatural e passaram a ser atribuídas à natureza à medida que foram explicadas, também o instinto, apesar de ser parcialmente inexplicável é certamente natural. Ou talvez a explicação fique mesmo por aí, é assim, e natural, e basta.

Pois quando nós inadvertidamente pousamos a mão sobre o forno quente, sabemos que os sensores da pele ao sentirem o calor, enviam imediatamente uma mensagem ao cérebro, que este transforma numa ordem que faz os músculos agirem de forma a retirarem a mão do calor. Este processo é muito mais complexo quando explicado com pormenores científicos, mas a acção é tão rápida que podemos não a chegar a registar conscientemente. Sabemos que é assim, e sabemos como é com todos os pormenores, mas não sabemos porque é que é assim. É a natureza. E talvez a explicação mais plausível seja a regra de causa-efeito, cuja complexidade causa a acção, que por ser por natureza ínfima, não chega a ser compreensível conscientemente, e quando esmiuçada, acaba por se perder no nada. Porque o todo é mais do que a soma das partes, e o conhecimento das partes é insuficiente para explicar o todo.

Tudo o que acontece por instinto é tudo o que acontece por natureza, sem ser pensado. E como só o homem é que pensa — e nem sempre — então, tudo o que acontece para além do que é conscientemente planeado é instintivo. Mas, apesar dos movimentos cósmicos, atmosféricos, meteorológicos, florestais, aquáticos e de muitos outros movimentos minerais, vegetais e até animais e humanos, serem naturais, não significa que sejam instintivos. O sangue que corre nas veias, os pulmões que se dilatam e contraem, ou o cabelo que cresce, são movimentos que acontecem por natureza, mas que não podemos considerar instintivos, porque não os podemos controlar.

Assim, é instintivo todo o movimento natural que acontece inconscientemente, mas que é susceptível de poder acontecer conscientemente. Tudo o que acontece impensavelmente, mas que se considera que podia ser pensado. E como só o homem pensa, só ele pratica actos ou tem atitudes e comportamentos que são instintivos. E é ele que atribui aos animais as suas características instintivas, por serem os animais os seres vivos mais aproximados ao homem, e também dotados de inteligências inferiores, mais ou menos evoluídas conforme a sua espécie.

O instinto existe então em oposição à consciência. Só sabemos que não pensamos quando sabemos que podíamos ter pensado. Se não tivéssemos consciência nunca saberíamos que erramos. A consciência é também o suporte dos problemas psicológicos. Quando andamos com algum desequilíbrio psicológico, por preocupações, ansiedades, desejos, saudades, paixões, ódios ou remorsos em excesso, ficamos com a capacidade de pensar bloqueada, e o sangue “quente” que nos invade a mente leva-nos a praticar actos que só os outros ou nós mais tarde consideramos instintivos. No momento, como os animais, fazemos as coisas porque fazemos, naturalmente, com determinadas causas e efeitos, mas sem qualquer tipo de entendimento, compreensão, pensamento ou consciência.

Pelo meio fica tudo o que não é totalmente natural, nem totalmente consciente, e se mistura em doses de natureza e de consciência, que nos levam aos meandros da subjectividade, da diversidade e da reflexão.

 

 

 


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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Informação

 

INFORMAÇÃO

 

 

Entende-se por informação qualquer conjunto de dados registados numa memória, que serão interpretados por alguém.

É informação o conjunto dos nossos conhecimentos e recordações, alojadas na nossa memória, que reside no nosso cérebro. É informação todo o conteúdo de um livro e de todos os livros, jornais, revistas e documentos de todas as bibliotecas. É informação tudo o que está gravado em qualquer material desde os mais primitivos aos mais evoluídos: desde os fósseis, pinturas rupestres e rumas; passando pelos monumentos pré-históricos e seculares, pergaminhos, trajes e armas; por todas as expressões artísticas — esculturas, quadros em relevo, pintura, arquitectura, música, canções e teatro — e mais recentemente pela fotografia, pelos discos de vinil e fitas magnéticas de audio, também pelo cinema e vídeo, e pelos actuais discos de leitura “lazer” que registam informação das mais diversas formas; até às bandas magnéticas e micro-chips electrónicos em cartões que suportam muita informação em muito pouco material. Tudo é informação.

A informação em si é uma coisa passiva e inerte, mas a sua implicação no que lhe está inerente torna-a de uma importância extraordinária. A informação é o propulsor da evolução humana porque tudo o que caracteriza a evolução humana está em correlação com tudo o que caracteriza a informação.

Para existir informação é necessário existir matéria que a suporte; é necessário existir linguagem que a enrede; é necessário existir energia que a reproduza; e é necessário existir inteligência que a compreenda, porque, toda a informação é artificial e existe de e para o homem. Por analogia, a natureza tem a sua informação genética e biológica que se auto-reproduz. Também a informação humana caracteriza-se principalmente pelo facto de poder ser reproduzida — de nada servia gravar um disco que nunca pudesse ser ouvido ou escrever um livro que nunca pudesse ser lido.

O facto da informação poder ser reproduzida é que é a chave para o desenvolvimento humano. Se alguém pratica um acto e pode depois ver como o praticou, corrigirá possíveis erros e irá, no futuro, praticar o mesmo acto com mais perfeição. Entra também aqui o facto de o homem ser o único ser com consciência dos seus actos. Subentende-se assim o que a experiência proporcionará em milhares de anos. Repare-se ainda no crescimento cada vez mais galopante dos últimos anos em que a era da informação se tornou uma realidade. Um adolescente de hoje com um computador em casa ligado à internet tem acesso a mais informação que todos os habitantes do planeta há cem anos.

A informação é muito importante porque a sua reprodutibilidade transforma-a atemporal. Só com informação se consegue analisar um acontecimento do passado ou prever um acontecimento futuro. E como a transmissão da informação, além de poder acontecer de uma pessoa para ela própria, pode também acontecer de uma pessoa para muitas outras. É assim geradora de opiniões, conceitos, juízos e valores psicológicos — o romantismo do século XIX só existiu porque alguns autores no início desse século o fomentaram.

As novas tecnologias da informação, através da informática e audiovisual, encurtaram as distâncias no mundo, transformando todo o planeta numa “aldeia global” em que todos têm acesso a tudo em todo o lado — todos os que têm acesso às tecnologias. Mas, repare-se que este encurtamento é psicológico e artificial, como toda a informação é psicológica e artificial, criada pelo homem — se falhar a tecnologia, Nova Yorque fica do outro lado do oceano a milhares de quilómetros em relação a Lisboa, e apesar dos meios de transporte serem evoluídos, nunca alcançarão a velocidade da transmissão de informação que é instantânea.

A era da informação caracteriza-se também pela existência de inteligência artificial, só possível devido a grandes memórias artificiais usadas por automatismos próprios e com determinadas energias.

Também a inteligência humana consiste na capacidade de uso da informação que cada um tem na sua memória.

Um computador pode ter registados na sua memória todos os livros de uma biblioteca, mas isso de nada servirá se não tiver um programa que os ordene, procure e edite. Os programas informáticos são também informação memorizada com o fim de trabalhar outra informação.

Talvez ninguém imagine a quantidade de “bits” e “bytes” que seriam necessários para suportar toda a memória de recordações, instruções, conceitos, desejos, medos e tudo o mais que um ser humano compreende: “saber que o dia ‘x’ é um de tantos que tem tal mês entre outros doze do ano tal depois de Cristo, porque se contam assim os anos após o acerto do calendário pelo movimento do planeta em relação ao sol que é uma estrela porque... e foi nesse dia que ele nasceu; ou saber que o sapato preto diz bem com o fato azul porque esta é a cor do céu que se vê da janela do escritório para onde tem que se dirigir e causar boa impressão se não se perder em conversas fúteis e chegar atrasado porque... e tem que o calçar no pé”.

Tudo o que o homem sabe é informação. Tudo o mais que existe é natureza. Tudo o que faz conscientemente é porque está informado. Tudo o que faz inconscientemente é pura natureza. Quanta mais informação o homem tiver, mais consciente será.

 

 

 

 

 

 


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Domingo, 12 de Outubro de 2008

Imaginação

 

IMAGINAÇÃO

 

 

A imaginação é uma capacidade intelectual existente no homem, que consiste em seleccionar partes de registos existentes na memória, e de as reunir e organizar de forma a criar uma nova existência.

Para existir imaginação é necessário primeiro observar — através dos sentidos —, depois memorizar o que se observou — registar organizadamente —, depois dividir por partes as coisas memorizadas, e por fim reunir as partes numa nova organização para obter uma nova criação.

Todo este processo da imaginação é um processo mental, que pode ser parcialmente inconsciente — quando registamos informação sem qualquer controle consciente que mais tarde usamos de uma forma consciente ao recorrermos à memória —, e pode ser quase só consciente — quando estudamos para aprender e criamos como resultado da aprendizagem.

A memória é um conjunto infinito de dados que são registados por dois processos: ou muita informação inconsciente e aleatória, ou pouca informação consciente e estruturada. Imaginar é construir a partir da memória — por exemplo: se uma pessoa vê uma gaivota, um automóvel, e um moinho de vento, fica com estes três elementos registados na memória, e pode retirar em sonhos (desde que posteriormente se recorde deles) ou em pensamentos; as asas e o modelo do corpo da gaivota, as rodas e o motor do automóvel, e se o vento produz movimento na hélice do moinho, também a hélice do moinho produzirá movimento no vento, ou movimento no próprio moinho, e reestruturando estas partes poderá imaginar um avião. — Toda a imaginação funciona assim. Quantos mais elementos estiverem registados na memória e quanto mais forem trabalhados, maior será a imaginação.

A imaginação consiste em pegar em pedaços de informação da memória, e trazê-los à consciência para serem trabalhados. Estes procedimentos mentais são exclusivos do homem porque só o homem tem um cérebro desenvolvido para permitir tal possibilidade.

Assim, imaginar não é criar a partir do nada, mas criar a partir da memória, que como existe apenas mentalmente não pode ser visível nem mensurável, mas a sua existência é a base de todas as faculdades exclusivamente humanas, como a consciência, a inteligência, a criatividade e a imaginação.

A imaginação é um dos motores da evolução humana e está presente em todos os passos evolutivos. Sem imaginação apenas se observava e gravava a observação, e nada se construía a partir dela, artificialmente. Apenas existiria a evolução da vida natural, animal e vegetal. Com a imaginação é possível criar coisas novas a partir das existentes. A natureza comporta tudo e tudo cria de uma forma complexa e desconhecida para o homem, que por um lado é divinamente admirável — repare-se nas belas flores — e por outro lado é terrivelmente catastrófica — repare-se nas epidemias, tempestades e terramotos. A beleza e o terror das forças naturais atribuídas por convicção ao sobrenatural e ao acaso pertencem ao desconhecimento humano. O homem, com a sua imaginação, conseguiu criar um novo mundo — artificial. Esse mundo artificial está suspenso na natureza. A imaginação é ilimitada mas a sua concretização é limitada pela natureza. O valor da imaginação só é significativo quando pode ser aplicado na prática. Para ser aplicado tem que ser testado, e se as leis da natureza não permitirem essa aplicação, a coisa imaginada não passa daí -pode-se imaginar uma casa suspensa no ar, mas a natureza não permite a sua construção. A evolução, que a imaginação originou e direcciona, só seguirá até onde a natureza permitir. A natureza impõe limites, mas esses limites são constantemente alargados devido à criatividade humana, como se existisse uma luta entre a mãe-natureza que domina e o filho-homem que quer dominar.

O mundo artificial que a imaginação criou, partindo primeiro só da própria natureza, e depois partindo já da artificialidade, é um mundo que embora dentro dos limites naturais é totalmente diferente do natural.

A imaginação possibilitou a compreensão do mundo natural, primeiro religiosamente e depois racionalmente. Possibilitou a ascensão do homem, por conseguir melhor protecção e domínio perante os outros seres vivos. Possibilitou que o homem deixasse de ser apenas animal e passasse a ser Homem, com valores superiores de respeitabilidade, sabedoria e cultura. E possibilitou que tivesse uma vida com dignidade e espiritualidade.

Mas esse mundo artificial, produto da imaginação, é um mundo frágil. Frágil porque o homem quando imagina nunca pode prever as consequências da realização dessa imaginação, e pode chocar com os limites da própria natureza, ou da anterior artificialidade e originar acidentes. Porque ninguém conduz o homem no caminho da evolução. É ele que se autodirecciona com base na experiência do passado. E se com imaginação construiu coisas admiráveis que não existiam naturalmente — os transportes, por exemplo — também construiu coisas terrivelmente destruidoras.

A imaginação é assim uma criação da natureza no homem, para facultar a evolução do mesmo, dando seguimento à própria evolução natural. É controlada pela natureza não sendo possível ao homem conhecer esses limites aplicativos, apesar de ser ilimitada conceptualmente.

E o mais importante não é imaginar, mas criar com imaginação.

 

 

 


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Domingo, 14 de Setembro de 2008

Ilusão

 

ILUSÃO

 

 

É ilusão tudo aquilo que percepcionamos como real, mas que não o é. A vida contém múltiplas e variadas ilusões não só na sua componente humana, mas também animal e vegetal. Pode dizer-se que as ilusões são mesmo uma característica natural, embora o conhecimento das mesmas esteja limitado aos humanos. Todas as outras espécies, animais e vegetais, reagem naturalmente às ilusões, como os humanos, mas nunca poderão compreender que eram ilusões. As ilusões são assim uma prova da compreensão que os humanos têm da natureza, só possível pela sua excepcional consciência.

Uma ilusão é uma realidade falsa. No entanto, enquanto realidade, o efeito que uma ilusão provoca no ser iludido é exactamente o mesmo que provocaria uma realidade verdadeira, porque a ilusão só passa a existir quando a realidade que até então era considerada verdadeira passa a ser considerada falsa.

Tem assim um papel decisivo na descrição da ilusão, a nossa consciência, que possibilita o nosso entendimento da realidade no sentido de a considerar verdadeira ou falsa.

As ilusões podem-se dividir em dois tipos característicos: físicas e psicológicas. São físicas todas as ilusões que partem da natureza e são enviadas ao cérebro pelos nossos sentidos de uma forma deturpada. Os sentidos captam uma realidade análoga à que o cérebro regista, pois estão intrinsicamente unidos — a visão compreende todos os órgãos visuais e o cérebro — por exemplo, quando avistamos uma mancha de água numa auto-estrada num dia de calor, é isso mesmo que avistamos. É isso que os olhos vêm e o cérebro entende, se não tiver experiência do passado e conhecimento de que é o calor que produz tal efeito. Se uma pessoa não se deslocasse até próximo da mancha fazendo-a desaparecer, nunca saberia que é uma ilusão. Só a experiência e o conhecimento — consciente — definem a ilusão. Este tipo de ilusões acontece também nos animais, que podem ser percebidas conforme a experiência e a capacidade de percepção de cada animal, ou simplesmente manterem-se, por natureza. Os cães de Pavlov salivavam ao toque da campainha independentemente de lhes ser servida comida ou não, mas com várias experiências repetidas ganhavam novos hábitos. Muitos animais criam ilusões, por natureza ou instintivamente, com a finalidade de atraírem presas ou para acasalamento. Uma flor que abra só de dia devido à luz, manter-se-á aberta de noite com luz artificial. Esta luz é real para a flor, que apenas necessita dela para se manter aberta.

A ilusão só o é aquando do conhecimento de que essa não é a realidade. E se fisicamente tudo é mensurável porque tudo é exacto, e ainda assim existem ilusões porque é impossível conhecer conscientemente toda a realidade física, que dizer então das realidades psicológicas, que são originadas na cabeça de todos em geral, e na de cada um em particular.

Se alguém acredita numa coisa que não existe, vive numa ilusão, mas como acredita, essa coisa é real para essa pessoa. Só quando tomar consciência de que essa não é a realidade é que descobre ter vivido a ilusão.

As ilusões psicológicas formam-se juntamente com a formação da mentalidade. À medida que vamos tomando consciência do mundo que nos rodeia, através do registo de dados na nossa memória, vamos criando ideias, crenças, verdades e mentiras que caracterizarão a nossa personalidade. E essa será condicionada basicamente pela sociedade, pelas nossas capacidades neuropsicológicas e pelo nosso passado.

E as ilusões fazem sempre parte do passado porque só no futuro é que saberemos quanto iludidos estamos no presente. No entanto, a flor é mais bela aberta pela luz artificial, que eternamente fechada.

 

 

 

 

 

 


publicado por sl às 01:28
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Sábado, 29 de Dezembro de 2007

 

 

Ter fé é acreditar numa coisa sem necessidade de ter provas.

E acreditar numa coisa é considerar que ela existe e viver de acordo com essa existência.

Tudo o que existe influencia os nossos comportamentos e atitudes, e tudo o que não existe, mas que nós consideramos que existe provoca em nós os mesmos efeitos como se existisse. Porque tudo o que nos causa impacto físico gera reacções físicas, como tudo o que nos causa impacto psicológico gera reacções psicológicas. A fé é uma criação psicológica. Não existe fé material.

Um objecto material é observado por todos da mesma forma, cor, luz, textura, dimensão, e etc; e, ainda que a sua definição seja variada, facilmente se chega a consenso. Mas uma coisa que é fruto do espírito humano — porque só o ser humano cria existências psicológicas — não é observável por não ser traduzida pela matéria.

A fé é psicológica. Os animais não têm fé porque não têm consciência. A fé não se pode entender pela matéria. Apenas se traduz por ideias ou por obras. As ideias são a maior abstracção e as obras podem surgir pelas mais diversas razões. Não se prova a fé.

Aquilo em que se acredita quando se tem fé, apesar de existir para quem acredita, pode não existir realmente, porque a fé não nasce da razão, mas dos sentimentos. A fé nasceu antes da razão porque a religião nasceu antes da ciência, mas sempre existiram em oposição, porque a fé não permite a existência de dúvidas, e a ciência duvida de tudo. Então, conforme a ciência foi evoluindo e provando o que é verdade ou não, a fé aceitou as provas coincidentes e rejeitou as discordantes.

Com a evolução humana, a fé vai-se adaptando às novas realidades. E há-de existir sempre porque, por um lado nós nunca seremos todos inteligentes ou nunca conheceremos tudo o que nos rodeia — e a própria fé barra essa possibilidade — e por outro lado, como todos nascemos crianças, somos por natureza obrigados a acreditar no que nos ensinam, porque só mais tarde adquirimos capacidade de percepção racional, para além da memorização que fica do passado.

A fé é uma aliada da ignorância e da desejabilidade. Quanto mais desejamos uma coisa mais temos fé que ela se torne realidade. Mas ao tomarmos conhecimento que essa coisa não se tornará realidade, a nossa fé perde-se. A fé nos deuses existe devido à nossa ignorância perante a vida, e ao desejo que temos de que tais sejam uma realidade. E essa fé é tão forte que os torna uma realidade para quem a tem.

Como a fé é de origem sentimental, e tudo o que é de origem sentimental não se explica pela razão, de nada serve explicar a fé para quem a tem, porque, quem a tem, ainda que as evidências a neguem claramente, não se deixa influenciar por elas. E se por ventura, alguém que afirmava ter fé, deixasse de a ter após estas breves palavras, não teria fé certamente.

 

 

 


publicado por sl às 00:51
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