Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Justiça

 

JUSTIÇA

 

 

 

Se existem dois adultos para serem alimentados e uma galinha que vai servir de alimento, é justo que cada adulto coma metade da galinha. Se existe um adulto e uma criança, é justo que o adulto tenha direito a uma parte maior e a criança a uma parte menor.

  A justiça consiste na divisão dos bens pelos pretendentes que a eles tenham direito e nas devidas proporções. As proporções justas são as que atingem o maior nível de equilíbrio entre todas as partes.

A natureza é regida por leis absolutas que visam o equilíbrio entre todas as partes, e que são justas. No entanto, a justiça, mesmo natural é relativa. O equilíbrio justo só pode existir entre partes iguais cujos opostos se complementam, mas quando as partes são diferentes, a justiça para uma pode ser injusta para outras, apesar de todas contribuírem para o equilíbrio global da vida. Aqui, a justiça que prevalece é a das partes cujas forças sejam superiores — se a raposa tem duas lebres para comer, mas só uma é suficiente para saciar o seu apetite, a lebre que vai ser comida, se pensasse, consideraria injusto ser comida ela e não a outra, já que eram iguais; a raposa não iria deixar de comer porque morreria de fome, nem comeria as duas porque morreria empanturrada; também não comeria metade de cada uma, porque ao matar as duas ficava sem alimento para uma próxima refeição; assim, comer uma das lebres ao acaso é a maior justiça possível ainda que injusta para uma lebre; também a raposa servirá de alimento a seres vivos superiores e a lebre se alimentará de inferiores; mas a lebre nunca comerá a raposa porque na natureza tudo tem a sua ordem que é intransponível, mesmo parecendo injusta.

Poderá então concluir-se que as injustiças da natureza são inevitáveis e contribuem para o desenvolvimento da mesma, podendo assim tornarem-se justas se considerarmos a natureza no seu todo.

E com o homem, por ser filho da natureza, acontece exactamente a mesma coisa. Uma criança também é um ser humano, mas se o adulto lhe der a parte menor da galinha, aquela limita-se a comer essa parte porque, além de não ter a noção de justiça, não teria outra alternativa porque o adulto é mais forte que ela e domina-a.

A justiça é a divisão dos bens em partes justas, mas quem considera como é que as partes são justas é quem detém o poder. Quem tem mais força é quem domina e é quem determina o que é a justiça, como é quem faz as leis. E naturalmente fá-las de acordo com os seus interesses. É assim em todos os aspectos da sociedade humana, desde a economia à família, passando pela política.

Em todos os lugares onde se encontrem pelo menos duas pessoas conscientes — porque a justiça só faz sentido quando em consciência, pois não se consideram as opiniões de quem não se encontra em juízo perfeito — existem duas concepções diferentes de justiça. E prevalecerá aquela que for mais forte, com base nas capacidades de argumentação e de coacção ou em último recurso de força física.

A justiça é também uma das criações psicológicas causadas pela consciência, com influência das heranças culturais do passado, e das ideologias adoptadas, ou criadas pelos seus defensores. Está em permanente transformação evolutiva, conforme as novas realidades sociais e humanas — até ao século XIX, seria justo castigar o escravo que desobedecesse ao seu senhor, actualmente será justo punir o senhor que possua um escravo. Qualquer assembleia governativa aprova regularmente leis que determinam que certos actos e omissões passam a ser crime ou deixam de o ser.

Para além da justiça criminal, que visa defender a sociedade em geral, existem outras formas de justiça regulamentadas pelos diversos códigos — civil, comercial, eclesiástico, militar — ou não regulamentadas, mas subentendidas pela ética, moral, usos, costumes e tradições.

O sentido da justiça tem tido uma progressão que partiu do irracional, inconsciente e desumano, tornando-se cada vez mais racional, consciente e humano, podendo-se concluir que quanto mais juízo, mais justiça.

E só com justiça se viverá numa sociedade equilibrada, com o máximo possível de igualdade, dignidade, fraternidade e liberdade. Mas isso implicará responsabilidade, respeito e até alguma submissão e resignação. E este é que é o problema, porque, para alguém ganhar outrem tem de perder, e se é certo que o mundo é de todos, também é certo que todos desejam o poder sobre ele. E se a natureza nos dotou de um sentido de justiça, muito antes nos dotou também de um sentido de ambição.

Este é o nosso único mundo e nele viveremos naturalmente com justiças e injustiças, desejando a justiça ambicionada, só possível com a ambição justa.

 

 

 

 

 

 

 

 


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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Informação

 

INFORMAÇÃO

 

 

Entende-se por informação qualquer conjunto de dados registados numa memória, que serão interpretados por alguém.

É informação o conjunto dos nossos conhecimentos e recordações, alojadas na nossa memória, que reside no nosso cérebro. É informação todo o conteúdo de um livro e de todos os livros, jornais, revistas e documentos de todas as bibliotecas. É informação tudo o que está gravado em qualquer material desde os mais primitivos aos mais evoluídos: desde os fósseis, pinturas rupestres e rumas; passando pelos monumentos pré-históricos e seculares, pergaminhos, trajes e armas; por todas as expressões artísticas — esculturas, quadros em relevo, pintura, arquitectura, música, canções e teatro — e mais recentemente pela fotografia, pelos discos de vinil e fitas magnéticas de audio, também pelo cinema e vídeo, e pelos actuais discos de leitura “lazer” que registam informação das mais diversas formas; até às bandas magnéticas e micro-chips electrónicos em cartões que suportam muita informação em muito pouco material. Tudo é informação.

A informação em si é uma coisa passiva e inerte, mas a sua implicação no que lhe está inerente torna-a de uma importância extraordinária. A informação é o propulsor da evolução humana porque tudo o que caracteriza a evolução humana está em correlação com tudo o que caracteriza a informação.

Para existir informação é necessário existir matéria que a suporte; é necessário existir linguagem que a enrede; é necessário existir energia que a reproduza; e é necessário existir inteligência que a compreenda, porque, toda a informação é artificial e existe de e para o homem. Por analogia, a natureza tem a sua informação genética e biológica que se auto-reproduz. Também a informação humana caracteriza-se principalmente pelo facto de poder ser reproduzida — de nada servia gravar um disco que nunca pudesse ser ouvido ou escrever um livro que nunca pudesse ser lido.

O facto da informação poder ser reproduzida é que é a chave para o desenvolvimento humano. Se alguém pratica um acto e pode depois ver como o praticou, corrigirá possíveis erros e irá, no futuro, praticar o mesmo acto com mais perfeição. Entra também aqui o facto de o homem ser o único ser com consciência dos seus actos. Subentende-se assim o que a experiência proporcionará em milhares de anos. Repare-se ainda no crescimento cada vez mais galopante dos últimos anos em que a era da informação se tornou uma realidade. Um adolescente de hoje com um computador em casa ligado à internet tem acesso a mais informação que todos os habitantes do planeta há cem anos.

A informação é muito importante porque a sua reprodutibilidade transforma-a atemporal. Só com informação se consegue analisar um acontecimento do passado ou prever um acontecimento futuro. E como a transmissão da informação, além de poder acontecer de uma pessoa para ela própria, pode também acontecer de uma pessoa para muitas outras. É assim geradora de opiniões, conceitos, juízos e valores psicológicos — o romantismo do século XIX só existiu porque alguns autores no início desse século o fomentaram.

As novas tecnologias da informação, através da informática e audiovisual, encurtaram as distâncias no mundo, transformando todo o planeta numa “aldeia global” em que todos têm acesso a tudo em todo o lado — todos os que têm acesso às tecnologias. Mas, repare-se que este encurtamento é psicológico e artificial, como toda a informação é psicológica e artificial, criada pelo homem — se falhar a tecnologia, Nova Yorque fica do outro lado do oceano a milhares de quilómetros em relação a Lisboa, e apesar dos meios de transporte serem evoluídos, nunca alcançarão a velocidade da transmissão de informação que é instantânea.

A era da informação caracteriza-se também pela existência de inteligência artificial, só possível devido a grandes memórias artificiais usadas por automatismos próprios e com determinadas energias.

Também a inteligência humana consiste na capacidade de uso da informação que cada um tem na sua memória.

Um computador pode ter registados na sua memória todos os livros de uma biblioteca, mas isso de nada servirá se não tiver um programa que os ordene, procure e edite. Os programas informáticos são também informação memorizada com o fim de trabalhar outra informação.

Talvez ninguém imagine a quantidade de “bits” e “bytes” que seriam necessários para suportar toda a memória de recordações, instruções, conceitos, desejos, medos e tudo o mais que um ser humano compreende: “saber que o dia ‘x’ é um de tantos que tem tal mês entre outros doze do ano tal depois de Cristo, porque se contam assim os anos após o acerto do calendário pelo movimento do planeta em relação ao sol que é uma estrela porque... e foi nesse dia que ele nasceu; ou saber que o sapato preto diz bem com o fato azul porque esta é a cor do céu que se vê da janela do escritório para onde tem que se dirigir e causar boa impressão se não se perder em conversas fúteis e chegar atrasado porque... e tem que o calçar no pé”.

Tudo o que o homem sabe é informação. Tudo o mais que existe é natureza. Tudo o que faz conscientemente é porque está informado. Tudo o que faz inconscientemente é pura natureza. Quanta mais informação o homem tiver, mais consciente será.

 

 

 

 

 

 


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Domingo, 18 de Novembro de 2007

Evolução

 

EVOLUÇÃO

 

 

Falar de evolução no sentido abstracto do termo significa falar de evolução humana. O Homem é um ser em constante evolução. Desde que se conhece e até onde se conhece — caminhando em direcção ao passado — sempre existiu evoluindo, no sentido em que ele próprio se considera evoluir.

Apesar de alguns indícios indicarem a existência de civilizações evoluídas no passado, no conhecimento científico actual, esses indícios não são considerados verdadeiros, perdendo-se assim o conhecimento do passado nos meandros do esquecimento, embora direccionado para a involução até à própria natureza, cada vez mais no sentido bruto.

Segundo as teorias mais consensuais do mundo científico, tudo existe na natureza, representado por átomos e em duas formas: matéria e energia. Como ambas se transformam uma na outra, então uma e a outra são a mesma.

Os átomos — e tudo o que os compreende — todos juntos formam tudo o que existe, desde a maior inactividade à maior actividade. Uma rocha é uma composição de matéria permanentemente inactiva, e um coração é uma composição de matéria permanentemente activa — sob o ponto de vista humano.

Assim, dentro dos limites do conhecimento — humano — porque não conhecemos a verdadeira origem do universo nem a sua evolução, se é que existem, pois todas as afirmações a isto referentes são teorias não comprovadas, ainda que lógicas — toda a evolução segue no sentido da maior simplicidade, na composição atómica, para a maior complexidade, dessa composição.

Se colocarmos num recipiente areia, água e azeite e agitarmos tudo, obteremos uma mistura homogénea. Se deixarmos de agitar, os três elementos separam-se. Também se imagina que no início dos tempos toda a composição da vida se encontrava igualmente misturada numa massa homogénea, que, com o passar dos tempos e com a estabilidade cósmica, cada vez mais os elementos foram-se diferenciando do todo, agrupando por partes, e reunindo essas partes em doses complexas que originaram a vida.

No sentido inverso, e imaginando para melhor compreensão, se reuníssemos um elefante, uma árvore, um automóvel, e uma viga de betão armado, e ralássemos tudo o mais possível, obteríamos uma pasta com peso, densidade, humidade, pressão, temperatura, cor e outras características específicas. Ninguém conseguiria localizar e extrair dessa pasta o sangue ou a pele do elefante, a madeira ou o fruto da árvore, a gasolina ou o vidro do automóvel, e o cimento ou o ferro da viga, mas tudo estava lá.

A separação das partículas elementares da matéria e a sua reorganização, são o resultado de muitos milhões de anos de estabilidade e de reunião de condições de evolução, começando por serem criadas as matérias inorgânicas e depois as matérias orgânicas que deram origem à vida. Os minerais, vegetais, animais e por fim os humanos, são todos provenientes dessa massa inicial, e existem desde as formas mais simples às mais complexas.

A evolução é a criação de coisas novas com base nas anteriores. Tudo existe na natureza desde o princípio ou desde sempre e é apenas transformado para maior complexização,

A evolução da vida na natureza, vegetal e animal, precede a evolução humana, mas ambas seguem os mesmos trajectos, até porque a evolução humana também é natural. Os seres vivos evoluem conforme a teoria da evolução natural das espécies, em que o ser mais forte vence sempre, tornando-se o gerador de descendência.

O homem é o ser vivo mais evoluído porque possuí o sistema mais complexo de organização celular. Todos os seres vivos são organizações de células. As células são a mais elementar matéria viva. São diversificadas conforme a sua estrutura molecular formada pela composição atómica. Os átomos — matéria ou energia — que formam as moléculas que formam o sistema nervoso do corpo humano, são a mais evoluída estrutura de matéria viva natural. Por isso criaram o pós-material: o espiritual.

O espiritual nasceu com a linguagem e a consciência, e toda a evolução artificial nasceu também daí. A evolução humana é originada na sua inteligência. Com ela, o homem domesticou animais, cultivou plantas, criou sociedades civilizadas, dominou muitos obstáculos naturais, e começou a conhecer-se a si próprio e ao lugar que ocupa na natureza. Cada nova geração é mais evoluída que a anterior porque acumula os ensinamentos precedentes com a experiência própria.

A evolução artística, económica, social, tecnológica e científica, é idêntica à evolução natural. A opinião do mais forte é a que prevalece. Mas o mais forte pode não ser o mais inteligente, e por isso toda a criação humana é de uma artificialidade de segurança relativa. A evolução humana não é totalmente consciente. Evoluímos na direcção que a natureza nos permite e que queremos, mas não sabemos porque queremos, porque ninguém controla nem explica a evolução.

E se a natureza é de uma diversificação imensa, que criou infinitas formas de vida, não sabemos se a sua própria evolução e principalmente se a nossa evolução humana, é a única forma de evolução ou se é uma de muitas variantes possíveis, porque tudo o que nós – humanos — sabemos, aprendemos pelos nossos próprios meios — ninguém mais inteligente nos ensinou nada — e podemos estar totalmente errados.

Enquanto não acontecer nenhuma catástrofe a nível planetário, e a estabilidade natural e a vida se mantiverem, continuaremos a evoluir, e poderemos um dia saber porquê — ou não.

 

 


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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Espírito

 

 

 

ESPÍRITO

 

 

O espírito é uma das características humanas que mais acentua a diferença existente entre o ser humano e os outros seres vivos. O espírito humano identifica-se também como “alma” — sinónimo religioso — e como “psique” — sinónimo derivado do grego que acabou por ser adoptado no mundo científico, pelas palavras “psíquico” e “psicológico”. O espírito é algo que se traduz pela alma da religião e pelo psíquico da ciência. A religião chama “alma” ao espírito e tem uma explicação consistente para essa concepção, da mesma forma que a ciência tem uma explicação para lhe chamar “entidade psicológica”.

O espírito é algo que existe no homem e apenas neste, e é nesse espírito que se encontra a grande superioridade humana. Mas não é ainda possível clarificar consensualmente o que é o espírito, pois a sua essência justifica esta impossibilidade, apesar de, no entanto, lhe serem atribuídas muitas caracterizações e definições.

O espírito é uma entidade abstracta incognoscível, excepto pelas suas manifestações e principalmente pelas teorizações dessas manifestações. Não há um acesso directo ao espírito, mas um acesso às suas manifestações. Não sendo uma entidade concreta, o espírito não se pode localizar espacialmente, mas por aproximação e idealização, imagina-se que o espírito possa estar “localizado” no cérebro humano sob uma forma imaterial.

As células cerebrais recebem permanentemente enormes quantidades de informação através dos sentidos e do interior do próprio corpo. Esta informação é registada na memória. A memória é composta por, calcula-se, cinco por cento de consciente e noventa e cinco por cento de inconsciente. No nosso quotidiano racional humano apenas funcionamos com o consciente, pois somos seres racionais. Mas se nós quisermos deixar de ser racionais e conscientes — embriagando-nos, tomando alucinogénios, medicamentos não receitados ou produtos tóxicos, trabalhando ou praticando exercício físico excessivamente, abstendo-nos de alimentos ou de dormir, etc; etc. — ou se por acidente ou doença, deixarmos de ser racionais e conscientes involuntariamente, ou por outras palavras, se o nosso corpo for privado das suas necessidades vitais, ou se receber ou expelir qualquer coisa em excesso ou em defeito, em relação àquilo para que está naturalmente preparado, entra em desequilíbrio, e o cérebro, como órgão corporal físico que também é, entra também em desequilíbrio. Este desequilíbrio no cérebro baralha a memória e transforma o ser humano racional e consciente em irracional e inconsciente. A perda parcial ou total de consciência deixa livre o caminho para o inconsciente que é inconfundivelmente maior e quase todo desconhecido. É quase todo desconhecido porque a maior parte das coisas que o nosso cérebro regista na memória não chega a passar pela consciência. Por exemplo, conscientemente este texto está a ser lido, mas inconscientemente o cérebro está a registar o que o leitor sente sobre ele, se concorda ou não, se provoca prazer ou repugnância, as vezes que o leitor se enganou, que recuou ou repetiu, a cor do papel, a forma da letra, a luz que nele incide, todos os sons, movimentos e odores que os sentidos conseguem alcançar, as dores musculares, os movimentos oculares — uma lista interminável de coisas que ficam no cérebro inconscientemente. Então, quando o caminho está livre, nós podemos ter acesso a coisas ou manifestar coisas vindas do nosso cérebro, que nunca nos passariam pela cabeça conscientemente. São tudo coisas vindas do nosso inconsciente inconscientemente, pois só inconscientes temos acesso ao nosso inconsciente da mesma forma que só conscientes conseguimos raciocinar.

O espírito é tudo o que o cérebro contém consciente e inconscientemente. A ciência define o espírito a partir do consciente atribuindo-lhe todas as faculdades psicológicas e espirituais, como o racionalismo, a identidade, a personalidade, a mentalidade, os sonhos, os desejos, os medos, etc. A religião define o espírito a partir do inconsciente, considerando todas as manifestações do inconsciente como sendo das almas, dos mortos, dos anjos, do sobrenatural, do outro mundo, de Deus e da eternidade.

O espírito é tudo isto. Se enquanto dorme, o homem sonha eroticamente com a mulher, a ciência pela psicologia afirma que é o “id” a satisfazer um desejo que o “ego” não satisfaz porque o “superego” não permite. A religião, pelas suas doutrinas, afirma que é a tentação da carne, que simboliza o mal.

O espírito continua a ser um grande enigma para o homem, porque conscientemente apenas é o que a psicologia consegue teorizar. E inconscientemente apenas se manifesta em estados de consciência alterada, e sempre involuntária e imprevisivelmente, não se podendo estudar científica e racionalmente.

O espírito está no cérebro. O cérebro emite ondas eléctricas. As ondas cerebrais variam conforme o estado de espírito e conforme a actividade cerebral. Se o cérebro se alterar, a energia que dele pode ser libertada pode criar os mais imprevisíveis fenómenos.

Visões e fantasmas; movimentos, sons, odores e manifestações corporais absurdas; sonhos premonitórios; pesadelos; e etc; são manifestações do espírito vindas do inconsciente.

Inteligência, consciência, justiça, paz, ternura, respeito, amizade, civismo, liberdade, igualdade, fraternidade e etc; são manifestações do espírito vindas do consciente.

O nosso espírito crítico, aliado ao nosso espírito humano, saberão escolher qual a espiritualidade que mais nos convém e por ela guiarmos a nossa vida.

 

 




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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007

Emoções

EMOÇÕES

 

 

As emoções são exteriorizações dos sentimentos.

O ser humano é o ser mais evoluído por natureza. Possui um corpo que compreende partes exclusivamente animais e partes exclusivamente humanas. Quase todos os órgãos do corpo humano são anatomicamente análogos aos dos outros animais da sua classe. Apesar de alguns animais possuírem alguns órgãos com capacidades maiores que os humanos, estes, possuem um conjunto anatómico desenvolvido que ultrapassa todas as capacidades de todos os outros.

Resultado de milhares e milhares de anos de evolução natural, o aparelho vocal humano que produz dezenas de fonemas e o seu cérebro que os memoriza, formaram o duo ideal para a criação da racionalidade. Falar e pensar, e memorizar o que se pensa e fala, só o homem consegue.

Então, a racionalização humana criou novos valores, novas ideias e novas realidades. E essas novas realidades reforçaram o crescimento de outras. A linguagem obriga ao desenvolvimento do cérebro e vice-versa, e ambas obrigam ao desenvolvimento de todo o corpo humano. Os sentidos humanos tornaram-se os mais desenvolvidos — o apuramento do paladar, olfacto, audição, e principalmente do tacto, são muito desenvolvidos no homem, assim como a visão, nomeadamente na sua sensibilidade às cores.

Todos estes aspectos criarem novas necessidades ao ser humano, incluindo as formas de expressar, não só o que sentiam pela sua natureza animal, mas também o que sentiam pela sua capacidade de criação mental. Por essa razão, a natureza dotou o ser humano de características únicas, como a capacidade de corar porque mente, chorar porque está triste e rir porque está alegre. Ou corar, chorar ou rir pelos mais diversos motivos.

Qualquer sentimento emocional é um acumular de tensão que tem origem em tudo o que nos rodeia ou em nós próprios e vai contra a nossa capacidade de reacção ou de compreensão. As emoções são a forma de esvaziar essa tensão.

Os animais não têm compreensão, por isso não têm sentimentos, por isso não acumulam tensão emocional ou nervosa, e por isso não riem nem choram.

O choro e o riso — diferentes e iguais, porque a chorar também se ri e a rir também se chora — são as formas de expressar os sentimentos ou as emoções. São as formas de libertarmos as tensões acumuladas por sermos humanos. Se uma pessoa tem vontade de fazer alguma coisa, mas não a faz porque a consciência — a sociedade, a cultura, a religião, a lei e tudo o que é de origem humana — não permite, aí vai ser criada uma tensão emocional que pode ser expressa das mais variadas formas: com depressão, com violência, com apatia, e acompanhada normalmente com tristeza por ser uma tensão negativa. Da mesma forma, se uma pessoa é aclamada por algo que não esperava, ou se sente uma satisfação superior à imaginada, fica também sem conseguir compreender e reagir. Acumula igualmente tensão que precisa ser igualmente esvaziada pelas emoções — agora de alegria. É o regresso do corpo ao equilíbrio saudável.

As inúmeras concepções humanas causadas pela racionalização — honra, orgulho, respeito, desejo, ambição, esperança, ansiedade, saudade — são a causa das emoções. O cordeiro tem medo do lobo faminto, e foge ou morre. O homem também tem medo do lobo faminto, mas sabe que o tem, e por isso, ou se protege e perde o medo, ou não se protege e como sabe que o lobo o vai atacar, acumula ainda mais medo.

As emoções existem devido à alteração que a consciencialização humana fez da natureza. Os humanos reagem a tudo de uma forma artificial, que pode ser melhor ou pior, pois não têm medo do que é perigoso, mas do que eles pensam que é perigoso. E reagem a tudo conforme a sua concepção da realidade. Um motivo de alegria numa cultura pode ser motivo de tristeza noutra.

Os animais nada compreendem e por isso não têm sentimentos nem emoções. Nós temos sentimentos e emoções porque compreendemos umas coisas, mas não compreendemos outras. Se nós compreendêssemos tudo, também não teríamos emoções. As emoções estão intimamente ligadas ao desconhecido, ao duvidoso, ao ambíguo e ao incerto. Não existem emoções referentes àquilo que nós conhecemos ou desconhecemos totalmente. O que é totalmente consciente e totalmente inconsciente não emociona — nem se emociona.

O homem provém do animal, evolui no sentido de largar o inconsciente e atingir o consciente. Resta saber se algum dia vai ser predominantemente consciente já que não o consegue ser totalmente, porque tem um corpo natural biológico. E como no passado longínquo, o homem só passou a ser homem quando herdou a consciência, também no futuro, se o homem perdesse a inconsciência deixaria certamente de ser homem.

Porque o homem é homem enquanto for simultaneamente consciente e inconsciente e se emocionar.

 

 

 


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Sábado, 4 de Agosto de 2007

Destino

DESTINO

 

 

O destino pode-se entender de duas formas. Neste texto vamos pôr de parte o destino concreto e racional, ou seja, aquele local para onde sabemos que caminhamos, e vamos apenas referir-nos ao destino desconhecido — a sorte ou o fado — que nós guiamos apesar de considerarmos que é ele que nos guia.

As estrelas traçaram no destino a esperança que este texto transforme o triste fado do passado numa vida cheia de sorte no futuro. E isto só acontecerá para quem é supersticioso e acredita no destino, deixando de acreditar nele após a sua compreensão.

Pois de facto, este destino não existe. O destino previamente demarcado por alguém ou por alguma coisa para determinar a orientação da vida de alguém é pura ficção. Ninguém tem um destino ou um fado previamente determinado. Todas as atribuições ao destino nesse sentido são pura superstição ou ignorância. O destino não existe como realidade.

Todos nós temos um passado, que existe desde que nascemos até agora. Temos um presente que é o momento que estamos a viver agora — e que já é passado — porque estas já são outras palavras, e o nosso presente agora é este, aqui, nesta palavra, que vai correndo como o movimento dos olhos e a recepção no cérebro. Só este é presente. Tudo o que está para trás é passado e o que está para a frente é futuro. Tudo o que está escrito a partir daqui é futuro. O próximo parágrafo é futuro.

Mas deixa de ser futuro, e passa a ser presente enquanto que o parágrafo anterior passou a ser passado. Se fosse possível, no presente, saber qual o destino futuro, não haveria necessidade de alcançar o futuro, pois poderia antecipar-se ou adiar-se a sua vivência. Mas não é possível, e daí a sua necessidade de o viver. No entanto, é no presente que se decide, parcialmente e perante as mais variadas circunstâncias, o que vai ser o futuro. Existem coisas que somos obrigados a seguir, perante as leis da sociedade e da natureza, sem hipóteses de escolha — são as leis da vida e não destino — e existem coisas que nós podemos escolher livremente, por opção consciente — se houvesse destino não teríamos qualquer hipótese de escolha.

Seguidamente vai ser apresentado um pequeno teste que prova que o destino não está traçado, que somos nós que o vamos traçando e que nem tudo depende de nós. Chama-se a atenção para que este teste seja realizado uma única vez, seguindo-se cada passo correctamente, pois uma vez realizado não faz sentido a sua repetição.

Pede-se ao leitor para que escolha um dos seguintes números: 4, 14, 24, 34, 134, 234 e 1234. Imagine que o número que escolheu é o seu número da sorte. Se houvesse destino, e o leitor fosse um leitor com sorte, confirmaria de seguida o seu número, ou se fosse um leitor com azar não o confirmaria. No entanto, essa confirmação vai ser o leitor que vai ser levado a faze-la, e apesar de estar consciente que as suas decisões confirmarão ou não a sua sorte, não terá consciência de como isso acontecerá, e será da seguinte forma:

Conserve na sua memória, ou escreva num papel, o número que escolheu para não se esquecer qual foi, e de seguida vai escolher uma das seguintes letras, A, B, C e D, que correspondem aos quatro seguintes parágrafos, e vai continuar a sua leitura no parágrafo que escolheu (se escolheu o A continue no parágrafo A, se escolheu o B avance para o parágrafo B, se escolheu o C avance para C, e se escolheu o D avance para D) a partir de agora.

Parágrafo A: Se este foi o parágrafo que escolheu em primeiro lugar deve memorizar o algarismo 1 (um); e de seguida escolher um dos outros três parágrafos e continuar a leitura nele (se escolheu o B continue em B, se foi o C avance para C, e se foi o D avance para D).

Parágrafo B: Se este foi o parágrafo que escolheu deve memorizar o algarismo 2 (dois); escolher um dos outros dois parágrafos e continuar a leitura nele (se escolheu o C continue no parágrafo C e se escolheu o D avance para o parágrafo D).

Parágrafo C: Se este foi o parágrafo que escolheu deve memorizar o algarismo 3 (três); e como só tem mais um parágrafo, não tem qualquer hipótese de escolha, terá que continuar a leitura no parágrafo D.

Parágrafo D: Memorize o algarismo 4 (quatro), e continue a leitura.

Recorde agora todos os passos que escolheu e quais os algarismos que foi convidado a memorizar colocando-os na ordem da memorização. Com eles formará um número, que confirma, ou não, o número previamente escolhido. Por exemplo, se havia escolhido o número 4 e escolheu o parágrafo D confirmou a sua escolha.

Se houvesse destino bastaria ter escolhido o algarismo 4 e não haveria necessidade de o confirmar. A selecção dos parágrafos, da mesma forma que pode ter confirmado a primeira escolha também a pode ter desconfirmado. Na primeira escolha apenas terá havido espontaneidade, mas na segunda poderá já ter havido planeamento. Na vida somos também obrigados a tomar opções espontâneas, e a tomar decisões planeadas. Com ambas vamos traçando o nosso destino, que não existe à priori, mas que se vai formulando posteriormente. Somos levados a fazer muitas coisas que não compreendemos. Mas tudo tem explicação apesar de nós não a conhecermos. A ordem foi criada passo a passo. É o resultado de várias decisões que foram tomadas em cada momento. Ao escolher cada parágrafo, optando por um e rejeitando os outros, ou existia um motivo pessoal ou era mero acaso. Não era o destino que estava em jogo, mas a consciência e a liberdade de optar num momento exacto — optar bem ou mal — conforme os nossos desejos e o que as circunstâncias impõem. Ao escolher o primeiro parágrafo, como existiam quatro, em cada quatro hipóteses escolheria o que escolheu. Ao escolher o segundo, em cada três hipóteses escolheria o que escolheu. Ao escolher o terceiro, em cada duas vezes escolheria o que escolheu e deixava o outro para quarto sem qualquer hipótese de escolha.

Na vida, a cada momento, vamos optando e escolhendo um dos muitos caminhos que se nos apresentam, ou seguindo os caminhos que nos são impostos sem qualquer liberdade de escolha. Cada momento presente existe circundado de mais ou menos liberdade — assim como mais ou menos perdição — e é em cada momento presente que nós optamos ou não, trilhando a nossa vida, e deixando um rasto ao qual chamamos destino, mas que é apenas passado, fruto das nossas decisões. E é também em cada decisão de cada momento que podemos também influenciar todo o nosso futuro.

Saberemos melhor para onde se desloca um caracol se conhecermos o seu rasto. O nosso futuro prevê-se tendo em conta o passado e principalmente analisando as decisões do presente.

Se houvesse destino previamente marcado não haveria necessidade de nos preocuparmos com a vida, nem de lutarmos pelos nossos objectivos, nem de trabalharmos para crescermos. Pois se um homem nascesse predestinado a ser médico, não necessitaria de estudar porque seria médico pela força do destino, e se nascesse predestinado a não ser médico, ainda que muito estudasse, nunca o alcançaria — o que não é compreensível a qualquer raciocínio lógico.

A única possibilidade de alguém influenciar o nosso destino – futuro — está no facto de poder influenciar as nossas decisões ou decidir por nós. Só quem não tem capacidade mental, carácter ou responsabilidade, prefere que sejam os outros a decidirem por eles. E o seu destino é o que eles quiserem.

Quando alguém morre num acidente de automóvel por excesso de velocidade e se atribui a causa ao destino, seria mais racional atribuir a causa ao acto consciente de decidir carregar no pedal de aceleração.

Uma pessoa racional tem consciência de que a sua vida é feita de passado, presente e futuro — só irracionalmente se concebe a ideia de destino predeterminado.

 

 

 

 

 


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Sábado, 21 de Julho de 2007

Desejo

DESEJO

 

 

Um desejo é uma necessidade psicológica. É uma necessidade criada pela psicologia e pela criação artificial humana para a sua satisfação e bel-prazer, que está para o homem da mesma forma que qualquer outra necessidade vital está para qualquer outro ser vivo.

Qualquer ser vivo — animal ou planta — necessita de água para sobreviver. A natureza criou os dois — seres vivos e água — com uma relação de dependência organizada e involuntária.

O ser humano — animal racional, dotado de consciência — além de dependências vitais relacionadas com a própria natureza, criou, com a sua inteligência, novas necessidades de carácter humano, umas mais aproximadas da própria animalidade e outras puramente espiritualizadas, que podem ser vastas, confusas, e consideradas de vários pontos de vista.

A diferença entre uma necessidade e um desejo é que uma necessidade é de origem natural, involuntária e instintiva, e um desejo é de origem humana, voluntária e consciente. Todos os seres vivos têm necessidades, e o ser humano, como tal também as tem, mas só o ser humano tem desejos.

A supremacia do ser humano sobre todos os outros seres vivos e o facto de apenas ele ser dotado de consciência, fez com que entendesse todos os seres que o rodeiam conforme a sua própria concepção de vida. Um animal não pensa, mas o homem atribui-lhe pensamentos conforme os seus, porque também ele (homem) sente (dores físicas) como o animal. O animal necessita de água, mas o homem diz que ele deseja água. Só os humanos têm desejos porque só os humanos têm consciência.

Por exemplo: sexo e amor. Cada um e ambos podem ser a mesma coisa. Mas sexo todos os animais necessitam e amor só o homem deseja. O sexo dos animais é periódico e instintivo. O amor humano é regulado e racional. Ou regulável e racionável porque muitos desejos se confundem com necessidades, como o sexo se confunde com o amor. Como muitos valores naturais se confundem com valores humanos, porque o homem é um ser com uma dualidade complexa de animal-físico-instintivo e humano-espírito-consciente.

Todos os desejos foram criados pelo homem e inspirados por um lado nas suas próprias necessidades naturais (fome, sede, carinho, companhia, ternura, segurança, sexo, e tudo o que todos os seres vivos necessitam), e por outro lado nas suas criações artificiais (fama, orgulho, honra, glória, sucesso, poder, e todos os bens materiais artificiais).

O homem nasceu com necessidades, depois criou os desejos, e depois transformou os desejos em necessidades. Ninguém necessita de dinheiro por natureza — não alimenta nem sacia a sede — mas a vida humana desenvolvida é tão artificial que quem não tiver dinheiro não consegue viver — porque tudo se compra e tudo se vende. Através da evolução, por ser colectiva e inconsciente, o dinheiro passou de um desejo de alguns a uma necessidade de todos. Também quando se deseja qualquer coisa em demasia, a não satisfação desse desejo pode causar efeitos emocionais e orgânicos no corpo que podem originar um estado de doença, e logo, é criada uma necessidade fundamentada num desejo.

Um desejo é consciente e controlável, mas se não tivermos consciência disso, poderemos transformá-lo numa necessidade, se não quisermos ou não podermos controlá-lo.

A consciência gera o desejo que se pode controlar, a par e em relação ao inconsciente, que gera uma necessidade que é incontrolável.

Desejar é querer ter. Necessitar é ter que querer.

 

 

 


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Sábado, 30 de Junho de 2007

Conhecimento

CONHECIMENTO

 

 

Conhecimento é sabedoria, é inteligência, é erudição, é intelectualidade, é racionalidade, é experiência — é o conjunto de tudo isto, mas nada disto em particular.

O conhecimento apenas é acumulação de informação. Informação que pode ser útil ou não. Possuir grandes conhecimentos de assuntos que de nada servem é errado, é desperdício. É errada a célebre frase que afirma que “saber não ocupa lugar”. O saber ocupa lugar, e o lugar que possuímos para guardar o saber é limitado.

Possuir conhecimento de uma coisa é ter gravado na memória consciente essa coisa. [Eu sei que a bandeira portuguesa é verde e encarnada porque a recordo. A imagem da bandeira portuguesa está registada na minha memória consciente. Eu já vi as bandeiras de todos os países do mundo, e sei que todas as que vi estão registadas no meu inconsciente. Mas não as posso descrever todas. Apenas posso descrever as que recordo]. Assim, o conhecimento é apenas o que se recorda e do qual se pode falar conscientemente. E esta capacidade de recordar, de ter um acesso consciente à memória, é limitada, embora sejam indefiníveis os seus limites. Dependem da capacidade natural do cérebro.

A capacidade do cérebro, apesar de ser limitada quanto ao que é consciente, é de uma dimensão enormíssima, pois guarda tudo o que nos é útil, necessário e importante para o dia-a-dia, como a nossa identidade — psicológica e social — que se compõe de infinitas informações concretas (nomes, números, direcções, nºs de telefone, horários, programas, preços...) e de infinitas informações mais informais (linguagem, recordações, lembranças, desejos, sonhos, projectos, ideais...). Toda a nossa vida mental consciente está alicerçada em informação que nós manipulamos mentalmente. Essa manipulação consiste em relacionar uma imagem ou acto mental com a sua realidade concreta ou concretização real. Isso é conhecimento, real e consciente.

É este conhecimento consciente o mais importante na nossa vida. Pois é recorrendo ao passado e à memória que nós usamos o cérebro e a mente possibilitando a prática e a acção criando uma cadeia em continuidade. É também com a capacidade que nós temos de usar o conhecimento que temos acesso a mais conhecimento. Assim, o importante não é saber — até porque é impossível saber tudo — mas saber como saber o que é necessário em determinada situação. [É inútil eu saber, recordar e descrever todas as bandeiras do mundo, mas se por algum motivo eu tiver que as diferenciar, devo saber onde as posso encontrar para as descrever]. Repetindo, o importante não é saber, mas saber como saber.

O melhor conhecimento é o conhecimento consciente de chaves de acesso ao conhecimento inconsciente, individual ou colectivo. E esse conhecimento inconsciente é que é ilimitado. É que é tudo o que for a vida do homem. Tudo o que o homem quiser e não quiser.

Exceptuando as diferenças sócio-biológicas do cérebro e sendo ele conscientemente limitado, a explicação para que indivíduos em igualdade de circunstâncias possuam graus de conhecimentos diferentes encontra-se na forma como é usado o próprio consciente.

O consciente é usado de diferentes formas em cada indivíduo. Um indivíduo que sempre viveu no mundo rural, isolado da civilização e sem acesso à grande informação, tem o seu consciente ocupado apenas com o contexto do seu ambiente rural, não possuindo por motivos sociais conhecimentos mais abrangentes. Um forte adepto de futebol sabe conscientemente tudo sobre o futebol — história dos clubes, nomes dos intervenientes, etc. — mas como tem o seu consciente quase todo ocupado com o futebol não pode saber muito de outros assuntos — teria que esquecer o futebol — assim, por razões culturais, possui muitos conhecimentos de uma coisa, mas poucos de tudo. Um indivíduo que passe a maior parte do seu tempo em actividades monótonas e repetitivas, quer sejam de trabalho ou divertimento, ocupa o tempo sem nada aprender, preenchendo o seu consciente com futilidades e ainda que saiba tudo do trabalho ou do jogo possui pouco conhecimento geral.

Embora o mais importante na vida seja que cada um se sinta feliz independentemente da qualidade e quantidade de conhecimentos que possui, pode-se considerar que os exemplos citados referem cérebros subaproveitados. Mas se este subaproveitamento se considerar defeito, não é defeito inferior a um cérebro sobrecarregado, senão vejamos: imaginemos um indivíduo que possui muitos conhecimentos, estudou a vida inteira, passa os dias em bibliotecas, viajou muito, recebe informação de muitas fontes, conhece meio mundo e passou por inúmeras experiências.

Este indivíduo pode-se caracterizar de três formas: por um lado não pode ter estes conhecimentos todos presentes conscientemente. A maior parte deles — a grande parte mesmo — fazem parte do seu inconsciente, e só é verdadeiramente conhecedor se guardar conscientemente apenas as chaves de acesso ao enorme inconsciente. Não sabe uma coisa, mas sabe onde a encontra. E os livros ou os registos dos imensos meios de “gravação” que actualmente existem permitem ter acesso a uma quantidade infinita de informação. Só assim se tem verdadeiro conhecimento, pois de nada servem as coisas que já esqueceram e não podem ser recuperadas da memória.

Por outro lado, este indivíduo se não souber organizar a forma de guardar todo este conhecimento, mais facilmente tem perturbações mentais. Como a memória consciente é limitada, não podemos saber mais que aquilo que o cérebro permite, e como não sabemos os limites, podemos introduzir dados em excesso podendo estes provocar uma espécie de engarrafamento, de desorganização mental. Recorde-se que o próprio raciocínio é apenas uma “manipulação” mental de dados, se os dados forem excessivos, complexos ou indecifráveis, o cérebro bloqueia.

E por fim, de nada serve ser possuidor de um vasto conhecimento se em nada é usado na vida. O verdadeiro valor do conhecimento está na sua utilidade. O ideal, ainda que utópico, seria conhecer tudo o que fosse necessário conhecer, quaisquer que fossem as razões.

O conhecimento pode ser alterado e perturbado por acidentes, doenças, drogas ou medicamentos, que afectem o cérebro onde se aloja toda a memória, consciente e inconsciente, podendo o inconsciente manifestar-se de formas anormais — alterações de personalidade, amnésias, etc. E sabendo que o conhecimento útil é consciente e racional, pode ser também afectado por razões emocionais e afectivas. Pois quando uma pessoa está sentimentalmente ferida, o cérebro está demasiado ocupado com esse sofrimento e não tem capacidade para pensar. Este bloqueamento provocado pelos sentimentos pode levar aos mesmos problemas.

O conhecimento pode-se entender de quatro formas: individual consciente — aquilo que determinada pessoa sabe; individual inconsciente — aquilo que determinada pessoa soube, mas já esqueceu e aquilo que sabe sem saber que sabe, sabe inconscientemente; colectivo consciente — aquilo que todos sabem; colectivo inconsciente — aquilo de que ninguém se recorda, mas que pode estar ainda na memória de alguém, ou pode estar na natureza, nos museus e nas bibliotecas. Note-se que o inconsciente é composto não só de tudo o que já existiu conscientemente, mas também de tudo o que existe e ao qual ainda ninguém conscientemente teve acesso — a gravidade já existia antes de Newton formular as suas leis.

O conhecimento é apenas acumulação de informação. O importante é acumular informação que nos permita usar o próprio conhecimento.

 

 

 

 


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Domingo, 3 de Junho de 2007

Ciência

CIÊNCIA

 

 

“Conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios certos” — esta frase, adaptada, define o muito e o pouco que a ciência é.

Princípios certos são as manifestações que existem na natureza de forma abundante, repetitiva ou constante, que permitem ao homem a sua observação, registo, catalogação e outras formas de obtenção de dados que possibilitam o conhecimento de resultados de qualquer acção antes da sua existência real.

Para uma coisa existir cientificamente, essa coisa tem que ser observada várias vezes por várias pessoas capazes de a estudar exaustivamente para obterem o maior número de dados possíveis sobre todas as suas características, e por fim chegarem a um consenso sobre a sua realidade e a classificarem sobre todos os aspectos possíveis atribuindo-lhe um nome, e descrevendo todas as conclusões que a vão caracterizar como realidade existente cientificamente dai para o futuro.

A ciência nasceu na aurora da civilização humana, de uma forma instintiva e inconsciente, a par do nascimento da religião e do misticismo, pela constante observação da natureza, durante uma longa sequência de gerações que evoluiu até aos nossos dias.

O homem primitivo começou por observar a natureza e descobriu coisas maravilhosas. Descobriu que umas coisas são mais pesadas e outras são mais leves; descobriu que umas são mais altas e outras mais baixas; descobriu que se partir uma coisa, fica com duas ou mais; descobriu que se essa coisa for uniforme e a partir a meio fica com duas iguais e metade mais pequenas que a primeira — e para que não tivesse que transportar o tronco mais comprido, e logo mais pesado, quando bastava o tronco mais curto e mais leve, ou para não ter que transportar diversos troncos e ter que os colocar sobre o riacho, para escolher o ideal para colocar sobre o riacho que desejava atravessar, sentiu necessidade de medir o riacho para procurar o tronco com a medida exacta. A invenção da medida do riacho para depois comparar com a medida dos troncos encontrados, foi o grande passo científico, pois permitiu saber qual o tronco ideal antes de o colocar.

E assim nasceu a ciência. Estuda-se na natureza a possibilidade de inventar medidas sobre ela, e uma vez inventadas, usam-se essas medidas como guia para o futuro.

A ciência nasceu instintivamente pela observação de factos naturais testáveis e mensuráveis, a par da religião que nasceu instintivamente pela observação de todos os factos naturais, inclusivamente não testáveis e incomensuráveis. A evolução da ciência na forma de cada vez mais medir e testar a natureza, e logo de a compreender, tendeu para a contestação, oposição e até negação da própria religião, acabando actualmente por inverter essa tendência ao dedicar-se ao estudo científico da própria religião, numa tentativa de a “medir”, ou de medir o seu efeito no homem.

Iniciando-se a grande jornada científica no campo das ciências exactas — lógica, matemática, física, astronomia, geografia, biologia — evoluindo para as ciências aplicadas — tecnologia, engenharia, medicina — continuando a evolução no capo das ciências económicas, sociais e políticas — história, direito, sociologia — e cada vez mais no campo das ciências humanas — filosofia, psicologia — a ciência evoluiu em interdependência com a religião devido ao grande peso da religião no passado, cuja influência na pesquisa científica era sempre um facto, favorável ou desfavorável conforme a aceitação ou negação dos resultados, de acordo com os interesses da própria religião.

Tudo existe na natureza anteriormente ao homem. Todas as matérias, todos os movimentos e todas as energias já existiam quando o homem, com a sua inteligência, as começou a observar. A sua observação inteligente originou a possibilidade e a necessidade da criação de medidas. A possibilidade deve-se à constância de determinadas características — uma coisa com tamanho constante permite inventar medidas de comprimento (era impossível inventar o “metro” numa matéria elástica). Todas as medidas foram inventadas pelo homem devido à constância de determinadas características, de determinada matéria ou energia. A necessidade de criação de medidas deve-se ao facto de só com medidas ser possível comparar, para melhor escolher. Também só com medidas se pode teorizar uma coisa, para melhor a estudar e compreender. Além disso, sem medidas é impossível existir vida social e racional. As medidas são as referências pelas quais se orienta o homem civilizado: é impossível marcar um encontro sem uma data, uma hora, e sem um local; é impossível encomendar um artigo sem dizer qual; é impossível fazer uma obra sem projecto; é impossível fazer um telefonema sem marcar um número — todo o acto racional requer referências teóricas.

Qualquer medida é inventada por qualquer pessoa de forma a identificar qualquer coisa para que possa ser comparada consigo própria ou com outra. Uma medida uma vez obtida/inventada por alguém é dada ao conhecimento e consideração dos outros que a vão aceitar ou reprovar conforme a sua utilidade. Todas as medidas são inventadas por alguém e são aceites pela maioria para bem dessa maioria. Todas as medidas são aceites quando a sua organização é lógica, constante e infinita, ou completa e aplicável, sem deixar qualquer margem de dúvidas. E todas as medidas são valores elementares teóricos criados a partir da observação da natureza, com o objectivo de a racionalizar e compreender, para depois melhor a poder transformar e dominar.

A matemática e a álgebra são a base de toda a ciência, porque toda a ciência funciona com medidas e todas as medidas são representadas com números e letras. Os próprios números e letras não existem na natureza, foi o homem que os inventou, mas aplicam-se a tudo porque tudo o que o que a ciência envolve se traduz teoricamente por números e letras. E esta teorização é criada pelo homem a partir da natureza.

Todas as matérias, todas as energias, todas as formas geométricas, todas as cores, todos os sons, todas as radiações, todos os movimentos, todas as velocidades, todas as pressões, todas as densidades, e todas as forças electromagnéticas, gravitacionais, caloríficas, atómicas e nucleares, assim como as correlações existentes entre todas estas partes, já existiam na natureza antes do homem as descobrir, estudar, medir e classificar como medidas cientificamente existentes. E as medidas de comprimento, superfície, volume, massa, tempo, frequência, velocidade, aceleração, força, energia, potência, intensidade, resistência, temperatura, radiação, e etc; apenas foram os modelos inventados que possibilitaram essa classificação com realidades cientificamente provadas.

As medidas científicas partem de uma unidade padrão — grama, litro, watt, metro, hertz, bit, grau — e estendem-se em múltiplos e submúltiplos, multiplicando-se e desmultiplicando-se de mais infinito a menos infinito, abrangendo toda a realidade, cada uma no campo que mede. São generalizadas por imposição ou conveniência e de acordo com a maior perfeição na tradução da existência natural, para maior compreensão racional e científica — muitas sociedades do passado guiaram-se por calendários muito diferentes do actual calendário gregoriano, acabando este por se generalizar no mundo ocidental devido à sua maior perfeição em relação aos movimentos naturais de rotação e translação da terra. No entanto, se for descoberta/inventada outra forma de medir o tempo, ainda mais perfeita, esta se extinguirá. Acontece isto com todas as formas de medir a natureza, mas algumas são de tal forma lógicas, que são tidas como arquétipos — dois mais dois são quatro em todo o mundo, mas existem várias formas de linguagem, como várias formas de numeração e certamente várias formas de cálculo.

As descobertas científicas acontecem algumas vezes por mero acaso, e normalmente após aprofundados estudos. Cada nova descoberta é influenciada pelas anteriores e vai influenciar as posteriores, como que num ciclo evolutivo multiplicativo. A história da evolução científica relata-nos longos períodos no passado para a aceitação de uma nova verdade científica, tendo a grande maioria das descobertas acontecido nos séculos mais recentes. Actualmente, nos muitos laboratórios industriais e das universidades espalhadas por todo o mundo são permanentemente feitas novas descobertas científicas.

O conhecido método científico define como funciona a ciência. A formulação de questões só é possível quando temos dúvidas e quando nos interrogamos. A elaboração de hipóteses só é possível quando temos matéria para observarmos e nos dedicamos a isso. A verificação das hipóteses só é possível quando existem medidas previamente estabelecidas e aplicáveis, ou constância de características que permitem a criação de medidas novas ou ocasionais para que todas as variáveis conhecidas sejam controladas. E a obtenção de resultados e formulação de conclusões só é possível quando os três passos anteriores são concluídos de forma clara, inequívoca, indubitável e repetível.

Assim, sempre que não temos dúvidas e não nos interrogamos, sempre que não temos matéria para observar, sempre que não temos medidas nem as podemos criar, e sempre que as conclusões são obscuras, duvidosas, e não é possível repetir o estudo para que se possa replicar qualquer coisa, essa coisa não existe cientificamente.

E é aqui que encontramos os limites da ciência. Porque tudo o que foi provado cientificamente, já existia antes de o ser. E tudo o que existe e não está provado cientificamente, pode não existir realmente ou pode não existir até ser provado pela ciência. E todos sabemos que existem muitas coisas concretas que a ciência não explica: ainda não é possível prever exactamente o estado do tempo; ainda não é possível prever sismos: ainda não é possível conhecer o código genético completo de uma pessoa; ainda não se conhecem as verdadeiras causas da homossexualidade; ainda não se descobriram vacinas para o cancro e para a sida; ainda desconhecemos a finalidade dos sonhos; ainda sabemos pouco sobre o funcionamento e capacidade do cérebro humano; ainda não sabemos se existem extraterrestres; ainda não sabemos de onde vimos nem para onde vamos — isto são só alguns dos inúmeros exemplos que provam a nossa ignorância científica perante a vida.

Estes são exemplos que a ciência não clarifica, mas procura clarificar e admite a sua ignorância. No entanto existem outros que a ciência nega categoricamente, mas que são realidades absolutas para muitas pessoas, tais como as crenças populares e as superstições, as medicinas alternativas e os fenómenos parapsicológicos, as seitas religiosas e os rituais culturais, a fé e Deus.

Só o futuro dirá se a ciência se vai impor negando todas estas realidades e originando um mundo completamente compreensível e racionalizado, ou se todas estas realidades irão influenciar a ciência de forma a tornar possível a sua medição e aprovação científica. Só o futuro dirá se Deus vai deixar de existir ou se a ciência o vai provar cientificamente.

Provavelmente não acontecerá uma coisa nem outra. A evolução do conhecimento científico acaba por aceitar a teoria da relatividade e a física quântica, em que uma nova descoberta ou um novo dado pode influenciar toda a percepção do passado, deitando por terra as conceptualizações cientificamente testadas — repare-se que a nave espacial “Challenger” possuía a mais elevada tecnologia, e era testada pelos mais proficientes especialistas e, no entanto, tudo se perdeu. Por outro lado, cada vez mais nas universidades proliferam cursos relacionados com as ciências sociais, humanas e religiosas.

É que o homem é um ser natural e criou a ciência a partir da sua natureza. E por muito que entre em contradição negando parte de si mesmo, a verdade é que acaba por voltar à sua natureza. O homem é um todo e a ciência é apenas parte dele.

A honra, o orgulho, o respeito, a dor, o amor, a paixão, a alegria, a tristeza, o desejo, a ambição, a fama, a vaidade, o luto, a saudade, a vontade, a angustia, o medo, o ódio, a inveja, o desespero, a fé, e muitos outros sentimentos e valores humanos, não se podem medir numa escala objectiva científica e isso não os torna inexistentes. Da mesma forma que a altura, a raça, o sexo, a cor dos olhos, a forma dos cabelos, a estatura, o grupo sanguíneo, o código genético, o nome, a idade, o estado civil, a profissão, a religião, o número do cartão de identidade, o número fiscal, o número de eleitor, e muitos outros números e escalas objectivas de identificação provadas cientificamente, por si só, não chegam para concluir a existência real de um ser humano.

Tudo o que existe concreta e objectivamente, e cientificamente testado, é importante para o desenvolvimento humano, e para que o homem se compreenda a si próprio e tudo o que o rodeia. No entanto, por mais evoluída que esteja a ciência, o seu impacto no ser humano nunca será superior a metade da sua globalidade, porque o homem é uma unidade dualística, de corpo e alma, físico e espiritual.

E toda a criação científica, tecnológica e artificial, foi originada a partir da natureza, não ultrapassou os limites impostos pela natureza, e apenas criou condições de adaptabilidade, segurança, bem-estar, prazer e relativo domínio do homem em relação à própria natureza, mas nunca eliminando ou substituindo princípios naturais básicos para a sobrevivência humana, como as necessidades biológicas.

A ciência apenas permitiu ao homem que se distanciasse dos outros animais possibilitando-lhe uma vida com autoconhecimento, autocontrolo e dignidade. É sempre uma possibilidade — mas nem sempre uma realidade.

 

 

 

 


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Domingo, 27 de Maio de 2007

Cérebro

CÉREBRO

 

 

O cérebro é uma pequena parte do corpo humano onde se localiza a sede do sistema organizado mais complexo do universo, e o maior desafio da ciência. O homem tem mais conhecimentos das leis que regem o universo do que como funciona o seu próprio cérebro.

O cérebro é o elemento essencial que distingue o homem dos outros animais. E pela quantidade de massa encefálica e principalmente pela complexidade do seu funcionamento, é que o homem de distanciou dos outros animais, criando um mundo novo — cultural, religioso, psicológico e tecnológico — que lhe proporcionou um enorme nível de superioridade sobre todos os outros seres vivos e sobre parte da natureza.

A qualidade de humano está precisamente na existência de um cérebro superior. A inteligência está no cérebro. O seu tamanho, peso e complexidade são características determinantes. O homem é o ser superior por ter um cérebro superior em relação aos outros animais, e logo, demais seres vivos. É por isso considerado — embora por si próprio — o único animal racional devido à diferença existente entre o seu próprio cérebro e o cérebro dos outros animais, dotados também de inteligência. Os animais irracionais também têm cérebro e a inteligência existe em cada animal conforme seja a estrutura do seu cérebro, mas, mesmo os animais irracionais mais inteligentes — cão, cavalo, golfinho — estão muito aquém da inteligência racional humana, e por essa razão, quando se fala em cérebro tem-se presente apenas o cérebro humano. O órgão que torna o homem um ser por excelência em toda a natureza.

O cérebro humano é um órgão do corpo humano como todos os outros, mas com uma função especial: raciocinar ou pensar. O homem pensa porque tem cérebro e o cérebro existe no homem para pensar, pois o homem sem cérebro não é homem, e o cérebro sem homem (corpo) não pensa.

Só se pode entender o cérebro tendo em conta todo o sistema nervoso que se estende desde as vísceras em milhões de terminais, passando pela complexa rede nervosa de ligação à espinal-medula, que juntamente com o sistema periférico, somático e autónomo, está por sua vez ligada ao sistema nervoso central, através do bolbo raquidiano que se une ao encéfalo, onde se encontram os hemisférios cerebrais e as zonas corticais do córtex cerebral, incluindo o cerebelo, o mesencéfalo constituído pelo tálamo e pelo hipotálamo, o miencéfalo e até os sistemas límbico e reticular, e finalmente no telencéfalo, o cérebro, propriamente dito, ou a massa cinzenta com as circunvoluções, os sulcos, e os diversos lobos e áreas determinadas para — pensa-se — determinados fins. Isto em síntese.

O cérebro é o conjunto de muitos milhões de células nervosas — neurónios — insensíveis à dor, protegidos pela caixa craniana, com ramificações — axónios — que as interligam eléctrica e quimicamente — sinapses — por estímulos provocados pelos diversos neurotransmissores (tirosina, dopamina, adrenalina...).

Por serem extremamente sensíveis e extremamente complexas, as células reagem ao menor estímulo recebido, quer de todo o sistema nervoso e do próprio corpo, quer de outras células pares, formando quantidades inimagináveis de cadeias energéticas. Não é possível à ciência actual fazer cálculos exactos respeitantes à actividade cerebral. Estimativas referem para um cérebro humano o peso de 1350 gramas, 14 biliões de neurónios, cada neurónio podendo ter de cem a mil impulsos por segundo, causando de seis a sessenta mil sinapses em simultâneo, podendo existir em cada 2,5 cm cúbicos de massa cerebral 600 milhões de sinapses.

Esta energia, eléctrica, gerada por processos bioquímicos dos neurónios, com todos estes movimentos e paragens, faz com que cada neurónio transmita para outros o que deve transmitir e reter o que deve ser retido. O conjunto dos movimentos e paragens, em locais da rede cerebral, determinados naturalmente, faz cada parte do cérebro e o seu todo, funcionar para os fins para que existe.

E o cérebro existe para permitir ao homem um elevado potencial de captação, registo, transformação, criação e emissão de informação que o caracteriza como animal superior. O cérebro é o suporte físico — pelos neurónios que guardam a informação e pela actividade eléctrica permanente entre eles — de todas as propriedades que caracterizam ou definem o ser humano, tais como: inteligência, sabedoria, conhecimento, memória, mentalidade, personalidade, identidade, imaginação, pensamento, consciência, linguagem, cultura, religião, etc.  Pois todas estas propriedades só existem no homem porque este possui um cérebro.

O cérebro funciona com energia eléctrica autoproduzida pelas diferentes cargas entre os terminais neuronais. A energia é permanentemente alterada conforme a quantidade e características dos estímulos recebidos do exterior, a sua manipulação interna, e a necessidade de criação e exteriorização. Para o cérebro funcionar perfeitamente precisa de duas condições essenciais: que seja naturalmente saudável num corpo saudável com boa irrigação de sangue carregado de oxigénio, e que a sua estruturação mental seja bem organizada pelo indivíduo, ou seja, que tenha equilíbrio quer biológica quer psicologicamente. O excesso ou falta de sangue provoca danos neurológicos e o excesso ou falta de informação provoca danos psicológicos.

Todo o funcionamento do cérebro, e do homem como ser único de actividade cerebral racional consiste na memorização de dados de informação e na sua transformação condicionada pelos dados anteriormente memorizados, para posterior utilização. Assim, pondo de parte as deficiências neurológicas e anatómicas, o cérebro começa por registar dados, cada neurónio ou conjunto de neurónios grava uma unidade de informação. Aos poucos o cérebro começa a criar ideias. Os neurónios “trabalham” as unidades de informação até estarem organizadas ou estruturadas. Esta sucessão enorme de “gravação” de unidades de informação (trinta por segundo aproximadamente), após devidamente “trabalhada” forma tudo o que o homem tem de psicológico — ideias, conhecimentos, planos, pensamentos, mentalidade... A informação recebida posteriormente é organizada tendo em conta a informação recebida anteriormente, de uma forma cumulativa e integrante, ou seja, os neurónios distribuem a nova informação conforme o que já está memorizado.

Todo o envolvimento psicológico humano está retido na memória. A memorização é a principal função do cérebro, pois todas as outras estão dependentes dela. Mas a memorização pode ser consciente ou inconsciente, e a transformação ou manipulação de dados na memória e a sua exteriorização também pode ser consciente ou inconsciente. Teorias dizem que só usamos conscientemente cinco por cento do cérebro. No entanto, consciente ou inconscientemente, todo o nosso cérebro se compõe de um emaranhado de conexões eléctro-bioquímicas em que cada neurónio condiciona o encaminhamento da informação pelos meandros da memória.

O cérebro é o órgão mais atractivo para o mundo médico- científico actual, e do qual se sabe menos. Neurologicamente todos os dias se fazem novas descobertas, com cada vez mais evoluída tecnologia. Certamente essas descobertas neurológicas contribuirão para um melhor conhecimento psicológico do cérebro.

Por enquanto, o cérebro continua a ser um grande enigma para o homem.

 

 

 

 


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