Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Instinto

INSTINTO

 

 

O homem tenta compreender pela sua inteligência e da forma mais racional possível tudo o que o rodeia. É assim com cada ser humano individual e é assim com o conjunto de todos os seres humanos de toda a história. Mas, o nível de capacidade de compreensão racional é limitado. Ou porque o é mesmo por natureza, ou porque o desenvolvimento ainda não é suficiente para a compreensão total ou mais elevada. Certamente a sua capacidade é limitada, mas os limites ainda não foram atingidos porque ainda se continua a evoluir. Só o futuro o dirá, mas no presente os factos são irrefutáveis, e dizem-nos que o homem ainda não compreende tudo o que o rodeia. E, apesar da subjectividade que esta afirmação pode compreender, porque se o homem sabe tudo porque tudo o que é sabível só o pode ser pelo homem, também o homem não sabe nada porque tudo o que ele sabe foi ele quem inventou, sem ninguém para além dele poder confirmar que está correcto, podendo assim estar tudo errado. E como o homem é insignificante perante a imensidão do universo, será exacto afirmar que o nível de conhecimento é menor que o nível de desconhecimento, de tudo o que existe.

O instinto é uma das coisas que o homem já sabe que existe, mas ainda não sabe porque existe. Como todas as coisas inexplicáveis começaram por ser atribuídas ao sobrenatural e passaram a ser atribuídas à natureza à medida que foram explicadas, também o instinto, apesar de ser parcialmente inexplicável é certamente natural. Ou talvez a explicação fique mesmo por aí, é assim, e natural, e basta.

Pois quando nós inadvertidamente pousamos a mão sobre o forno quente, sabemos que os sensores da pele ao sentirem o calor, enviam imediatamente uma mensagem ao cérebro, que este transforma numa ordem que faz os músculos agirem de forma a retirarem a mão do calor. Este processo é muito mais complexo quando explicado com pormenores científicos, mas a acção é tão rápida que podemos não a chegar a registar conscientemente. Sabemos que é assim, e sabemos como é com todos os pormenores, mas não sabemos porque é que é assim. É a natureza. E talvez a explicação mais plausível seja a regra de causa-efeito, cuja complexidade causa a acção, que por ser por natureza ínfima, não chega a ser compreensível conscientemente, e quando esmiuçada, acaba por se perder no nada. Porque o todo é mais do que a soma das partes, e o conhecimento das partes é insuficiente para explicar o todo.

Tudo o que acontece por instinto é tudo o que acontece por natureza, sem ser pensado. E como só o homem é que pensa — e nem sempre — então, tudo o que acontece para além do que é conscientemente planeado é instintivo. Mas, apesar dos movimentos cósmicos, atmosféricos, meteorológicos, florestais, aquáticos e de muitos outros movimentos minerais, vegetais e até animais e humanos, serem naturais, não significa que sejam instintivos. O sangue que corre nas veias, os pulmões que se dilatam e contraem, ou o cabelo que cresce, são movimentos que acontecem por natureza, mas que não podemos considerar instintivos, porque não os podemos controlar.

Assim, é instintivo todo o movimento natural que acontece inconscientemente, mas que é susceptível de poder acontecer conscientemente. Tudo o que acontece impensavelmente, mas que se considera que podia ser pensado. E como só o homem pensa, só ele pratica actos ou tem atitudes e comportamentos que são instintivos. E é ele que atribui aos animais as suas características instintivas, por serem os animais os seres vivos mais aproximados ao homem, e também dotados de inteligências inferiores, mais ou menos evoluídas conforme a sua espécie.

O instinto existe então em oposição à consciência. Só sabemos que não pensamos quando sabemos que podíamos ter pensado. Se não tivéssemos consciência nunca saberíamos que erramos. A consciência é também o suporte dos problemas psicológicos. Quando andamos com algum desequilíbrio psicológico, por preocupações, ansiedades, desejos, saudades, paixões, ódios ou remorsos em excesso, ficamos com a capacidade de pensar bloqueada, e o sangue “quente” que nos invade a mente leva-nos a praticar actos que só os outros ou nós mais tarde consideramos instintivos. No momento, como os animais, fazemos as coisas porque fazemos, naturalmente, com determinadas causas e efeitos, mas sem qualquer tipo de entendimento, compreensão, pensamento ou consciência.

Pelo meio fica tudo o que não é totalmente natural, nem totalmente consciente, e se mistura em doses de natureza e de consciência, que nos levam aos meandros da subjectividade, da diversidade e da reflexão.

 

 

 


publicado por sl às 00:44
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Domingo, 19 de Agosto de 2007

Dinheiro

DINHEIRO

 

 

O dinheiro é a invenção dos homens que mais transformou a sua vida. Foi inventado para facilitar as trocas comerciais e acabou por servir de valor que representa quase todos os outros valores.

Quando surgiram os primeiros mercados, há alguns milhares de anos, os negócios eram feitos trocando-se os produtos uns pelos outros. Um mercador teria que ter um produto para vender que outro desejasse comprar, e este, por sua vez, teria que ter outro produto para vender, que o primeiro desejasse comprar. Reunir estas condições tornava-se muitas vezes difícil, dai que surgiu a necessidade de criar um terceiro produto, diferente, cuja finalidade fosse poder ser trocado por todos os outros. Criou-se então o dinheiro.

O dinheiro é algo de simbólico que existiu e existe representado materialmente das mais diversas formas. Em moedas de diversos metais, em notas de papel (papel-moeda), em vales, em letras, em cheques, em títulos e em registos informáticos, quase imaterialmente, movimentado por digitalização e bandas magnéticas ou chips electrónicos, só visível o seu valor em monitores ou extractos impressos.

O dinheiro por si só não tem qualquer valor, mas como tudo se pode trocar e pode ser trocado por ele, então, por isso, o dinheiro é a coisa que mais tem valor.

Mas o dinheiro só tem valor quando cotado numa sociedade organizada, com leis de mercado que garantem que quando recebido na venda de um produto, está registado e conforme as leis, de forma a poder ser utilizado na compra de outro produto, e assim sucessivamente.

Nos primórdios do mundo económico — simples economias locais onde se vivia em comunidade — quem possuísse um produto em excesso dividia-o por quem tivesse falta dele. Tudo se dava e tudo se dividia mútua e amigavelmente, naturalmente uns mais, outros menos. Mas os mercados evoluíram. Aumentaram as trocas de produtos e passaram a haver pessoas a viver exclusivamente dessas trocas, comprando a uns e vendendo a outros — os comerciantes.

O mundo continuou a evoluir, existiram grandes progressos científicos, sociais e económicos. Foram criados os bancos e outras instituições de crédito. Grandes mercados começaram a funcionar à escala mundial. Até que o próprio dinheiro começou a ser comprado e vendido, devido aos diferentes valores que lhe são atribuídos.

O progresso faz aumentar a riqueza mundial, mas faz também aumentar a população. Cada vez mais os bens têm que ser distribuídos por cada vez mais pessoas, e logo, cada vez mais cada pessoa tem menos — com a agravante, ou talvez não, de não serem distribuídos igualitariamente.

O valor económico predomina sobre todos os outros valores. Quem tem dinheiro, tem tudo. Quem tem poder económico, tem tudo. Quem tem valores económicos com valor comercial, tem tudo. Os valores não materiais, como o moral, espiritual, familiar, religioso, cultural, artístico, desportivo, etc; só têm realmente valor quando podem ser comercializados. Uma ideia só é valorizada quando pode ser directa ou indirectamente comercializada. Quando pode ser directa ou indirectamente transformada em dinheiro. Tudo o que pode ser transformado em dinheiro, vale, tudo o que não pode ser transformado em dinheiro, não vale.

Como quem tem dinheiro tem tudo e quem não tem dinheiro não tem nada, então, vale tudo para ter dinheiro. Porque se, cada vez, há menos dinheiro para cada pessoa — embora o dinheiro não seja estanque, isto é, aumenta constantemente conforme o crescimento económico que é gerido pela balança da economia que actua sempre que há valorização ou desvalorização excessiva — e se cada vez, cada pessoa vale mais se possuir mais dinheiro, então, o medo de não ter dinheiro, que é o mesmo que o medo de não ter valor, que é o mesmo que o medo de não ser ninguém, que é o mesmo que o medo de não ser respeitado, que é o mesmo que o medo de não existir, faz com que cada pessoa use todos os meios, lícitos ou não, legais ou não, éticos ou não, para adquirir dinheiro, que é o mesmo que para existir, ou para sobreviver.

Para se sobreviver, no mundo actual moderno, é imprescindível ter dinheiro. Quem tem dinheiro sobrevive, quem não tem dinheiro morre [há actualmente lugares onde se paga para respirar (por enquanto, só ar puro)].

A luta pela sobrevivência, que é o mesmo que a luta pelo poder ou a luta pelo dinheiro, transforma as pessoas em seres insensíveis, indolentes, completamente indiferentes aos problemas dos outros.

E quem tem dinheiro apregoa os valores sociais, os valores humanos, as boas intenções, a moral e os bons costumes. No fundo, sabe que o que conta é o dinheiro, mas é importante que os outros não pensem assim, porque quanto menos dinheiro os “pobres” desejarem mais os “ricos” dividem entre si. E o dinheiro traz dinheiro como a pobreza traz pobreza, criando-se um conjunto de ciclos viciosos que transformam os – poucos — ricos cada vez mais ricos, e os – muitos — pobres cada vez mais pobres.

 

 

 

 

 


publicado por sl às 01:10
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